A Travessia Das Eras (1 #1) -

    André Galvão

    Penalux
    2018
    98 páginas
    3h 16m
    ISBN-13: 9788558333627
    Português

    Em A Travessia das Eras vê-se a jornada de um eu-lírico viajante, que em sua caminhada procura entender a realidade, fazendo para isto o uso da arte como ferramenta de captura das coisas do mundo. Tudo que é perceptível é um composto da realidade, no entanto, o reflexo que viabiliza a tinta escrita no papel mostra um mundo de todo desordenado. A poesia de André Galvão reflete a realidade das ruas, mostra a desolação interna do homem, solitário e individualizado, que está, de certo modo, conivente com a precariedade que vem da miséria de tantas pessoas, já que este caos urbano, e humano, é ordem aceita para aqueles que seguem sua rotina, fazendo da cegueira sentimental o suporte que permite continuar com a vida. Como diz a escritora Eliana Mara, no prefácio da obra, a poesia de André é “Uma espécie de trabalho de desilusão”, um entrave e um embate que o poeta tem, de cada vez, em relação aos pontos de mira, que são feitos núcleos de situações, e desafios, oriundos da realidade composta de imagens urbanas, inquietações sutis, reflexões vertiginosas, catarses poéticas e verdades breves O eu-lírico é representado como “menino de sonhos rasgados e fome na boca”, numa dicção quase anacrônica, sendo que, esta criança desolada e abandonada é um sujeito em crise frente aos vários desafios do mundo contemporâneo, caos, maldade, blefe, névoas. A obra é um retrato do país em convulsão, e mais do que isso, esta trajetória das eras é um caminho cíclico, visto que a putrefação social é carta renovada na caminhada da humanidade.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos15/12/2018Resenhou um livro
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    Novos caminhos

    E chega-nos às mãos mais um livro de poesia. “A travessia das eras”, do poeta baiano André Galvão. Na capa visualizamos a imagem de um novelo de pistas rodoviárias a não levar à parte alguma. Curioso isso. Estradas pressupõem tomada de rumos, alcançar novas sendas ou searas... A professora doutora e escritora Eliana Mara Chiossi, escreveu brilhante prefácio ao livro sob o título de “Abrigo e cela da ilusão: a poesia dentro da caverna”, que se constitui para além da apresentação detalhada de uma obra de estreia na literatura, excelente oportunidade de reflexão e aprofundamentos outros. Afirma inclusive que conhece uma dissertação do autor de “A travessia das eras”, sobre o tema do coronelismo. Muito bem. O ímpeto que nos acomete, tal a perspicácia desse texto anteposto aos poemas de contundente engajamento social que o autor expõe, seria o de reproduzi-lo na íntegra o que, ante os objetivos de uma resenha, se torna inviável. Sim; por um lado, por outro, abre-se oportunidade para uma reflexão crítica ampliada desse nosso mal-estar no mundo. Partindo do particular - Brasil. A professora afirma a certa altura de seu texto: “O desmonte oficial, mais tardio, da escravidão, não deu resultados anunciados e os efeitos estão presentes na realidade nefasta e perversa, diante de um fosso extremo entre os que detêm o poder e a riqueza e a imensa multidão que vive na miséria, desassistida, cada dia mais, pelo Estado. Como atualizar essa “tradição” [aqui ela se refere à tradição afortunada de Afrânio Coutinho] que forçou os limites da criação literária a uma produção revestida da obrigação de denunciar as mazelas ou mostrar posicionamento a favor daqueles que não podiam falar? Em tempos de rede social, em que a liberdade de expressão cresceu exponencialmente, o espaço da poesia se reinventa, mas ainda é espaço de resistência. E a poesia de denúncia precisa se reinventar também. Desta linhagem surge o poeta André Galvão”. A guisa de esclarecimento do que o título pode suscitar, a “travessia de eras” se constitui em uma grande metáfora de nosso tempo, em que o homem (o eu poético e o autor), percebem as repercussões hoje, de nosso passado e olha para o futuro como um sonho impraticável. A obra foi dividida em 5 blocos temáticos “A era das imagens urbanas”, “A era das inquietações sutis”, “A era das reflexões vertiginosas”, “A era das catarses poéticas e finalmente. “A era das verdades breves”. Chama atenção um detalhe quanto à esses blocos. Em todos há a reunião de exatos 7 poemas. No bloco “A era das reflexões vertiginosas” encontramos 21 textos que, sem dúvida, são os que melhor traduzem, o título. Que justificam amplamente não só a escolha dos poemas, mas o espírito de nossa época. E não nos referimos aqui à vertigem da velocidade dos tempos modernos, mas àquela outra; a do pensamento de nossa pós-modernidade. Em frente que já chegamos às “novas travessias”. Entramos no novelo do senhor André Galvão. E deparamo-nos com cenários tão nossos conhecidos. As grandes cidades que se transformam em verdadeiros “Urbanicômios”, onde a infância sem futuro tão bem representada em um poema como “O menino e a pedra” estão caracterizadas no desenrolar de tantas dessas vidas atiradas ao abismo da criminalidade. Veja-se a contundência desses dois últimos versos: “O menino está sozinho / e vai continuar sozinho”. Sim senhoras e senhores, conseguimos positivamente criar verdadeiros infernos existências representados pelas noites que tanto inspiraram poemas de esperança, para o despontar de uma esperança. Hoje a noite representa o quê? – vide o poema “Noite afora” onde lemos as estrofes finais, “Sob o teu véu / velhas fortalezas de ódio e vício / se perdem na imensidão inerte / de horizontes inalcançáveis // vozes de rádio, / locutores carta-marcada / decidem sobre o futuro previsível do agora / e anunciam o óbvio em suspensão // Cães marcam seu território, / investigam novos espaços, / enquanto bandidos e bêbados ocupam / o quintal alheio da percepção // Aí vem a noite. / Enfim cessa o barulho / e o silêncio urbano / anuncia o começo do fim.” E entre “Luzes e sombras” vegetam os deserdados da sorte que não têm aposentadorias polpudas, que não carregam malas de dinheiro sujo, e que só têm o seu favor uma jornada extenuante e inglória de vender doces em semáforos nas ruas. Poema “Os doces da noite”. Eis o país inteiro transformado num puteiro” de extrema injustiça social, que o cidadão assiste perplexo aos “... zumbis / comem a própria carne / gargalhando aos borbotões // Vozes tortas se distorcem / iludindo a multidão / em seu sono imortal // E o tempo ainda volta / pra dizer aos parvos / que nada vai mudar.” – poema “Brasil”. Ora por quê? perguntais? Porque “Sobre nós, o véu de névoas / que não queremos enxergar. / A vida, cega e tonta, / dança no meio do tiroteio, / esvazia nossos parcos sonhos / e inaugura novas utopias / numa velocidade fast-food. Poema “Primeiro de abril”. Esse nosso Brasil real que foge ou adormece sob os discursos e retóricas políticas de ocasião. Um país onde “O poder e o dinheiro / continuam nas mãos de poucos / mas mesmo aqueles que não têm tanto assim / insistem em agir como se tivessem / e repetem a omissão / daqueles que realmente têm muito”. Poema “Frágil retórica”. Qual futuro? Voltando ao fabuloso prefácio da doutora Eliana Mara Chiossi: “O que leio agora é uma drástica, e muito bem recebida, mudança. Em “A travessia das eras” a crítica se transfigura em questionamentos profundos acerca do sentido da vida nos tempos atuais, em que estão exacerbadas as injustiças. Por todo o livro os sentidos da vida aparecem em vertiginoso processo de erosão do sujeito que escreve. O livro nos leva a uma jornada que expõe, cruamente, a falta de utopia. Em todos os versos a sensação de soco no estômago. Em todos os versos a reiteração de que o futuro já passou, para brasileiros, mas também para a humanidade”. Por certo, já passou, e é precisamente nessas vias de falta de sentido e maior ainda falta de futuro que nos encontramos. Nessa encruzilhada terrível! Nessa disforia (estado caracterizado por ansiedade, depressão e inquietude) que nos subjuga. E chegando até aqui, resta-nos ponderar que não podemos entregarmo-nos a um sentimento apocalíptico irreversível. Se observarmos outras latitudes podemos entrever que há intenso movimento no sentido de mudanças radicais, tomando aspecto revolucionário. Assim nasceram todas as revoluções, nasceram como uma reação contra o sistema vigente, e a primeira coisa que elas se propõem a fazer é destruí-lo. Vêm à tona, com toda a força, o submundo da sociedade até agora amordaçado, e executa a devida função que é destruir. Em tal estágio não se pode produzir senão frutos negativos. Quando o sistema causa danos não mais suportáveis e o ambiente está saturado, supera-se o limite da paciência e a vida perde sentido, esse o “vertiginoso processo de erosão do sujeito que escreve” e explode a reação corretiva do erro, que reorienta para o positivo a trajetória torta do negativo. Sempre foi assim na história da humanidade. Não seria essa a grande ação corretiva dos erros do passado? Não; dirão alguns, porque não temos qualquer responsabilidade pelos atos que cometemos ou que os outros cometeram. Ledo engano, o fato é que há forças que despertamos e que não podem ser anuladas, recaem sobre todos. Mas uma vez observar a história. Afinal, de onde provem tal reação. Reação de quem? De Deus que já matamos ou transformamos no que bem entendemos? Das famílias que desfizemos, dos filhos que largamos no mundo, de tanta miséria para as quais simplesmente viramos a cara? O que nos falta entender (no Brasil e no mundo), é que nossa evolução é também um processo de progressiva moralização. Que a posição de cada momento da história é um anel de uma cadeia de momentos sucessivos ligados e, desenvolvimento lógico, em vista das metas que a vida quer alcançar. Mas como? Que diabos é a vida? Há algum propósito nela? Não se sabe, mas o bom senso nos diz que há trabalho a ser feito a serviço da coletividade (e isto já não soa tão estranho para muitos) não é véro? Falta-nos ainda o firme propósito de passar à uma nova fase. Do nível evolutivo do passado a um superior. E isto está estritamente associado a uma abertura da inteligência humana que nos grita a plenos pulmões: É preciso mudar. Criar novo estilo de vida em relação a novos pontos de referência. Entender afinal que a evolução é também um processo de progressiva moralização É preciso depor as velhas armas do passado, de ataque e defesa para vencer na vida, isto é, força e astúcia devem ser substituídas pela retidão, por uma razão elementar: Não há outra saída! A lei da vida – e quem tiver olhos que veja -, nos diz que ela tem um ritmo absoluto e segundo esse ritmo nada avança senão por continuidade; é necessário existir, viver, experimentar, amadurecer, semear e colher sob íntima concatenação de causas e de efeitos. E é disto que se cria o eu espiritual no homem. Que também não queremos nem saber o que seja. Em nossa completa inconsciência não sabemos parar senão onde a lei da reação nos ergue uma barreira intransponível. É onde nos encontramos. Esse o ritmo que negamos compreender e que ingenuamente damos o nome de “fatalidade”! Pagamos com dores a imbecilidade da conveniência! E é assim que sempre recaímos sob o peso das conseqüências de nossas ações e nunca chegamos a romper o ciclo dos nossos erros. Se não renovarmos nossa psicologia estaremos verdadeiramente perdidos. É o que a pura razão nos diz... Parece-nos que o senhor André Galvão andou intuindo algo semelhante. Senão vejamos: Poema “Assombro”. “Estranho viver nesse mundo raso, / inundado de mentiras tão profundas / sem metafísica, inspiração é fé / que removam as montanhas da ignorância.” Ao leitor deixamos finalmente o excepcional poema “Os mesmos ciclos”. “Silêncio aos que fugiram... // Esse medo inútil das pedras / que ainda não rolaram / é o combustível do fel que se destila / enquanto a madrugada elege suas luzes / e esconde seus próprios caminhos // Não vejo para fora de mim / senão o que meus olhos renegam. / A tosca casca involuntária de meus desvarios / acendem lampiões inertes que pouco iluminam / e deixam rudes sombras à espreita // Respirar o que se mostra em desmantelo / ajuda a aceitar que o infortúnio, / dotado de universalidade contundente, / não deixa à margem indivíduo ou sentimento, / numa macabra e infalível democracia // Enquanto a finitude das certezas / inaugurar a negação das inocências, / o mundo, condenado a girar sobre o próprio eixo, / derrapa sem sentido em suas teorias, / aceitando incólume sua sina destrutiva // Fugir pode ser um caminho / e atirar pedras, um exercício covarde. / Mas elas voltam na contracorrente / e quebram vidros e seus telhados: / denúncia da certeza que restou // Os ciclos nunca se fecham.” Os ciclos nunca se fecham nessa nossa “Travessia das eras”, ainda. Estamos a caminho e torcemos para que o senhor André Galvão continue abrindo atalhos poéticos. Livro: “A Travessia das eras”, poesias de André Galvão. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 98p. ISBN 978-85-5833-362-7 Link para compra e pronto envio: https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/a-travessia-das-eras

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