Antes que Deus me esqueça -

    Alex Andrade

    Confraria do Vento
    2018
    236 páginas
    7h 52m
    ISBN-13: 9788555320651
    Português Brasileiro

    O romance nos revela uma trama instigante na luta de um homem que, ao buscar a superação de suas sombras, mergulha em um profundo tormento, na medida em que se debate para desvencilhar-se das mesmas. Escrevendo sobre o livro, Carlos Henrique Schroeder , sentencia: "Neste romance, ele traz a concisão e a precisão de contista experiente para um universo mais íntimo: afetivo mas também violento. 'Faz mais ou menos um ano e meio que divido a cela com mais seis pessoas, antes éramos três'. A narrativa começa na prisão e eclode para a natureza arbitrária da vida e da morte".

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos27/08/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    De que somos feitos? - VOLTANDO A REFLETIR SOBRE

    “De que somos feitos”? É pergunta que abre o romance “Antes que deus me esqueça” do escritor Alex Andrade recentemente editado pela Confraria do vento. Para os que conhecem a literatura brasileira e sua historia, a leitura desse romance nos faz lembrar, numa triste cronologia literária, de “Memórias de um sargento de milícias”(1853) de Manuel Antônio de Almeida que narra as peripécias pelas ruas do Rio de Janeiro, do malandro Leonardo, “Filho de uma pisadela e de um beliscão”, ou de “O cortiço de Aluísio de Azevedo” (1890) aquele romance que, mesmo difundindo as amalucadas teses naturalistas de seu tempo, mostra com crueza de detalhes o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico, e a formação de uma parcela – o embrião da favela atual -, de nossa “brasilidade” Ou recordar, por outro lado do Policarpo Quaresma (1915) de Lima Barreto na chave de compreensão do caráter brasileiro, ou ainda, de rememorar um conto de Machado de Assis que se chama “Pai contra mãe”, e que joga por terra a tese de que Machado não teria tocado em temas escabrosos como a escravidão e as “leis” sociais dela decorrentes, e aceitas passivamente e coniventemente pela sociedade de então. Há ainda, se resvalarmos para o campo sociológico propriamente dito, ante a leitura de “Antes que deus me esqueça”, outras “memórias” que ficam bailando em nossa mente. Aqui e ali piscam nomes como os de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes dentre outros. Mas ao leitor contemporâneo, não é forçoso conhecer tais obras para desfrutar da bela ficção que Alex Andrade nos proporciona agora em 2018. Vamos ao enredo: A obra é narrada em primeira pessoa, e de dentro de uma prisão, pelo protagonista Joca (Joaquim de Jesus) que deve sua existência a um estrupo praticado por um marinheiro oriundo do Rio Grande do Norte, contra uma gorda e feia mulata, a Joana, ocorrido no anos 60 em um subúrbio do Rio de Janeiro. Joana por sua vez era filha de Virginia, moça pobre de origens africanas que por sua vez engravidou, casou e pariu extensa prole de um tal Joaquim de Jesus Filho, descendente de portugueses e muito chegado “a orgias e vadiagem, sempre rodeado de mulheres e cachaça”. Pronto eis, resumidamente a árvore genealógica do Joca. Antes que pudesse dormir num berço, ainda na barriga da mãe, é expulso da casa da avó materna, e juntamente com a mãe, passam a residir num puteiro (o sobrado azul), comandado pela tia Marieta irmã de Joana. O sofrimento já começa antes mesmo do parto, portanto, na existência do menino. Visto assim, e dessa maneira fria como é, foi, e infelizmente parece que continuará sendo nos destinos de tantos e tantos seres humanos filhos da “pátria amada, Brasil!”. Todavia, a sensibilidade e habilidade do autor vai nos deixando entrever como se forja no espírito do pequeno Joca sua percepção do mundo, seus sentimentos, e dores, que impõe-lhe uma sociedade que fundamentalmente rejeita a priori o ser humano a partir de racismos, preconceitos religiosos (estes cada vez mais estapafúrdios), e etc. Uma ruína completa, uma dor terrível ao menino que é espezinhado na escolinha simplesmente por não saber o nome do pai a quem tanto deseja encontrar, e recebe a pecha de filho da puta porque sua mãe era obrigada a residir no prostíbulo, numa pobreza terrível. Mágoas e violações dos sonhos mais elementares de uma criança. E é assim, debaixo desses condições tão adversas para sua personalidade - entendida como unidade integrativa de uma pessoa, o conjunto das suas características essenciais (inteligência, caráter, temperamento, constituição), que Joca cresce. Nesse ambiente hostil, que seu caráter, - maneira habitual e constante de reagir, própria de cada indivíduo, gênio; firmeza; força de ânimo - , se molda. E temos o resultado óbvio, o menininho ingênuo, dócil e amoroso torna-se o adolescente problemático. “Começaram a me colocar apelidos horrorosos, como a fera do puteiro, o demônio das putas e o cão do diabo”. P. 59 Mas eis que, para acabar de desgraçar a vida de mãe e filho, a polícia invade e fecha a casa de tolerância. Olho da rua para os dois mais uma vez, que fazer senão voltar às origens? Foi ainda pior... Todas essa memórias, como já se disse, são vistas dentro da perspectiva de um homem preso que escreve/rememora de dentro de uma cela de um desses presídios que pululam e se proliferam pelo Brasil inteiro onde não se respeita qualquer dignidade humana para com os presos que se misturam em total promiscuidade. Um verdadeiro manicômio do inferno: “O homem enjaulado fede, dorme mal, cansa de não fazer nada, disputa terreno sem ter terreno algum, sai e se torna pior do que entrou; nunca uma jaula vai resolver os deslizes de um ser desajustado. Se quiserem promover justiça trancafiando um homem dessa maneira, a justiça será feita na hora que esse homem estiver em liberdade, porque dá vontade de esmagar o mundo com as mãos, de sair por aí fazendo o pior”. p.20. Ainda na primeira página da obra de Andrade, seguindo àquela primeira pergunta: “De que somos feitos”?, Lemos outra, igualmente intrigante: “Em que parte da vida percebemos a real importância de existirmos? O segundo capítulo da obra relata-nos a volta à “Comunidade” (nome melhorado de favela) de origem de sua mãe. O envolvimento com parentes e amigos primeiro no jogo do bicho, depois com máquinas caça-níqueis e finalmente com o puro e simples trafico de drogas. O jovem vai ao ápice da criminalidade, justamente quando numa dessas teias que o destino arma, finalmente encontra seu pai biológico numa situação deplorável para os dois. Vale salientar no autor a fina capacidade de observação das marés de idiotia que invadem a sociedade (bailes de toda sorte regados a drogas, ao lado de igrejas evangélicas, grupos de gangues, malhação de corpos, o inferno existencial ancorado no hedonismo de baixo estrato). Outro aspecto de suma importância. Como, em um meio desses se travam as relações amorosas? Simplesmente no puro e simples coito. Não há espaço para amores estruturados em relação de conhecimento prévio, afetividades, não. É relação sexual pura e simples. Veja-se a relação de Joca com a mulata casada Elvira. Um roteiro assim não lembra, em algo, alguma(s) daquelas obras citadas inicialmente? Sobretudo se vistas numa chave de conjunto e que denota claramente a nossa derrocada social ao longo do tempo? E não me venham com evasivas ridículas de que “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Não é não! Tudo se interliga sim. Desde o “Memórias de um sargento de milícias” (1853) de Manuel Antônio de Almeida até este “Antes que deus me esqueça” aqui e agora nesse nefasto ano de 2018. Aí um dos méritos da obra de Andrade; mostrar e demonstrar cabalmente como e por quais meios o homem “enjaulado” dos grandes centros urbanos repletos de favelização, onde impera o desgoverno, o Estado paralelo da criminalidade e a estupidez, nasce, cresce e se desenvolve. “De que somos feitos? Em que parte da vida percebemos a real importância de existirmos? Outro mérito incontestável da obra. O sinalizar para uma conscientização de que “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído. Não derrotado”, sentença de Ernest Hemingway, usada como epígrafe da obra. Alex Andrade encaminha o desfecho de sua narrativa de forma brilhante a apontar que compete a nós buscarmos e encontrarmos novos caminhos. Novas forma de existir. Não deixarmo-nos derrotar. Que rumo afinal tomará o Joca, “a fera do puteiro, o demônio das putas, o cão do diabo”? Vale a pena conferir o surpreendente desfecho do romance. Fica ainda a pergunta no ar: porque atualmente somos tão pródigos em produzir obras que focam na violência pura e simples, na criminalidade, no bang-bang urbano que nossa mídia dá uma visibilidade escandalosa, para no fim e ao cabo, só servirem mesmo para confirmar e reafirmar no (in)consciente coletivo a certeza de que é isso mesmo, que não tem jeito, que foda-se quem quiser, que farinha pouca meu pirão primeiro, que nem tudo é sacanagem porque daqui há pouco tem carnaval, e campeonato brasileiro de futebol, muita cachaça, drogas para todos os gostos, e micareta, e festa de largo, e tome-lhe bunda rebolando? Sim, eu sei, e faço a ressalva em tempo, de que não há aqui generalização negativa quanto à qualidade intrínseca de outras obras, afinal o ambiente, o meio em que as obras são gestadas é lócus por excelência de uma realidade que se impõe ao escritor como força incontornável, como um dado de que não se pode escapar, e se faz o mero registro dos fatos e sua impositiva figuração do real. Estou me referindo estritamente ao que já escrevi acima. O que de fato termina acontecendo no e para o (in)consciente coletivo no caso de certas obras muito conhecidas e badaladas, é a certeza ingênua, pueril, e imbecilizante de que somos um país sem futuro mesmo. E nada há para ser feito. O Brasil é o atualmente o terceiro país no mundo com maior número de pessoas presas O total de encarcerados está acima de 726.000. Destes, cerca de 40% são provisórios, ou seja, ainda não têm condenação judicial. Mais da metade dessa população é de jovens de 18 a 29 anos e 64% são negros (este último percentual não lembra, assim vagamente, os “Capitães de areia/1937 de Jorge Amado?” Que beleza! Ainda números vergonhosos. 89% da população prisional está em unidades superlotadas e 78% dos estabelecimentos penais têm mais presos que o número de vagas. Quantos Jocas aí estão presos? Que rumo tomará uma nação assim? Eis aí uma parte de nosso imenso passado materializada em números. Como será? Em um momento em que a mentalidade pré-eleições se divide numa dualidade maniqueísta com noções completamente deturpadas de direita e esquerda manipuladas por meros interesses pessoais ou de grupinhos, e/ ou de Mercado (que é o deus sem cara que domina tudo) e, em meio a essa barafunda de trinta e tantos partidos políticos, porque não conseguimos avistar nada além disso, ficam ressoando as perguntas do senhor Alex Andrade: “De que somos feitos”? Em que parte da vida [perceberemos] a real importância de existirmos? Talvez essa obra venha a figurar, pelo cânone oficial, numa imortalidade apenas mais duradoura que as demais, como uma das grandes obras produzidas nesses nossos tempos sombrios. Talvez não, e caia no esquecimento, só a posteridade o dirá. O importante de fato, é que constitui vivo testemunho de nossa época. É inegável. 29/08/2018. Livro: “Antes que deus me esqueça” – Romance de Alex Andrade - Editora Confraria do Vento- Rio de Janeiro-RJ, 2018, 236 p. ISBN 978-85-5532-065-1 OBS: LINK COMPRA E PRONTO ENVIO: http://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/202-antes-que-deus-me-esqueca.html

    7 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.8 / 5
    • 5 estrelas20%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas40%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%