“Vestígios: Mortes Nem Um Pouco Naturais” exibe um gênero ainda pouco explorado no Brasil: o thriller político. Conforme explica Sandra Abrano, a autora, “a melhor matéria-prima para a ficção está na espantosa realidade e na análise dos acontecimentos que sempre nos parecem tão fantásticos.”
Reunindo com habilidade fatos históricos e ficção, a narrativa tem como cenário a cidade de São Paulo entre os anos de 1976 e 2000, período que vai “do governo militar à ascensão das vertentes democráticas”. Já sua história gira ao redor do submundo do serviço secreto brasileiro.
Curiosamente, o livro alterna várias histórias que vão se entrelaçando conforme ele avança, portanto não há um único ou uma única protagonista, mas vários que se revezam nessa função. O mais proeminente é Mário, um agente do Sistema de Informações, que retorna depois de duas décadas à Vila Maria, bairro paulistano onde passou a juventude, para administrar uma empresa de segurança. “No passado, ele foi um dos agentes infiltrados no movimento estudantil, além de ter atuado na queda da Casa da Lapa (1976) –– assim ficou conhecido o local em que dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) foram emboscados e mortos ao término de uma reunião.”
Apresentando trechos em primeira pessoa e em terceira, “Vestígios” traz à luz agentes do Sistema de Informações sem postos de comando na estrutura militar, sem destaque por brilhantismos ou ganhadores de medalhas, são os cumpridores de tarefas ordinárias, os que botam a mão na massa e perpetram diretamente os mandos e as violências”. Da mesma forma, as personagens civis não não fazem parte da elite, são bancários, jornalistas, advogados, pequenos empresários e estudantes, alguns engajados clandestinamente na luta contra a ditadura militar.
Como a galeria da qual fazem parte é extensa, minha sugestão é fazer uma lista dessas personagens com os nomes e respectivos codinomes, quando for o caso, junto com uma breve descrição capaz de identificá-los na trama.
Enfim, eis um livro que vale a pena conhecer, pois remonta a um período nefasto, que até hoje surpreendentemente tem defensores, gera polêmica, não pode cair no esquecimento nem ser vítima de mal entendidos e “fake news”.
Nota: Adquiri o e-book por um preço bastante camarada.
“Era de conhecimento do Comando que o comitê central de um dos mais antigos grupos de esquerda clandestino se reuniria dali a três meses. As malhas do Serviço de cada estado se entrelaçaram para obter informações, mesmo que fossem migalhas, para articular a grande Tocaia, assim em maiúscula porque era nome da investigação. Eu, um peão nesse jogo, tinha a missão de fazer contato e aproximação com um militante suspeito de pertencer ao grupo de organização do encontro.
Cheguei cedo à Liberdade, rua da Glória, no ponto mais distante do metrô há um ano inaugurado no bairro. Então, aguardei no boteco da esquina o homem descer do terceiro andar do pequeno prédio em que alugava uma quitinete. Eu tinha a informação de que ele tomava ali o café da manhã sentado na última banqueta do balcão, encostado à parede, próximo ao banheiro. Observei o local. Deixei uma banqueta vazia e sentei na seguinte.”