Síndrome de Cérbero – Tibor Moricz
Ficção científica brasileira mostra filho viajando no tempo para tentar salvar o pai
“Se um dia eu pudesse ver meu passado inteiro e fizesse parar de chover nos primeiros erros, meu corpo viraria sol, minha mente viraria sol, mas só chove, chove... oh!”, a música hit dos anos 80 de Kiko Zambianchi reflete uma vontade comum aos seres humanos: Quem nunca pensou em voltar no tempo? Fosse para desfazer alguma burrada própria, ou uma injustiça do destino.
O paulistano filho de húngaros, Tibor Moricz, escolheu essa idéia de apelo universal para o seu primeiro romance. A história do atormentado Leonard Cameron que teve sua infância idílica na pacata cidade de Greenville nos EUA interrompida quando seu pai, Robert Cameron, é morto com um tiro na cabeça em abril de 1964.
Robert era um político promissor, admirado por todos, mas, sobretudo, amado e adorado pelo filho. A vida do jovem e ingênuo Leonard termina naquele momento para dar lugar a um homem desencantado, que cresce numa relação amarga com a própria vida, que não nega vocação para a tragédia grega quando a morte leva também sua mãe, anos depois, em um acidente automobilístico.
O elemento da ficção científica entra na história quando Leonard se forma em física e acaba indo trabalhar em uma fundação do governo que faz pesquisas inusitadas. Percebendo que seus colegas de trabalho descobriram um modo de viajar no tempo, ele enxerga ali a chance de ouro de salvar a vida de seu pai e talvez a própria.
Claro, mexer com forças tão poderosas da natureza sempre tem um preço alto a ser pago. E Leonard vai ser o primeiro a sentir na pele a dureza de ser um viajante no tempo.
Com uma narrativa densa, com ênfase no aspecto psicológico do personagem principal, o livro possui momentos de tensão de arrancar os cabelos. Apesar do vocabulário apurado, o autor não enrola em frases rebuscadas e consegue manter a narrativa quase sempre fluida. Em determinados momentos, porém, o excesso de retomadas e lamentações do personagem deixam o ritmo mais lento, mas isso acaba aumentando o suspense para os desfechos e reviravoltas que a trama vai criando. Na maior parte do tempo, Síndrome de Cérbero não abre mão de uma dinâmica digna de filmes de ação, com diversas lutas corporais e muita correria. Em certos momentos, a narrativa também chega a flertar com filmes de terror japoneses, mas nunca de modo gratuito.
Outro diferencial de Síndrome de Cérbero está na riqueza de elementos sinestésicos. O autor descreve de forma realista as sensações de Leonard resultantes da experiência e seus efeitos colaterais. O deslocamento temporal, por exemplo, gera uma grande perda de líquidos. O que impõe ao viajante uma sede visceral que acaba contagiando o leitor. É quase impossível ler o livro sem querer beber bastante água.
O título da obra remete ao cão Cérbero que com suas múltiplas cabeças guardava as portas do inferno na mitologia grega. Na história, Leonard vive a experiência de estar no limiar entre a lucidez e a loucura, a felicidade e a tristeza, a vitória e o fracasso. Afinal, tentar alterar o tempo e a própria história pode não gerar o resultado esperado. Muitas correntes teóricas afirmam que essa intervenção criaria paradoxos grotescos, como mostrados no filme De Volta para o futuro, onde um jovem quase impede o próprio nascimento ao evitar o namoro de seu pai com sua mãe. Em Síndrome de Cérbero o autor explora variantes e efeitos colaterais ainda mais angustiantes da viagem no tempo, pois Leonard vai ter que se confrontar com as conseqüências mais aterradoras de seus atos, bem como o revide das forças da natureza e da realidade que o cerca.
Enfim, Síndrome de Cérbero é recomendado àqueles que têm nervos de aço e gostam de uma leitura que prende do início ao fim.