“Dostoiévski: um escritor em seu tempo” é uma obra de mais de 2500 páginas que vai muito além de uma biografia, combinando a história cultural da Rússia do século XIX com a sua história intelectual e uma crítica literária de suas mais importantes obras.
É claro que, como o autor mergulha tão minuciosamente na mente e nas principais obras de Dostoiévski, não há como negar que durante a leitura esbarramos em alguns spoilers de momentos significativos das suas histórias. Mas, se assim como eu, se deparar com spoilers não te desmotiva, ao contrário, até aguça ainda mais a sua curiosidade pela leitura, então, devo dizer que isso não lhe será um problema.
Agora, se for, o que eu poderia sugerir é que você pule os capítulos que falam exclusivamente de alguma das obras (facilmente identificados pelos títulos dos capítulos), para poder voltar a eles apenas no futuro, quando finalizar a leitura desses livros.
O autor que assina este estudo completo e considerado definitivo sobre Fiódor Dostoiévski é Joseph Frank, um estudioso literário americano nascido em 1918 em Nova York, que se tornou um dos principais especialistas na vida e obra do romancista, tendo recebido seu título de phD pela Universidade de Chicago pela sua dissertação sobre o niilismo russo em “Memórias do Subsolo”.
Esta premiada biografia, inicialmente foi publicada em cinco volumes entre os anos de 1976 até 2002, sendo em 2009 condensada em um único volume.
No Brasil, a editora Companhia das Letras traduziu a obra em 1176 páginas, publicando-a em 31 de agosto de 2018.
Nascido em 1821, e findando sua vida em 1881, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski foi considerado por muitos o pai do Realismo por trazer em suas histórias os verdadeiros tratados de nossa natureza, traduzidos pelas múltiplas facetas do comportamento humano.
Mas quem melhor do que Dostoiévski para fazê-lo? Um homem tímido, epilético, que perdeu a sua amada mãe quando ainda muito jovem, tendo o pai sido assassinado por colonos de sua propriedade rural, por conta de sua natureza autoritária, a junção dessas tragédias tiveram grande influência em sua produção literária.
O fato de Dostoiévski acreditar tanto em sua capacidade escrita era, inclusive, fonte de zombaria de grandes autores e críticos literários da sua época, mas foi a válvula propulsora que nunca o deixou desistir, deixando para nós esse importante legado da literatura clássica russa, como também um mergulho profundo nos aspectos psicológicos dos seus personagens, o que com que ninguém menos do que Sigmund Freud considerar “Os Irmãos Karamozov” como a maior obra já publicada na literatura mundial, afirmando até mesmo que Dostoiévski “naõ tem como ser compreendido sem a psicanálise”. Tendo lido isso, confesso que compactuo com esse pensamento daquele que é tido (de forma errônea) como o pai da psicanálise.
Para quem já leu algumas das obras de Dostoiévski, e pode acompanhar as análises literárias aqui feitas por Frank, acredito que assim como eu pode sentir seu fascínio pelo autor somente aumentar. Afinal, acompanhar a forma como Dostô vai tecendo a dualidade moral e os conflitos internos de seus personagens que se entregam plenamente à vida, explorando a psiquê humana de forma tão cirúrgica, analisando as consequências do individualismo, nos faz ir além da leitura prazerosa de um livro, para podermos repensar a nossa própria natureza humana e como nossas ações e escolhas, influencia nossa vida e a vida dos outros, assim como somos igualmente influenciados por eles.
Cristão ortodoxo, Dostoiévski acreditava na necessidade de solidariedade entre os povos para alcançarmos a harmonia da civilização. O escritor primeiramente se casou com a viúva Maria Dmitrieva Issaiev em 1857, muito embora seu grande amor tenha sido por Polina Suslova, que teve início em 1862, sepando-se dela em 1864, após a morte da sua primeira esposa. Em 1867, casou-se com Anna Snitkina, com quem viveu até os fins dos seus dias, tendo sido a mulher que concedeu a ele a alegria de ser pai, muito embora tenha o seu primogênito falecido precocemente, o que lhe causou grande dor.
Mas as dores e dissabores perseguiram Dostô durante toda a sua vida, e como todos aqueles que são considerados os maiores escritores da literatura mundial, nessas páginas vemos como um dom vai muito além das nossas fragilidades humanas.
Joseph Frank nos presenteia muito mais do que com a vida e obra de um autor do porte de Dostoiévski, mas nos mostra como um homem como ele desafiou os maiores obstáculos, incluindo ter sido preso e exilado, para com cada uma das pedras que surgiram em seu caminho para construir cada uma das suas histórias com realismo que facilmente despertam a nossa identificação ou empatia com seus personagens, nos fazendo refletir e repensar nossa própria vida.
Tão grandioso quanto aquele a quem ele tão minuciosamente e cuidadosamente estudou, essa obra de Joseph Frank é de uma genialidade fascinante mesclada a uma narrativa poética e um estilo de escrita que nos transporta para um outro momento onde Dostoiévski se materializa cheio de vida diante dos nossos olhos, podendo sentir em cada uma das suas palavras como esse propósito de vida, da força que a Literatura (com letra maiúscula) tem nas nossas e nas vidas das muitas gerações que ainda estão por vir.
Cinco estrelas é pouco para uma obra como essa, e, para mim, será um livro ao qual voltarei a cada obra que eu ler do Dostoiévski, podendo assim não apenas ficar com a minha visão da leitura, mas também como todo o estudo grandioso feito por Joseph Frank.