O que despertou minha atenção para a leitura de O Milagre, mais do que sua premissa, foi o fato de já ter me encantado com a escrita de Emma Donoghue em Quarto, livro que originou o filme Quarto de Jack. Agora, mesmo com uma experiência bastante diferente, já que as obras se estruturam de formas distintas, ainda assim me deparei com uma história sensível e impactante, que estabelece pontos de contato com a outra obra da autora.
No final da década de 1850, Lib, uma enfermeira inglesa, é contratada para fazer vigília à Anna, garotinha irlandesa de 11 anos que há 4 meses não se alimenta. Os rumores indicam que o fato é um milagre; Lib, porém, tem certeza de que há algum tipo de fraude na história e está decidida a desvendá-la.
Por ser essa uma ficção histórica, chama a atenção, desde o início de O Milagre, a maneira de como personagens e cenários são retratados. Emma Donoghue traz ao leitor uma narrativa que se constrói sobretudo pelo choque entre as culturas representadas — inglesa e irlandesa —, de forma a demonstrar muito dos conflitos da época em relação a ambas nações. O olhar cético de Lib em relação à Anna não se deve somente a ela desconfiar da situação, mas também ao preconceito inglês em relação ao irlandês. Ainda, especialmente ao se chegar ao fim da leitura, fica clara a importância da narrativa em terceira pessoa: mesmo que ela se aproxime da perspectiva de Lib, o distanciamento decorrente de uma voz externa e onisciente garante mais fidedignidade ao que está sendo narrado, o que não seria possível se a narrativa fosse construída em primeira pessoa, já que abriria-se margem para se duvidar daquilo retratado por Lib.
Embora eu tenha feito uma leitura mais lenta na maior parte do livro, principalmente por conta dos capítulos muito longos e pelo início da trama ser mais descritivo do que permeado por acontecimentos, foi impossível não notar o esmero da escrita da autora, muito bem percebido pelo trabalho de tradução de Vera Ribeiro. Ainda que a nota da tradutora indique o que se perdeu na passagem de um idioma para outro, é perceptível ao longo da leitura as exigências que a tradução demandou mesmo sem se ter acesso à versão original do texto. Como Lib é uma inglesa em um meio irlandês, as divergências entre o inglês falado em cada um dos países acabam por aparecer em diversas situações, e Vera foi habilidosa ao trazê-las para o português.
Sendo assim, por boa parte da leitura me vi mais encantada pela escrita e pela contextualização histórica do que pela trama de O Milagre em si. Contudo, bastou atingir a parte final do enredo para que eu passasse a fazer uma leitura muito mais voraz; conforme as peças do quebra-cabeça passam a se encaixar, nos vemos tanto ávidos por mais quanto completamente desolados pelo que as respostas indicam. A obra de Donoghue me despertou sobretudo revolta, já que me vi indignada com o posicionamento de diversas personagens e completamente destroçada pelos segredos da história.
Dessa maneira, O Milagre é uma leitura que começa lenta, mas que culmina em um final aterrador, indicando o esmero com que a autora construiu toda a trama até seu clímax. Essa é uma história que questiona muito do fervor religioso, bem como o significado de família, trazendo personagens complexas e marcadas por suas próprias cicatrizes. E, assim como em Quarto, Donoghue cria um efeito paradoxal no leitor ao colocar uma criança no centro da obra: se por um lado a voz de Anna suaviza o peso dos temas abordados, é justamente a sua inocência que faz de tudo ainda mais “desolador”, como definido pelo jornal The New York Times em nota presente na capa do livro.