Uma primeira coisa que me veio à mente ao me deparar com Sol das Almas foi a escolha inusitada de um pastor evangélico como protagonista. O romance de 1964, ambientado em Palmares, cidade da zona da mata pernambucana, narra as desventuras de Jó e do pecado do luxúria que o assoma e atormenta.
Estruturado em 19 capítulos (cada um uma estação do trem para Recife), vai revelando detalhes de sua vida amorosa e sexual com a esposa Estela. Assomado pela culpa e dividido entre ser um homem comum e um homem de Deus, Jó termina atormentado por flagelos físicos e pela consciência encarnada num morcego que observa e afronta.
Esse percurso interior, o conflito, a luta excruciante de Jó é posta em contraste com a vida da pequena cidade. A avareza de um dono de engenho decadente, a intempestividade e fidelidade de Totô, o vício em morfina de um médico, a beleza de uma húngara, os mexericos de um funcionário público, a amizade com o padre Alípio, um charlatão e suas curas milagrosas. Esse mosaico de vida, cores, crenças e decadência formam um retrato fidedigno da cidade e o cenário de aflição, julgamento e condenação de Jó.
O modo como certos personagens soam comuns (e próximos a mim por minhas origens) acentuam a profundidade e complexidade do protagonista.
Hermilo, em cada detalhe, prova-se um mestre. O texto enxuto, centrado no(s) relato(s), na condução e cadência que imprime ao romance, usando as estações para passar a limpo em curtos intervalos de tempo toda a trama que conduz Jó ao Recife. Além de demonstrar profundo conhecimento e habilidade pra fazer dele uma pessoa real e não a caricatura debochada de um pastor evangélico.
Talvez pudesse dizer que o declínio seja o grande tema que une todos os elementos e personagens. Engenhos de fogo morto (ou lutando para não sucumbir), um médico consumido pelo vício, um casamento abalado pelo sexo visto como pecaminoso e toda uma (suposta) decadência moral em que o narrador se vê e que percebe na hipocrisia também comum à vida e comunidades religiosas.
O nome de Hermilo Borba Filho, em geral, associado ao de outros grandes escritores como Ariano Suassuna, Osman Lins e Érico Veríssimo, quer pela amizade que lhe tinham, quer pela reverência à sua obra, sem dúvida, deveria ser mais e mais reverberado.
Um baita romance.