O Parto (Selo Lampejos) -

    Jordano Souza

    Editora Penalux
    2018
    66 páginas
    2h 12m
    ISBN-13: 9788558333191
    Português Brasileiro

    Seria às vezes se não fosse sempre. Trabalho, durmo. lavo pratos, faço comuda voluntária. Quando-é-fé cá estou, pensando numa maneira de destrancar a poeira do poste. nessas horas escuto a sombra da infância me lambendo. Quando estou pequeno, Deus sente inveja do arrebol.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos20/06/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Nós os cegos

    Por transitar originalmente entre jornalismo e literatura, entre a notícia e o prosaico do dia a dia, o olhar que a crítica em geral destinou sobre a crônica, foi o do estereótipo, forjado ao longo do tempo, de “gênero menor” quando comparado aos demais gêneros literários. É que, defendem alguns, retratando a miudeza aparentemente desinteressante das coisas, a crônica estaria condenada ao enfoque superficial das contingências fugazes, sem permitir as suscitações reflexivas pertinentes à existência da vida, das coisas e do mundo circundante. Entretanto, tal pensamento carece de fundamento porque revela o desconhecimento da densidade problematizadora que a crônica literária pode alcançar. Ao retratar o prosaico, o bom cronista, diga-se, apenas dele se vale como isca para pescar o que subjaz submerso no mergulho das águas turvas de um córrego insondável; oculto, portanto, atrás dessas aparências triviais. Esse um ponto; o outro elementar é que há cronistas e cronistas. O livro “O abraço dos cegos” publicado recentemente pela Editora Penalux, apresenta-nos um autor de larga experiência, no auge de sua maturação literária. Trata-se de Chico Lopes que após incursões nos gêneros do conto, poesia, romance, crítica literária e ensaios, ousa justamente nas crônicas. Os 29 pequenos textos reunidos no volume revelam a mão firme do escritor experiente aliada a uma visão sensível, em sintonia com as coisas do mundo. Capta, na brevidade sutil dos pequenos momentos da condição humana, sintomas ou retalhos da paisagem de nossas vidas e época. Fragmentos que funcionam como epicentro, do qual procura extrair uma releitura do mundo e uma reinterpretação da vida, com suas significações, operando uma espécie de simbiose catártica entre narrador e leitor. Usamos a palavra ousar, porque o autor desce fundo nas águas turvas da existência tirando partido da instabilidade formal que caracteriza o gênero e do estreito vinculo semântico com a temporalidade. Em “De mãos dadas com Tônio” encontramos uma divagação subjetiva e lírica associada a imagens do passado, compondo um painel em que se mesclam o instante fugidio e o quadro cênico do tempo memorial do passado que é filtrado e fisgado pelas recordações do momento de agora. Já em “Ilhas demolidas”, temos a crônica construída de uma maneira nem tão usual, não culminada para o fim de uma conclusão poética, mas sim, feita para trabalhar maneiras de se lidar com as emoções do viver, sobretudo a percepção da passagem do tempo, mostrando que o cotidiano adulto, é um espaço-tempo de grandes dilemas e desafios. A troca de e-mails com um velho amigo do passado, deflagra uma série de reflexões imbricadas a um tecido de lembranças; o que está indo se enlaça ao que já foi, fio solto que a memória se esforça para resgatar do sumidouro do esquecimento. Em “Dentro da noite surda” vamos entrando numa forte tendência do livro. ao acompanharmos o olhar de um caminhante solitário nas ruas, que capta uma cena cada vez mais trivial do nosso dia a dia, um instante minúsculo, em que observa uma criança sozinha, abandonada em um canto qualquer a chorar. A pressa, o medo, a omissão são mais fortes, e o caminhante simplesmente segue seu caminho. Veja-se por outro lado, a maturidade existencial de um trecho como este, na crônica “As ruínas persistem”. “O fato é que, envelhecendo, passamos a frequentar mais certos espaços e situações do passado do que viver no presente, ou este se tinge de anacronismos de tal modo que já não sabemos, caminhando em algumas partes, se estamos ali ou nalgum outro lugar muito remoto, sensações contraditórias se misturam, e ficamos como que pendulando entre agoras e outroras. O grande tempo vivido nos roubou o frescor e a inocência, mas nos tornou inflados de coisas a contar, a explicar, a compartilhar, e naturalmente nos deixa mais lentos, mais reflexivos. Acabamos nos tornando até involuntariamente proustianos, dando um valor que só nós entendemos a certas fagulhas preciosas de sensações que remetem a delícias ainda mais complexas do “tempo perdido”. Reflita-se ainda, e muito detidamente, sobre essa passagem da crônica “Depois da maldição” na qual vem explícita com a força da reflexão lírica acertada (porque toca em elementos que nos são imensamente caros), sobre a eterna dúvida que atormenta a todos: “Para onde irão essa embarcações de leve luz, essa expedição de barcos de papel comandada por um Jasão sem faro marinho e sem amparo dos deuses, essas velas de adeus permanente e permanente indecisão de partida, essas cascas de nozes expostas a maremotos, esses despojos de naufrágios incoerentes e sem esperanças de a mão do Acaso organizar-lhes em sentido, esses veleiros soçobrados e orgulhosos, esses desafiadores inconvictos da arrebentação? Para onde irão as incertezas de mim com seu frágil heroísmo, sua audácia penitente, seus princípios por conquistar e seus fins por intuir?” Na orelha da obra há a passagem de um depoimento do autor que vale a pena ser transcrita: “Os que prestarem atenção aos meus livros verão que a treva, a solidão e as reflexões voltadas para o passado dificilmente recuperável e o presente em ruínas são minhas preocupações principais”. De fato. Observe-se a crônica “Escravidão macia”: “Há muita dor no mundo. Não é dor que se vença pela anestesia temporária [a base de calmantes ], que se curve a nossos laboratórios, que se renda às nossas especulações tão raivosas quanto intermináveis, que se cure por meio do ingresso numa nova seita, no cinema, na discoteca, no motel, na academia de musculação. Nada é superior a nada num mundo em que o humanismo virou um recurso desacreditado de camelôs da alma e o que se promove é a exploração dos apetites básicos com quantidade cada vez menor de justificativas. Um mundo hierarquizado por sensações – a máxima é a do poder, do sucesso implacável”. E em um mundo assim monstruosamente surreal, o que pensamos e como agimos, ou reagimos? “O máximo horror de nosso tempo é que não há impacto que não possa ser absorvido e digerido indiferentemente pelo homem da rua. O grande circo. Passando pelo grande circo, toda a indignação se esvazia. No salão fantasma a pianola prossegue. Automática, há décadas toca a mesma canção, incansavelmente. E há décadas os pares defuntos dançam-na escrupulosa e lentamente, os passos repetidos. São múmias silenciosas e obedecem serenamente à maldição de estereotipia e anacronismo. No obsoleto resistente, há um desespero que não se declara. A pior maldição é sobreviver”. Crônica “O salão fantasma”. Estamos já se disse, numa encruzilhada terrível. E na já citada crônica “Escravidão macia”, uma constatação que nos causa verdadeiro estupor. O que fizemos de nós? “Tarde demais para discursos. Tudo é cinismo, e o amor se refugia nos subterrâneos da burocracia do Mal, sabendo que para sobreviver terá de ser clandestino até da própria consciência, porque a onda cúpida de Horror engolfa toda forma de vida e pensamento e uma resistência consciente a ela é apenas um reforço à sua consistência. Não é possível abrandá-la; os que pensam poder torná-la mais amena e tratável vão apenas se impregnando de negro, em meio a lamentações inúteis. Tudo é contágio, sujeição. Perdemos alguma coisa. E ela era fundamental”. Em “Sonhar o real” é exposta a cegueira que nos acomete indistintamente, sem qualquer diferença de cor, nacionalidade, opção sexual, religiosa ou o que seja. E para que não digam que estamos diante de um niilismo desbragado, leia-se logo na abertura da obra o potente clamor de esperança que é a crônica “O abraço dos cegos”. Voltemos entretanto à “Sonhar o real”: “O outro cego, este dentro de um túnel infinito, escuro somado a escuro. Persiste em tentar sair, arranhando as paredes de limo, vermes e insetos. Em toda a extensão negra só se ouve o frenesi de suas unhas. O trabalho sem esperança é tudo que pode fazer e, portanto, trata de executá-lo, pois parar para refletir seria aceitar um desespero incalculável. A persistência do cego é essa obstinação que anestesia um entendimento suicida. A persistência é o ressentimento à procura de um propósito claro, de um canal de redenção”. Em suma, o autor nos faz refletir em 29 centelhas de lucidez o quanto vamos nos tornando voluntariamente cegos de vida. Cegos. É precisamente isto que encontramos nesse último livro de Chico Lopes num esbanjar de criatividade ao lado de um lirismo reflexivo instaurado através de textualidade de requintada simplicidade. Seja através de um narrador que revisita seu passado, contemplativamente, mexido pela instauração de um momento poético (como acontece no excepcional “O eterno quintal”), seja engendrando personagens - alguns monstruosos -, em situações habilmente escolhidas, e que nada mais são do que espelho do mundo absurdamente cruel que vamos construindo. Os textos reunidos positivamente causam reflexões profundas sobre a natureza, as precariedades e as fragilidades humanas. São composições ficcionais (independentemente de classificações de gênero), que inapelavelmente atraem, envolvem, e seduzem num estreitamento de laços humanos, e que em última instância, promovem o acumpliciamento entre obra e leitor. Eis aí uma das dimensões essenciais da literatura. Livro: “O abraço dos cegos” - Crônicas de Chico Lopes. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 126p. ISBN 978-85-5833-319-1 OBS: O LINK PARA COMPRA E PRONTO ENVIO DESSA EXCEPCIONAL OBRA É: http://editorapenalux.com.br/loja/o-abraco-dos-cegos

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