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    A Floresta de Mãos e Dentes (1001 Mundos) -

    Carrie Ryan

    Edições Asa
    2010
    254 páginas
    8h 28m
    ISBN-13: 9789895577057
    Português
    3.6
    526 avaliações
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    Mary sabe pouco sobre o passado ou sobre o porquê de no mundo existirem dois tipos de pessoas: os que residem na sua vila e os mortos-vivos do lado de fora da cerca, que vivem de devorar a carne dos vivos. As Irmãs protegem a Vila e promovem a continuidade da raça Humana. Depois de a sua mãe ser mordida e se juntar aos amaldiçoados, Mary é enviada às Irmãs para se preparar para o Casamento com o seu amigo Harry. Mas as cercas são quebradas e o mundo que Mary conhece desaparece para sempre. Mary, Harry, Travis, que Mary ama mas que está prometido à sua melhor amiga, o irmão de Mary, a sua mulher e um pequeno órfão partem rumo ao desconhecido em busca de um lugar seguro, respostas às suas perguntas e uma razão para continuar a viver.

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    Luciana Darce picture
    Luciana Darce29/08/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    "No momento entre a morte de minha mãe e seu Retorno, eu deixei de acreditar em Deus."

    Já escrevi extensamente sobre o assunto dos zumbis no Coruja, traçando suas origens folclóricas, seu desenvolvimento na literatura até a entronização pop com George Romero – fora o nosso pequeno debate sobre como se livrar dos zumbis e os erros que você deve evitar cometer se quiser sobreviver ao cenário pós-apocalíptico em que hordas de mortos vivos perambulam por aí. Fiz isso com todo o meu senso de humor bizarro – primeiro, em homenagem ao estilo “filme B” que imperou na concepção do arquétipo e segundo porque... bem, porque meu senso de humor é realmente algo absurdo. Assim é que fui ler A Floresta de Mãos e Dentes com expectativas de riso porque, vai se saber o motivo, na minha cabeça, zumbis sendo desmembrados me fazem rir. E terminei estupefata... quase às lágrimas, para ser sincera. Nesse livro vivemos o já conhecido cenário pós-apocalíptico em que hordas de "Não Consagrados" (como são chamados os zumbis) passam sua existência procurando brechas na cerca que protege o vilarejo em que vive nossa protagonista, Mary. Tal cerca, feita de metal, está lá desde tempos imemoriais e é dever dos Guardiães e da Irmandade cuidar para que elas continuem protegendo sua cidade. Eu passei algum tempo refletindo se o metal seria apenas uma barreira física ou se haveria algo mais nessas cercas que impediriam os zumbis de simplesmente passarem por cima delas e atacarem a vila. Considerando o viés religioso dado pela presença da Irmandande e das explicações de irmã Tabitha, em que os "não consagrados" são uma resposta, um castigo divino à arrogância humana, faz bastante sentido, já que o ferro, o metal, tem uma função de prender e purificar dentro da idéia de exorcismo, da mesma forma que o sal, aliás. Considerações histórico-religiosas de lado, essa cerca protege a vila, mas representa também - e especialmente para Mary - uma prisão. E assim é que, a despeito do terror que aguarda do outro lado da cerca, na floresta de mãos e dentes, ela anseia por deixar a vila e viajar até um lugar intocado pelo Retorno (como é chamado o momento em que os zumbis voltam à existência): o oceano. Até aí, nada de terrivelmente novo. Qualquer um que vivesse cercado por cadáveres putrefatos que passam sua inteira existência tendo por único impulso a busca por alimento - carne humana - sonharia com um lugar onde estivesse livre desse pesadelo. O que me impressionou na Carrie Ryan, contudo, foi a maneira como ela construiu e desconstruiu a identidade de seus não consagrados. Diferente do grosso de livros e filmes sobre o assunto, em que os zumbis não são mais que alvos que caminham; somos lembrados a cada passo da jornada de Mary - que poderá ou não levá-la ao oceano - que aquela turba incansável e insensível já foi seres individuais, pessoas que um dia tiveram sonhos, amores, uma inteira história. O curioso é que de todas as criaturas sobrenaturais, os zumbis deveriam ser uma das que nos despertam mais compaixão e não apenas instintos de sobrevivência estilo rambo. Eles não têm a forma animalesca de um lobo e não são necessariamente estranhos a nós - como um conde de presas afiadas que conhecemos ao viajar para um país minúsculo e quase esquecido. Pelo contrário: eles são nossos vizinhos, nossos amigos de infância, nossos irmãos, nossos pais, nossos amores. Eles possuem um rosto que nos é conhecido e, um dia, foram entes queridos e estimados. Esse princípio é angustiante e terrível e não é à toa que Mary jamais consegue esquecer ou substituir seu anseio pelo mar - nem mesmo pelos vínculos com as pessoas que ama. No final, mais que as pessoas que a cercam, ela está completamente envlvida pelas histórias que, no fundo, representam sua única e febril esperança. E aqui se lança mais uma vez a questão religiosa ou talvez, não tanto religiosa, mas mais política - porque na vila, o poder político e religioso se confundem na figura da Irmandade - é certo as irmãs controlarem o vilarejo da forma como o fazem, guardando segredos, mantendo todos na ignorância, sacrificando inocentes em nome de um "bem maior"? Li A Floresta de Mãos e Dentes quase que de uma sentada só (em algum momento tive de parar e ir dormir, porque já começara a cabecear contra a parede) e acho que nunca torci tanto por uma heroína tão intrinsecamente egoísta ou fiquei com o coração mais partido à morte de... bem, de um morto-vivo. Dou um destaque especial à irmã Tabitha. Passei a primeira parte da história tentando entender a mulher, porque, ao menos na minha cabeça, ela parecia uma contradição, um mistério, um enigma. Para mim, a história, o passado da irmã Tabitha será uma das grandes chaves para entender aquele mundo cercado pela floresta de mãos e dentes. Por isso que eu fucei e fucei pelo google afora, até descobrir que existe um conto da Carrie Ryan na antologia Kiss me Deadly, que retrata a irmã Tabitha quando ela tinha a idade da Mary. Tudo bem que terei de esperar até outubro para deitar as mãos na bendita cópia que encomendei, mas até lá vou lendo os outros livros da série. Enquanto espero, vou tecendo mil teorias, tentando descobrir, no final das contas, o que ocasionou o Retorno. E o que vai acontecer daqui para frente, claro. Volto quando chegar a alguma conclusão...

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