O Coro dos Defuntos, de António Tavares, vencedor do Prêmio LeYa 2015, é uma obra singular que combina realismo mágico, crítica social e um retrato vívido da vida numa aldeia portuguesa entre 1968 e o 25 de Abril de 1974, período de grande agitação política e social em Portugal. Com personagens inesquecíveis e uma narrativa profundamente original, o romance equilibra a simplicidade da vida rural com os ventos de mudança que sopram de um mundo em transformação.
A história se desenrola em uma pequena aldeia onde, apesar das grandes convulsões políticas do país, a vida dos habitantes gira em torno das colheitas, da falta de chuva e de questões cotidianas. Nesse cenário, eventos extraordinários irrompem, entrelaçando o fantástico ao mundano: uma velha prostituta é assassinada misteriosamente, o suspeito desaparece dentro de um rochedo, uma jovem devota experimenta uma transformação surpreendente, e uma parteira-bruxa tem visões proféticas que antecipam a queda de Salazar e o surgimento da Revolução dos Cravos.
Tavares constrói uma narrativa que reflete a tensão entre a imutabilidade das tradições locais e a chegada de novidades como a televisão, que expõe os aldeões a mudanças culturais e políticas que até então lhes pareciam distantes. Essa inserção do progresso tecnológico funciona como um catalisador, ampliando a percepção dos habitantes sobre as transformações do mundo exterior, ao mesmo tempo em que ecoa os próprios avanços e retrocessos do regime salazarista.
Com personagens inesquecíveis e um texto extremamente original, Tavares oferece uma perspectiva quase mítica dos eventos. Esse fato enriquece a obra, conferindo-lhe um tom oral que aprofunda a experiência do leitor, enquanto os eventos fantásticos pontuam a narrativa com muito humor, mistério e simbolismo.
Mais do que um retrato da aldeia ou uma crítica à ditadura, O Coro dos Defuntos é uma celebração da humanidade em sua complexidade: suas fraquezas, sonhos e resiliência. António Tavares entrega uma obra que emociona e desafia, explorando as nuances do fim de uma era com lirismo, originalidade e uma dose certeira de absurdo. É um livro que deixa marcas, tanto pelo talento narrativo quanto pelas reflexões universais que provoca.
António Tavares nasceu em 1960, na cidade de Lobito, na então província ultramarina portuguesa de Angola. Em 1975, na sequência do processo de descolonização de África, mudou-se para Portugal e passou a frequentar o liceu no Porto. Fez a licenciatura em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi finalista do Prémio Leya 2013, com o romance As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, editado pela Teorema. Foi o primeiro que escreveu, em 2012, já com 52 anos de idade.