Máquina Mundi -

    Marcelo Mourão

    Oficina Editores
    2016
    138 páginas
    4h 36m
    ISBN-13: 9788580510782
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos13/09/2018Resenhou um livro
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    Máquina Mundi

    “Máquina Mundi” de Marcelo Mourão é obra que certamente ficará como um registro vigoroso de nossos dias porquanto o autor se propôs a, dentro de uma temática específica primeira, que é “A máquina do mundo ou o mundo da máquina”, explorar quais as engrenagens que condicionam e oprimem o homem de inícios do século XXI. A temática acima faz parte do primeiro capítulo do livro que possui outros 4 a saber: “As engrenagens de Eros”, “Os mecanismos poéticos”, “Os engenhos de dentro” e, finalmente, “A máquina de interrogações”. Tchello d´Barros amplia a assertiva acima ao escrever nas orelhas observação pertinente à poética de Mourão: “Logo de início temos alguém que nos convida criticamente a nos darmos conta do quanto estamos impregnados desse mundo digital, em como nossa idade-mídia nos converte em seres virtualmente hiperconectados, ao tempo que nos distanciamos presencialmente um dos outros. Sim o autor desconfia dessa vida cibernética. E nos contagia questionando o status quo vigente”. Desconfia e a explora com grande habilidade, numa gama de recursos expressivos. Transita do velho soneto de formatação tradicional enfeixado em versos longos, estrofes e rimas, a poemas curtos passando pelo haicai, pela expressão sincopada, pelas aglutinações vocabulares, pelo verbalismo pós-concretista, jogos de sonoridade e ousa até, a figuração semiótica ou, um verdadeiro “sincretismo poético” como define Igor Fagundes em um adendo ao livro intitulado “Fortuna crítica”. Quanto ao viés do conteúdo, vemos a abordagem de temas universais como o amor, a morte e a sexualidade, assim como os mais corriqueiros como o viver cotidiano ou a amizade, estabelecendo inclusive intertextualidades com outras vozes da poesia, como acontece em “Moto-contínuo” e em “Poliamor – ou a novíssima quadrilha”. Entretanto, é seu olhar atento, ferino e denunciador de quem está atento às transformações sociais e políticas do mundo, que se fixa na memória do leitor de maneira indelével. O OLHO DE FERRO (para Michel Foucault e George Orwell) “Feito um farol, porém desprovido de lume e soturno, / segue o olho da máquina sem piscar nem um segundo. / O olho me olha e olha tudo mais à sua volta / sempre com um olhar de pergunta, nunca de resposta. Feito um deus, que tudo escuta, tudo sabe e tudo vê, / segue o olho mecânico a nos enquadrar numa TV. / Esse mesmo olho oco que escaneia corpos e rostos, / jamais irá hackear o que há na alma do seu oposto. Feito um cão de guarda, ou um juiz furioso e sem dó, / segue o olho de ferro a vigiar tudo ao seu redor, / numa fome de fera que tudo decifra e devora. E assim, olhos espreitam, surgem, dão botes feito cobras. / E, assim, mil olhos vão se clonando e, quanto mais, melhor. / E assim caminha a humanidade: acompanhada e só”. Com efeito, Mourão é sabidamente um Multiartista que organiza projetos culturais, declama poemas em saraus, agita dentro do que lhe é possível, o ambiente poético dessa Brunzundanga amalucada em que o país vai se transformando. Em suma, um poeta plural, um insatisfeito que não se deixa vencer: SACO DE PANCADA “crivado / de imagens // baleado/ por notícias // refém / de fatos / filmes & fotos // cercado / por trás / frente & lados // assim me refaço: / juntando meus cacos / pelo chão / espalhados”. E assim vamos vivendo, todos infelizes de fato, nesse “mundo da máquina”, mundo mecânico e diabolicamente maquinal, automatizado, desarmônico, inconsequente e, sobretudo brutal que a tudo estilhaça. Poema MARCHA MARCADA: “Todo dia, alguma coisa se parte, / se quebra, se desfaz, de mim se aparta. / Toda hora, cato minhas muitas partes / e varro para debaixo da alma. Todo dia, um alguém em mim se mata, / se queima, abre muitas crateras largas. / Todo tempo, ressoa essa sonata / e caio, um por um, nos buracos da alma. Todo dia, pouco a pouco, me acabo, / incinero pedaços putrefatos / e envelhecemos eu e meu retrato. A sorte é que nunca me descontrolo. / Enquanto insanos se sujam de sangue, / a poesia põe minha alma no colo”. Das várias epígrafes utilizadas na obra de Mourão, uma nos chama a atenção quanto à mensagem mais forte que o livro como um todo nos deixa. É um fragmento de Carl Jung em “O eu e o Inconsciente”: “Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha para fora sonha. Quem olha para dentro acorda”. Com certeza estamos diante de um livro que nos conduz à uma visão reflexiva a sugerir-nos duas coisas: primeiro, um alerta ao homem que diante das telas superficiais dos smartsphones “olha para fora” preocupado e ocupado com seu hedonismo avassalador. E a lembrança de “olhar para dentro de si”. Ter por certo que, para além dos “olhos de ferro” que nos vigiam, somos capazes sim [sem sermos insanos a nos sujar de sangue!], de exercer aquilo que é nossa qualidade, nossa peculiaridade, nossa capacidade. O humano que transforma. Perceber afinal que podemos fazer vigorar no mundo, liberdade e beleza. Poema OUTONAL. Caem folhas mortas / novamente sobre a terra. / Olho o mundo como ele é. / Vejo a rua pela janela / quando algo doido / dentro em mim berra. Olho pra tudo, pro nada. / Sonhos suicidados, / ânsias empalhadas, / Não paro para contá-los, / continuo na estrada. / Sou o que fui e sou / mudando para ser / o mesmo de sempre, / que nunca sabe quem é, / que segue cego e ciente. Caem folhas fenecidas. / Passos, descompassados, / chegadas e partidas. / Sem velório ou caixão, / busco o aroma das flores vivas / e me abro para uma nova estação”. Livro: “Máquina Mundi” – Poesias, de Marcelo Mourão – Oficina Editores, Rio de Janeiro - RJ, 2016, 138 p. ISBN 978-85-8051-078-2 OBS: LINK PARA COMPRA: http://www.oficinaeditores.com.br/servico_maquina_mundi.html

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