Segundo informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Cais do Valongo foi o maior complexo de comércio escravagista das Américas. O Brasil foi o país que mais recebeu cativos trazidos da África e o Rio de Janeiro foi seu principal porto a partir de fins de século XVIII, sendo a região do Valongo o local de entrada e o centro do comércio escravagista na cidade naquela época. O cais foi construído em 1811, no local que desde 1774 recebia com exclusividade os africanos escravizados que entravam no Brasil através do porto do Rio de Janeiro. Nesse ambiente funcionava o mercado de escravos, que incluía os depósitos e armazéns de escravos, o Cemitério dos Pretos Novos, que recebia os corpos daqueles que não resistiam às duras condições da travessia atlântica, e o Lazareto da Gamboa, destinado à quarentena dos escravos doentes recém-chegados.
É neste cenário tão vergonhoso da nossa história que Eliana Alves Cruz situa sua envolvente narrativa: quem foi o responsável pela morte do desprezível comerciante branco Bernardo Lourenço Viana? Mas o grande mérito do livro está em imergir o leitor na estrutura do comércio escravagista, propiciando o contato com as tradições religiosas africanas, a percepção da crueldade dos tumbeiros (navios negreiros) e o entendimento das condições de vida e trabalho dos escravizados. A cada página, somos expostos às dores e sentimentos daqueles que foram arrancados de suas terras e trazidos à força para este lado do Atlântico, se tornando propriedades e sendo expostos a todo tido de violência e humilhação.