Lançado originalmente em 1961, este é o livro de estreia de John Le Carré.
Após ser submetido a uma rotineira verificação de segurança pela inteligência britânica, Samuel Fennan, funcionário do Ministério do Exterior, aparece morto em sua casa. Tudo aponta para suicídio. As atenções se voltam, então, ao funcionário do serviço de inteligência que o submeteu a interrogatório.
Convocado a dar explicações, George Smiley percebe que seu chefe, avesso a desgastes, está disposto a queimá-lo como responsável pela morte de Fennan. Ele então decide investigar o que aconteceu e acaba envolvido numa intriga de espionagem internacional.
Além de ser a estreia do autor, O Morto ao Telefone é também o lançamento de George Smiley, que se tornaria o principal personagem recorrente de Le Carré. É interessante notar como, na construção dessa personagem, estão presentes as preocupações iniciais do autor quanto às ilusões a respeito do mundo da inteligência.
Le Carré era oficial de inteligência do MI6 quando escreveu o livro. Conhecia a realidade do dia a dia do serviço e se incomodava, como muitos de seus colegas, com a mística a respeito de espiões construída por Ian Fleming com seu superlativo 007.
Na contramão dessa fantasia, George Smiley é um sujeito comum. Vestido em roupas deselegantes, um pouco acima do peso, grossas lentes nos óculos de aros rendondos, Smiley é um estudioso da poesia alemã que acabou envolvido com inteligência durante a Segunda Guerra Mundial por conta de sua fluência na língua do inimigo.
No início desse primeiro livro, ele é apresentado também como um cidadão sem origens nobres, mas que foi casado com uma belíssima mulher da alta nobreza, Lady Ann, que o trocou por um piloto de corridas cubano. A ausência de Ann na vida de Smiley será lembrança constante nos futuros livros, com papel destacado em O Espião que Sabia Demais (Tinker, Taylor, Soldier, Spy, de 1974).
Nesse primeiro livro, eu sinto um Le Carré um pouco indeciso entre o consagrado ramo do romance policial e o emergente campo do romance de espionagem. Talvez porque Smiley não era nenhum 007, o livro não fez grande sucesso. O que talvez ajude a explicar o fato de o segundo livro, Um Crime entre Cavalheiros (A Murder of Quality, de 1962), também estrelado por Smiley, acentuar o jeitão de romance policial. A dúvida só seria dissipada com o terceiro livro, O Espião que Saiu do Frio (The Spy Who Came in from the Cold, de 1963), em que seu protagonista Alec Leamas, embora não seja um 007, se amolda bem mais ao protótipo do espião internacional. Mas isso já é assunto para outra resenha.
Antes de encerrar, uma curiosidade: O Morto ao Telefone rendeu um filme em 1966, rebatizado como The Deadly Affair. O personagem principal, protagonizado pelo ator James Mason, também teve de ser rebatizado para Charles Dobbs. Le Carré havia vendido os direitos de uso do nome George Smiley em conjunto com os direitos de filmagem de O Espião que Saiu do Frio.