Herói de Atari -

    Leonardo Marona

    Garupa
    2017
    88 páginas
    2h 56m
    ISBN-13: 9788559860030
    Português Brasileiro

    Em seu quarto livro de poesia, Leonardo Marona inventa a trajetória de um herói pixelado, paupérrimo, pele pouca e punho forte, diante dos golpes de Estado e das grandes cidades. Um herói que é também meu, nosso, porque faz o corpo de símbolo e arma nessa guerra entre nós e os homens de terno – estes também vestidos com suas armaduras engravatadas. Apesar de não trazer subtítulos, ilustrações de alexander rodchenko dividem o livro em três partes: na primeira, há a apresentação do herói, que toma banho e apara os pelos do nariz porque vai ao matadouro; ou que observa as pombas sujas e alegres depois do temporal e transforma em um novo mantra o desejo de também ser sujo e alegre depois dos temporais. Já na segunda, questões atualíssimas são discutidas, como as manifestações verde-amarelas e a semelhança dos nossos tempos com outros que o país já enfrentou. A terceira parte do livro, por sua vez, traz uma resignação inteligente, não desistente, mas povoada de vozes: um pedido de ajuda à mãe já falecida, uma música do charly garcía, um poema azul para paul celan. Nela, fica claro que não há uma saída para o desmoronamento dessa figura [que nunca foi] heroica, mas que o que o autor nos sugere são possíveis saídas diante de uma persistente crise – uma crise constitutiva. Não à toa, o projeto gráfico do livro mescla referências modernas – o construtivismo russo, a ficção científica oitocentista – à contemporâneas – seu tamanho é proporcional ao da fita de Atari, e a coloração manual dos cortes do livro intensifica essa semelhança; ou ainda, a cidade hiperpovoada contemporânea que invade a figura masculina na capa. Na revolta dos poemas, revolta-dez-horas-de-trabalho-merda-por-dia, revolta-falta-de-visceralidade-nos-seus-contemporâneos, está a jovialidade de Leonardo Marona. Jovialidade que falta aos mais jovens que ele e que prova olhos atentos aos vultos do nosso tempo.

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    @psi.adriana.scarpin picture
    @psi.adriana.scarpin27/01/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    a propósito dos últimos acontecimentos

    "aqui estamos nós, os cercados, mais uma vez. somos outra vez os sionistas dos anos trinta. somos outra vez o rapaz de vermelho linchado. somos outra vez a quenga que deve morrer. somos outra vez o veneno dos dentes podres de velhos eunucos e suas mulheres cocainômanas. somos outra vez os curdos no topo da montanha. somos outra vez a execução do nariz de palhaço. somos outra vez a gangrena violácea do apuro. somos outra vez a tremedeira do ser em pânico. somos outra vez o caminho dos beligerantes. somos outra vez, vai acontecer outra vez ainda. somos outra vez os caracóis debaixo da pedra. somos outra vez a beleza do grito avacalhado. somos outra vez a memória curta dos umbigos. somos outra vez as mulheres com o grelo duro. somos outra vez a parabólica viral do coisa ruim. somos outra vez os cães de bandana vermelha, sangue vermelho dos cães de bandana vermelha. somos outra vez os corredores salivantes do ódio. somos outra vez, há quinhentos anos outra vez. somos outra vez a vergonha daqui a trinta anos, um sísifo quando baixa a guarda e cai de queixo."

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