Le Père Goriot (1835). Recontado da Obra Original de Honoré de Balzac '-' O velho Goriot é um dos locatários da pensão Vauquer – estabelecimento parisiense de gosto duvidoso – e um ex-comerciante e açambarcador que enriquecera, durante a Revolução Francesa, vendendo trigo por dez vezes o preço de compra. Agora, porém, ele não passa de uma sombra da antiga opulência. Todos os moradores da pensão ridicularizam o velho: ele afirma ser pai de duas distintas damas que o visitam de vez em quando, às escondidas. O único a crer no que diz Goriot é o estudante de Direito Eugène Rastignac, jovem ambicioso que sonha em conquistar Paris. O pai Goriot, publicado em 1835, é um dos pilares de A comédia humana e um dos mais conhecidos títulos de Honoré de Balzac (1799-1850). Aqui o leitor encontrará um relato pungente sobre paixões radicais. E sobre a ingratidão e as variadas facetas da condição humana. O pai Goriot desnuda uma sociedade fascinada por poder e dinheiro, binômio que atropela ilusões e destrói famílias. ==== https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Le_Père_Goriot
Pai Goriot (Coleção Calouro) - Texto em português de Miécio Tati
Honoré de Balzac
Fico intrigado com romances cujos títulos levam nome de personagens. Acabo por esperar um protagonismo que se evidencia do início ao fim; por uma proximidade íntima com ele, como um tête-à-tête entre o leitor e ele. Aqui, isso se orienta em outra direção. Goriot, o velho misterioso hóspede da pensão Vauquer, é uma espécie de centro gravitacional da narrativa. Quando nada é sobre ele, ainda é sobre ele. A pensão, espaço privilegiado do livro e, diga-se, o nosso ponto de vista, carrega personagens fortes, ainda que pouco explorados. E não me refiro a esse detalhe como um ponto negativo, afinal, tais forças são sempre demarcadas no distanciamento e zombaria de todos com Goriot. Começamos sabendo pouco sobre eles e terminaremos assim. Todavia, sabendo muito sobre as agruras de uma sociedade mesquinha, torpe e, no caso dessas maleficências, sem distinção de classe. Mas há exceções. O jovem (e utópico, caso não considerem um pleonasmo) Rastignac é também uma força protagonista, quiçá, o que mais conhecemos, aquele do qual o narrador mais se aproxima. Há mesmo? Pois, como dizem, Em Paris o sucesso é tudo, é a chave do poder. É nessa busca que tantos se encontram, ou melhor, se afirmam. E não se trata apenas de um sucesso alcançado, ele deve ser visto. Pois, seja na sociedade parisiense ou na nossa, mais importa o momento exibido do que vivenciado. Se trata sempre de aparências. Seja no nível da indumentária, quanto do meio de transporte. E é justamente através dessa luta consigo pelos outros e com os outros, que as filhas de Goriot mergulham mesmo que na lama. Em dado momento, Balzac afirma: Joguem a sonda, jamais conhecerão sua profundidade, ao se referir a uma possível investigação da sociedade parisiense. Ciente da impossibilidade, vai atrás dela, perscruta e encontra tal lamaçal. Ou melhor, nos pensamentos de Rastignac: Via o mundo como um oceano de lama no qual um homem mergulhava até o pescoço se ali molhasse o pé. Se na iminência da morte, aquela que recebeu não só a vida, mas teve todos seus caprichos possíveis realizados, prefere terminar seu toalete para chegar antes ao baile, do visitar seu pai, moribundo e prestes a morrer; como acreditar em algo? Como amar? São perguntas minhas, mas poderiam ser de Rastignac. E, se me permitem a paráfrase, ao menos, o parricídio foi elegante. Todavia, deixemos a sociedade, hoje quero ser muito feliz.. Saqueio falas para chegar no amor, afinal, O amor em Paris em nada se parece com os outros amores.. Digo ainda de outro modo. O amor de Balzac é muito diferente dos seus contemporâneos, pelo menos nesse romance. Fazendo uma breve analogia, pensando em seu conterrâneo Stendhal que se debruçou sobre o amor não só em ensaios, mas sendo ele a seiva de tantos dos seus romances Eles não o tratam de forma tão distante? Em Stendhal, ele circula a narrativa, a ronda, a faz rodopiar, cria crenças e destrói credos. Em Balzac, ela circula em segundo plano, quase fora da moldura. É como se não houvesse espaço no quadro, as personagens estão tão ensimesmadas em seus objetivos, que ele não tem força para agarrá-las, conquanto em Stendhal, é justamente através dele que o ensimesmamento ocorre. Isto é, para Balzac o amor é uma religião, e seu culto deve custar mais caro que o de todas as outras religiões, ou seja, o custo vai para além dele mesmo Para a sociedade. O cinismo contaminara Balzac? A citação a Diógenes não foi atoa Ou, se pensarmos nas derradeiras e dolorosas páginas finais do livro, Balzac o enxerga cinicamente. A começar pela estrutura do desenvolvimento final, pois, quando a história caminha para uma resolução fortuita, numa ascensão contínua, a queda vem para relembrar a realidade. Num abandono, em uma espelunca mal iluminada por uma vela, os ataques de insanidade (ou seriam sanidade) de Goriot revelam seus mais profundos pensamentos, aqueles que se recusou a acreditar durante toda sua vida. Entre insanidade e sanidade, momentos de revelação. Principalmente para Eugène Rastignac. Antes crente no amor, ao presenciar os verdadeiros atos da alta sociedade, pode enfim, enxergar sua verdadeira podridão. A reflexão gerada pela iminente morte pode ser representada por Ivan Ilitch, personagem da famosa novela de Tolstói. Goriot e Rastignac, assim como Ivan, compreendem não só o passado dos quais foram peças (hoje desgastadas), mas o caráter daqueles que os rodeiam. Alguém se salvaria? Difícil dizer. O poder tem um grito que me impede de ouvir a resposta. A solitária morte dos pobres é a constatação de uma sociedade inescrupulosa. Para seus protagonistas e para nós.
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