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    Eldorado -

    Michael Pye

    EMZ
    1987
    492 páginas
    16h 24m
    ISBN-10: 8527900130
    Português Brasileiro
    3.4
    13 avaliações
    Leram30Lendo2Querem20Relendo0Abandonos3Resenhas1
    Favoritos0Desejados20Avaliaram13

    Eldorado de Michael Pye mostra o mundo das altas finanças, os bastidores do poder e personalidades inquietas.Família dona de banco em Amsterdam vê um império crescer e entrar em colapso

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    Samantha Borba Corrêa picture
    Samantha Borba Corrêa14/05/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Resenha — Eldorado, de Michael Pye

    Publicado no Brasil pela Círculo do Livro em 1983, com 427 páginas, Eldorado é um romance pesado, frio e profundamente desconfortável. A obra mergulha no universo financeiro bancário de Nova York entre o final dos anos 1950 e aproximadamente 1980, mostrando um mundo movido por ganância, status, poder e aparências. Porém, acima do cenário econômico e corporativo, o verdadeiro centro da narrativa é a degradação humana de seu protagonista: Pieter Van Helding. E Pieter talvez seja um dos personagens mais intragáveis que já passaram pela literatura. Desde o início, ele não demonstra empatia, afeto ou qualquer traço genuíno de humanidade. Seu único objetivo é crescer dentro do sistema bancário e alcançar poder a qualquer custo. O mais perturbador é que o livro não tenta suavizar isso. Pelo contrário: conforme a leitura avança, mais repulsa o leitor sente por ele. A construção psicológica do personagem é extremamente sombria. Ainda criança, Pieter já demonstrava crueldade e manipulação em um nível assustador. Uma das cenas mais chocantes envolve o assassinato cruel de um gatinho apenas para manipular emocionalmente o irmão mais velho, que já sofria de estresse pós-traumático após presenciar a morte do pai. A manipulação psicológica feita por Pieter contribui diretamente para o suicídio do irmão, deixando claro que sua frieza não nasceu na vida adulta — ela sempre esteve ali. Quando adulto, Pieter transforma relacionamentos em ferramentas de ascensão social. Seu casamento com Katherine não nasce do amor, mas da oportunidade: ela pertence a uma família rica ligada a um banco rival, e Pieter vê nisso uma chance de expandir sua influência financeira. Katherine, infelizmente, acaba sendo uma das figuras mais trágicas do livro. Ela realmente o ama, enquanto ele apenas interpreta o papel de marido perfeito para manter uma imagem pública impecável. O relacionamento dos dois se torna cada vez mais doloroso de acompanhar. Pieter trai Katherine repetidamente, inclusive mantendo uma relação sexual com a própria irmã, Marisia — um dos elementos mais perturbadores da narrativa. E mesmo que Marisia também seja manipuladora e egoísta, ela ainda demonstra pequenos lampejos de humanidade em alguns momentos, algo que Pieter parece incapaz de possuir. A crueldade dele atinge um nível ainda mais revoltante quando o primeiro filho do casal desenvolve leucemia. Enquanto Katherine sofre e se desespera pelo filho, Pieter permanece emocionalmente indiferente. Uma das cenas mais difíceis de ler é quando ele droga Katherine para obrigá-la a acompanhá-lo em um jantar social apenas para preservar a aparência de “família americana perfeita”. Nesse ponto, o livro praticamente abandona qualquer possibilidade de redenção para o personagem. A tragédia familiar continua quando, após a melhora do primeiro filho e o nascimento de outra criança, ambos morrem em um acidente de carro junto com a babá. Katherine fica destruída emocionalmente e decide não ter mais filhos. Pieter, mais uma vez, reage como se nada tivesse acontecido. A morte das próprias crianças não desperta nele qualquer sentimento verdadeiro, reforçando a ideia de que ele enxerga tudo ao seu redor apenas como peças de um jogo social e financeiro. Entre tantos personagens moralmente corrompidos, Katherine e David (marido de Marisia) acabam funcionando como os poucos pontos de humanidade dentro da história. São personagens pelos quais o leitor realmente consegue sentir empatia, especialmente Katherine, que passa boa parte do romance presa em um casamento abusivo, manipulador e emocionalmente devastador. Outro aspecto importante é como Eldorado usa o universo bancário como metáfora para a destruição causada pela ambição desenfreada. O dinheiro, que deveria representar estabilidade e sucesso, se transforma em algo vazio, quase podre. Pieter sobe cada vez mais socialmente, mas destrói tudo ao redor nesse processo: família, relações, moralidade e até o próprio significado de riqueza. O final do livro acaba sendo relativamente esperado justamente porque toda a narrativa aponta para uma inevitável consequência da ganância extrema. Apesar de ser uma leitura envolvente pela construção psicológica e pelas críticas sociais, Eldorado definitivamente não é um livro leve. Existem diversas cenas +18 e momentos extremamente pesados emocionalmente, que podem incomodar bastante dependendo do leitor. Em alguns trechos, a obra parece quase sufocante de tão cruel e perturbadora. Ainda assim, é impossível negar que o livro consegue provocar emoções fortes — principalmente indignação, desconforto e revolta. No fim, Eldorado não é uma história sobre sucesso financeiro. É uma história sobre decadência humana. Sobre como a ambição sem limites destrói qualquer possibilidade de amor, empatia ou redenção. E Pieter Van Helding funciona como a personificação perfeita disso: um homem vazio, cruel e consumido pela própria ganância.

    1 curtida

    Estatísticas

    Avaliações

    3.4 / 13
    • 5 estrelas31%
    • 4 estrelas23%
    • 3 estrelas31%
    • 2 estrelas8%
    • 1 estrelas8%
    Michael Pye  profile picture

    Michael Pye

    Michael Pye writes for a living—as a novelist, journalist, historian, and sometimes broadcaster. He is English by birth, but civilized by study in Italy and a newspaper apprenticeship in Scotland. For 20 years he commuted between New York and Europe as a political and cultural columnist for British newspapers. He now lives with his partner John Holm in a tiny village in the forests of rural Portugal. He has published ten books, and is proud of some of them: The Movie Brats, written with Lynda Myles, which was the first serious study of what the Scorsese generation did to Hollywood; King Over The Water, which exposed the machinations of the Duke of Windsor in the wartime Bahamas; Maximum City, the biography of New York which set out to find the roots and history of the city’s magic; The Drowning Room, a novel on the first whore of New York in its wild Dutch days; and, of course, Taking Lives.

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    Michael Pye