Mistrais
" Colha os ventos semeados nestas páginas e faça sua a brisa, a tempestade". Com esta dedicatória recebi das mãos de Anna Apolinário o seu livro "Mistrais" ( 2014) e ao ler seus versos o mistral com seu verto ardente e simbólico invadiu meus olhos diante de cada palavra versificada pela poeta. . Anna nos deixa de fronte a uma tempestade incendiária - digo isto sem querer ser um analista barroco - . Tempestade segredada na mordida da maçã imposta pela obra. Maçã que nos é ofertada sem constrangimentos ou emplastos. Seus poemas revelam uma potência de "singularidades desejantes", para usarmos aqui expressões de Deleuze e Guattari, de maneira que as teclas da racionalidade sejam destituídas e, assim, "pianos catersianos" apresentem-se desajustados a partir da sede insaciável embutidas no mover de um erótico-devir. Assim, expressões como: "orvalho de fogo", " minha pele se emaranha de flamas" e "mulher selvagem pousou um beijo venenoso/ em minha psiquê" exemplificam a força misteriosa, mística e mítica que sempre circundou a ventania que há no desejo feminino. . A escrita poética presentificada em nesse livro "asfixia em placenta" o leitor, que deveria encontrar em sua leitura uma certa proteção liquidante. Contudo, o que encontramos em cada estrofe são " trompas tectônicas" em sua mais pura fricção. . Desse modo, os versos nada têm de apolinário - não perderia perder a chance do trocadilho -; bebem, na verdade, na fonte de Eros e de Dionísio com uma sede eterna. Revelam a uma sociedade composta da "medicina maléfica dos dias" e do falso moralismo uma dose de "cura ao avesso", fazendo-a provar o antidoto calcado na faca seca da sensualidade mais profunda, mas ao mesmo tempo carnal. . Portanto, Anna Apolinário com seus poemas de "Mistrais" nos converte ao despir-se, seja nos lances de delicadeza ou nos lances do ardor, da volúpia com toda sua febre habitada em nós e que, muitas vezes, nem sabemos. . Johniere Alves Ribeiro. . @johniere81


