A trajetória de Itamar é uma narrativa entremeada dos costumeiros percalços, fáceis de se imaginar, e que pouco vale a pena detalhar. Basta reconhecer o mérito de quem se atirou no mundo sem nada, dispondo apenas de algumas mudas de roupa e quase nenhum dinheiro. Itamar passou apuros, mas não passou necessidades. A ajuda enviada pelo pai mal dava para custear um pensionato, mas servia-lhe como rede de proteção, interpondo-se entre ele e a carestia. Jamais passou fome, mas conteve-se nos gastos com tanta rigidez que sua vida pessoal em Curitiba assemelhava-se à de um monge. Despedia-se de uma moeda com a dor de mãe que larga um filho. Poupou tudo o que podia, espremeu as últimas gotas dos recursos, pondo a carreira sempre acima dos seus gozos, de modo que nunca lhe faltou dinheiro para a compra dos livros exigidos pelo curso, e sempre pôde usar ternos que, se não eram elegantes, passavam por apresentáveis.
A Exemplar Família de Itamar Halbmann -
Diogo Fontana
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Honoré de Balzac disse uma vez que "fizera melhor do que os historiadores, porque era mais livre" - talvez pelo fato do acadêmico estar sujeito à certas "regras" da historiografia ou influenciado por alguma "interpretação" que queira dar àquela profusão de acontecimentos. Já o escritor, livre para narrar como quiser e, com freqüência testemunha direta de certos fatos, consegue, por vezes, aproximar o leitor daquela realidade descrita mais habilmente do que um livro de história. É com base neste princípio que temos o exemplo (exemplar) da família de Itamar Halbmann. Nesta crônica de costumes, as personagens defendem idéias que contradizem o estilo de vida que possuem: criticam os vizinhos ricos por participarem de um protesto político, mas proíbem suas próprias empregadas de se manifestarem sobre estes assuntos. Acreditam que as universidades formam a "elite" e que por isso precisam ser tomadas pelos trabalhadores; mas quem são estes "trabalhadores"? Gente da "turma deles" - pretendentes a funcionários públicos com altos salários e que compartilham da mesma ideologia política. Sugerem o confisco de terras e bens dos "burgueses", com fins de reforma agrária, mas tomam todas as devidas precauções para evitar que o mesmo aconteça com eles caso um possível opositor político chegue ao poder. Como percebe-se, é quase inevitável que tais figuras sejam descritas com um mínimo de fina ironia, embora o autor mantenha-se isento de qualquer julgamento. A sátira feita aqui, porém, tão adequada para esboçar tipos humanos contraditórios, carece de profundidade psicológica. Temos aqui um "Halbmann" ("Half-man"; "Meio-homem"), um Itamar desembargador e militante; e quanto ao Itamar humano? Qual é a origem de suas convicções? O que o leva a não perceber que sua situação existencial entra em conflito com suas idéias? E o que seria capaz de fazê-lo atinar com tudo isso? São perguntas que gostaria que tivessem sido respondidas. Há uma cena em particular - um jantar - no qual o protagonista acaba conhecendo por acaso uma família de venezuelanos. Tanta coisa poderia ter sido dita ali... Fora um episódio interessante, mas um pouco aquém do que esperava. Curto, bem escrito, em estilo balzaquiano e suficientemente cativo a ponto de segurar o interesse até o final. Talvez queira ler o livro seguinte do autor que - vejam só - é narrado por um venezuelano.
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