Em sua primeira folga desde que chegou a cidade, Josef K. tem muitos afazeres. Entre os quais ir ao supermercado, o único num raio de cem quilômetros. Ao chegar, K. é impedido de entrar: só acessa o supermercado quem tem cartão fidelidade. Depois de algum tempo de espera, K. é avisado de que assinou um contrato com o supermercado. Ele recebe um cartão fidelidade e entra. Apesar do supermercado ser gigantesco, K. não vê nenhum cliente ali. Pior ainda: não há carrinhos. Após receber informações erradas de um funcionário, K. descobre que os carrinhos estão trancados e para levar um deles terá que assinar um formulário se comprometendo a zelar pela integridade do utensílio. Infelizmente, esta não é a única esquisitice do supermercado. Os produtos estão dispostos aleatoriamente nas gôndolas. Não há preços. Há vários espaços vazios nas prateleiras. Os funcionários são arrogantes e agressivos. A foto de K. está no chão: os clientes são obrigados a saber os nomes uns dos outros. A partir daí K. descobre que o supermercado tem uma série de regras esdrúxulas e, às vezes, contraditórias. Por violá-las, é multado diversas vezes. Algumas das infrações: estacionar em local proibido, trafegar na contramão, exceder a velocidade máxima, distanciar-se do carrinho de compras, violar a trajetória obrigatória, manusear inadequadamente produtos adquiridos, desacatar sugestão (ele não quis comprar doce de cebola), comprar produtos indevidos. Apesar de tanto desrespeito, K., uma vítima do monopólio, é obrigado a comprar no supermercado. Sair dali sem as compras seria uma derrota mais humilhante ainda. Se bem que sair sem comprar nada também é proibido. Ao chegar ao caixa, K. verifica que não há ninguém para atendê-lo. Após reclamar durante alguns minutos, outros clientes aparecem. Para a fúria de K., o caixa que chega chama outra cliente para ser atendida. No supermercado, a fila não é por ordem de chegada. Cabe aos atendentes escolher quem é o próximo a ser atendido. A paciência de K. esgota-se. Ele solicita a presença do gerente. Por isso, é criticado pelos outros clientes. Diante do gerente, os clientes do supermercado agem como adolescentes histéricas em frente ao grande ídolo. Os clientes repetem tudo que o gerente fala. Eles agem como se o supermercado fizesse um favor ao atendê-los. Os clientes chegam a pedir desculpas pelas infrações que cometeram. Algumas dessas “infrações”, inclusive, são direitos garantidos por lei. Ao conversar com o gerente, K. constata que, por ser o único da cidade, o supermercado se considera acima das leis. O gerente tem explicações absurdas para todas as práticas abusivas do supermercado. Diante das críticas de K., que os considera submissos, os clientes gritam alegremente que “O supermercado pode fazer o que quiser. O que importa é que somos clientes do supermercado”. Quando K. ameaça processar o supermercado, o gerente fica tranqüilo. Afinal, os juízes, os policiais e os advogados são clientes do supermercado. A paciência de K. esgota-se ainda mais quando sua esposa e filha são ameaçadas. O gerente diz que K. não pode se relacionar com elas, pois “clientes do supermercado só se relacionam com clientes do supermercado”. Os clientes do supermercado são ainda mais cruéis: “quem não é cliente do supermercado não presta”.
O Supermercado -
Edward Edwards
Kindle
2016
156 páginas
5h 12m
ISBN-10: B01AATE056
Português Brasileiro
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