Teffi é o nome artístico da escritora russa Nadezhda Alexandrovna Lokhvitskaya, nascida em Petersburgo no final do século XIX. Oriunda de uma família intelectual (seu pai era um renomado jurista), Teffi iniciou sua carreira literária como poeta e depois firmou-se como escritora de contos, crônicas, esquetes e folhetins. Foi mais uma daquelas almas artísticas que viveram na efervescência cultural da virada dos séculos XIX para XX, oscilando entre os teatros, os jornais e as revistas literárias.
Suas “Memórias” são peculiares porque no auge de sua vida e carreira, Teffi foi pega de surpresa pela revolução russa e precisou fugir para salvar sua vida. O livro narra essa sua fuga desordenada e não planejada, retratando as circunstâncias absurdas que envolveram o êxodo de milhões de pessoas em fuga dos bolsheviques.
De São Petersburgo a Moscou, de lá para Kiev, na Ucrânia, e então para Odessa, Sevastopol, Novorossiysk e, finalmente, rumo ao ocidente (ela fixou-se em Paris), ainda que não soubesse disso naquele momento, Teffi é pega num turbilhão de eventos absurdos e de pessoas desesperadas, fugindo dos bolsheviques, a medida em que as cidades onde viviam iam caindo, uma após a outra.
Atores, escritores, professores, pintores, músicos, advogados, funcionários públicos, nobres e basicamente qualquer pessoa que tivesse alguma instrução caíram na estrada quase com nenhuma bagagem, procurando fugir do furacão bolshevique que foi varrendo a Rússia, cidade por cidade, matando muita gente e destruindo para sempre o modo de vida que até então existia.
Apesar das circunstâncias trágicas, pois da leitura do livro extrai-se que bastava possuir uma barra de chocolate, um terno ou talvez uma mala com livros para ser sumariamente fuzilado, a narrativa não é deprimente e a prosa de Teffi é extremamente agradável. Pega desprevenida nesse redemoinho da revolução russa, que tragou a tudo que encontrou pelo caminho, Teffi segue com as hordas de fugitivos, cidade após cidade, para longe dos bolsheviques.
Há passagens um tanto angustiantes, onde muito estava em jogo em razão da obtenção de um visto de viagem ou não. Há outras bastante assustadoras, como o retrato que ela faz das cidades em que bandos de adolescentes armados se tornaram governo, juízes e executores de uma nova ordem onde ninguém sabia que era certo ou errado, de forma que se morria por quase nada.
Personagem inesquecível é o seu empresário (“impresario”) Gooskin, um judeu russo bastante pragmático e amante das artes, que vai guiando uma trupê de artistas mimados através de perigos e das situações mais absurdas. Sempre pronto a subornar a pessoa certa para abrir caminho, um observador nato da natureza humana, sem o senso prático dele nossa querida Teffi certamente teria ficado pelo caminho em alguma barreira na Rússia e esse adorável livro não existiria.
Contudo, além do contexto histórico bastante interessante, o ponto alto da obra é mesmo a escrita de Teffi. Descompromissada, despretensiosa e por vezes até bastante divertida, mesclando uma classe e bom gosto que me remeteram a Somerset Maugham, que foi um escritor inglês contemporâneo dela que também me encanta. Ao término do livro fiquei pensando que seria extraordinário ter compartilhado uma mesa de chá com esses dois magníficos escritores. Muito versáteis, muito cultos e bastante espertos, a conversa teria sido certamente deliciosa.
O texto tem um ar nostálgico, porque através de suas observações ela vai narrando o desmoronamento, a toque de caixa, da velha Rússia e o desaparecimento de seus personagens típicos. Cidade após cidade. Casais que se desencontram, amantes que se perdem, filhos que jamais voltariam a ver os pais. Tudo isso é narrado de forma sublime enquanto todos os sobreviventes mantém-se em movimento constante, através da gigantesca Rússia, para fugir dos bolsheviques. A pé, de carroça, de trem ou de navio a vapor, a palavra de ordem é mover-se sempre para longe dos bolsheviques e da morte e destruição que os acompanham.
Apesar de eu ter lido a edição inglesa, da Pushkin Press, o texto é bastante acessível e flui sem qualquer problema. Teffi tem uma prosa deliciosa, simples e nada afetada, que eu poderia descrever como “uma brisa que vem do mar”. Vamos virando as páginas sem qualquer sacrifício e o livro prossegue nos deixando uma sensação bastante agradável. Cabe aqui a tradução livre do elogio do poeta russo Georgy Adamovich, acerca da escrita de Teffi: “Existem escritores que turvam suas próprias águas, para fazê-las parecer mais profundas. Teffi não poderia ser mais diferente: sua água é cristalina e transparente, ainda assim mal conseguimos ver o fundo...”.
Para dar um gostinho da prosa de Teffi:
“The steamer shudders, spreading black smoke. With my eyes now open so wide that the cold penetrates deep into them, I keep looking. And I shall not move away. I´ve broken my vow, I´ve looked back. And, like Lot´s wife, I am frozen. I have turned into a pillar of salt forever, and I shall forever go on looking, seeing my own land slip softly and slowly away from me”.
Enfim, é um livro pouco conhecido por aqui, mas que deve agradar bastante quem é fã da literatura russa ou se interessa pelo período cultural efervescente que existiu no início do século XX. Amantes da boa literatura também não se arrependerão. Leitores com nível de intermediário para avançado de Inglês devem conseguir ler essa edição da Pushkin Press sem maiores problemas. Recomendo! :-)