RESENHA – O DOM DA LÁGRIMA
Qual seu maior desejo? Saúde, dinheiro e um amor que seja eterno enquanto dure? Ou talvez a imortalidade? O futuro chegou trazendo a cura para todas as doenças e a certeza da longevidade sem fim. Uma vida eterna para concretizar todas as suas vontades é um sonho agora realizável. Porem, devemos ter cuidado com o que desejamos, pois pode se tornar realidade. O futuro é agora e a utopia de uma realidade perfeita nunca foi tão distópica.
“Sou imortal, até certo ponto. Lembre-se disso. A imortalidade é um fardo, pois não há motivos para fazer algo se você sempre poderá fazer no dia seguinte.”
O homem ganhou os céus, as galáxias e venceu a morte. A evolução e insumos infindáveis trouxeram evoluídas IA (Inteligências Artificiais) que realizam todas as tarefas que envolvam algum tipo de serviço ou trabalho braçal, e recursos infinitos trouxeram prosperidade e estabilidade politico-econômicas. Restou ao homem apenas usufruir da diversão e qualquer forma de entretenimento por milênios ininterruptos. Todos os locais, filmes, livros, comidas, amores e sabores já foram provados e consumidos restando apenas a repetição… e o tédio! O suicídio se tornou cada vez mais uma constante na vida humana contemplativa, e um cidadão em específico personifica toda essa angústia, nosso protagonista Void.
“Bem, a maior diferença entre a sua sociedade e a minha, está nesta frase: você vive em um mundo em que os homens são robôs e eu vivo em um mundo em que os robôs são homens.”
Void não aguenta mais. As centenas de anos de sua vida serviram para completar todos os seus propósitos e sonhos. Ele agora não consegue “sentir” mais nada e a morte nunca foi tão sedutora. Sua única companhia é seu diário onde escreve esporadicamente para nós, os “selvagens” do passado. Em seu processo de definhar como indivíduo por essência ele não esperava mais nada em sua história, muito menos alguém… ou um amor(?). Mas, devido uma viagem rotineira, ele faz um contato inusitado com Inanis. Através desta companhia Void começa a redescobrir a importância da interação, do contanto e dos sentimentos. A relevância de se pertencer, sofrer, se emocionar e derramar lágrimas que podem ser bênçãos. Porem, complexa é a alma humana com suas agruras e anseios. Independente se estamos milênios à frente em nossa história não há nada mais insustentável no cosmo do que a leveza do ser, e Void descobrirá isso da pior forma.
“Mesmo as dádivas morrem pelo excesso, de que adianta dias espetaculares, se eles não são únicos e, portanto, perdem seu valor?”
SENTENÇA
O livro do jovem Thomas Oden é um complexo drama psicológico. Curto em sua extensão mas extremamente profundo o autor revela várias facetas da alma humana. O cenário futurista bem realista e plausível é usado como pano de fundo para se explorar questões como consumismo, falsidade, egoísmo e o poder esmagador da culpa. A escrita elegante deste paulista associada ao sensível romance abordado abre precedente para uma nova e promissora carreira. Uma obra sofisticada e diferente, no melhor sentido da palavra.
Comentários