"We had the experience but missed the meaning,
an approach to the meaning restores the experience"
Respiração artificial é, desde a epígrafe, um livro histórico. Foi publicado em 1980, na metade do período ditatorial da Argentina (na verdade, apenas um destes períodos), um período tal como o teve praticamente todo país latino-americano. Sabe-se que numa ditadura fatos são distorcidos, apagados, a história é reescrita. O simples ato de buscar a recuperação dos fatos perdidos tais quais aconteceram é um ato político, portanto não é nenhuma coincidência que este livro apresente uma narrativa que trata basicamente do trabalho de um historiador.
A matéria de estudo, neste caso, remonta à época Rosas, outro ditador que governou neste regime entre 1837 e 1852, durante a época de guerras civis do país, entre uma Buenos Aires unitarista e as demais províncias, federalistas. Durante este período viveu Enrique Ossorio, agente duplo e traidor do presidente Rosas, que foi exilado nos EUA e de onde escreveu um romance profético que se passa em 1979 (ano em que ocorrem os acontecimentos do livro) e uma série de correspondências que serão estudadas por seu neto, ex-senador Luciano Ossorio, e em seguida pelo genro de Luciano, Marcelo Maggi, tio de Emilio Renzi, que escreve um livro contando o caso de Marcelo, que rouba um cofre de sua esposa e desaparece.
A primeira parte do livro narra como Renzi entra em contato com Marcelo, que lhe envia uma carta retificando pontos de seu livro e explicando que seu interesse era nas correspondências ali guardadas do Enrique Ossorio. Ao longo dessa parte, vão se introduzindo as várias vozes deste romance polifônico, com alternância de narradores, incluindo narrações do próprio Enrique através das cartas. Percebe-se que é um livro histórico porque encontramos o trabalho de um historiador, onde a história é buscada através de uma série de retalhos não de todo confiáveis dos quais o historiador deve extrair um sentido.
Interpretar o passado é também reinterpretar o presente. Refira-se agora à epígrafe de Eliot. É também um ato de resistência, de permanência da memória, a recusa de que ela seja apagada. O leitor é convidado a criar sua própria interpretação a partir daquilo que é omitido. É claro, existe muita coisa nos retalhos que não é falado. No caso de Respiração Artificial, esse silêncio também é artificial. Num contexto em que o regime procura ativamente reprimir todo ato de revolta, a verdade torna-se um artigo proibido. O silêncio é artificial, e nas entrelinhas está a resposta das perguntas que não são feitas por causa da própria consciência destes fatos.