No começo do século XX, saíram contrabandeados da penitenciária de San Quentin, nos Estados Unidos, manuscritos de um ex-detento que permaneceu na solitária por oito anos até ser enforcado. Este seria um fato comum, não fosse o incrível conteúdo dos relatos, que foram produzidos de maneira inusitada - após o prisioneiro submeter-se à auto-hipnose e entrar em estado alterado de consciência, por meio do qual era capaz de vivenciar experiências de vidas passadas. Danell Standing, um professor de Agronomia que matou um colega de faculdade, aprendeu essa técnica dentro da prisão, em princípio para escapar das terríveis dores que lhe causavam a tortura da camisa-de-força, onde ele era obrigado a ficar até cem horas ininterruptas. Depois, para recuperar mais detalhes das longínquas existências que lhe eram proporcionadas a cada novo "desdobramento astral". Em suas memórias, ele deixou registrado um relato que nos chama atenção porque as provas dessa sua existência encontram-se expostas hoje no Museu da Filadélfia. Embora fosse um cético, Jack London, mestre norte-americano da ficção, absorveu a rica experiência de Danell Standing e se propôs a narrar um dos mais instigantes e envolventes romances de todos os tempos, "O Andarilho das Estrelas", que retoma a visão de mundo de grandes sábios e filósofos que a humanidade produziu.
O Andarilho das Estrelas -
Jack London
Uma narrativa de torturas e viagens através do tempo
O Andarilho das Estrelas foi publicado em 1915, e é um livro muito diferente de tudo que Jack London já havia escrito, foi inspirado por um relato verdadeiro que foi contrabandeado da prisão de San Quentin, nos Estados Unidos, no início do Século XX, escrito por um detento chamado Danell Standing: um professor de agronomia que matou um colega de faculdade e foi condenado a prisão perpétua. Ele permaneceu na solitária por oito anos sendo torturado com a Camisa-de-força: um método de tortura da prisão no qual era obrigado a passar até cem horas ininterruptas completamente amarrado e jogado no chão de uma cela. Para escapar das terríveis dores e estado de quase morte ele submetia-se à auto-hipnose fazendo sua mente retroceder até suas vidas passadas para vislumbrá-las através de um "desdobramento astral". Danell Standing deixou registrado um relato com provas de uma de suas existências que está exposto hoje no Museu da Filadélfia. Jack London na dedicatória, de O Andarilho das Estrelas, que endereça a sua mãe, diz: "Sinto-me bastante culpado de tê-lo escrito, porque não acredito em nada disso" sua mãe era espírita e médium e London era devidamente materialista e engajado na luta para melhorar a condição dos oprimidos pelo sistema capitalista. A divulgação das torturas passadas por Danell Standing em San Quentin ajudou a mudar a legislação penitenciária norte-americana. A narrativa se passa entre as viagens astrais do personagem e o cotidiano na prisão, tornando mais fácil digerir os relatos detalhados das torturas sofridas por ele. A escrita de Jack London continua primorosa e a imersão na história é imediata. A leitura desse livro me deixou completamente estarrecida com os métodos de torturas usados pelo diretor Atherton e o Capitão Jamie no calabouço de San Quentin e a cada relato de Standing senti arrepios por todo corpo e entendi completamente sua urgência em buscar enlouquecidamente por uma fuga. Sua luta, longa e dolorosa, para dominar o corpo através de sua mente mostra uma vontade inquebrável de fugir da realidade de sua existência naquela prisão. Standing aprende a desprender seu espírito do corpo para suportar toda a dor excruciante que lhe é infringida e com isso consegue se libertar do sofrimento físico entrando em um estado alterado de consciência para viajar pelas memórias de suas vidas passadas. Aprender a sofrer passivamente e manter o cérebro em sereno repouso deve ser dificílimo, mas foi o que Standing fez durante oito longos anos antes de sua execução, ele teve fé absoluta na predominância da mente. Os relatos das aflitivas horas que passava na Camisa-de-força, que deixava seu corpo como uma massa de ferimentos e miséria, é agoniante. A parte espiritual e filosófica de "O Andarilho das Estrelas" também aparece em outros livros que já li e foi muito interessante poder saltar através do espaço tempo e vislumbrar as vidas passadas de Standing pelos séculos e milênios da existência humana. Me vi presa em cada história de épocas diferentes das quais tomei conhecimento juntamente com ele. Foi como se estivesse lendo vários contos. O ponto de vista de London sobre o assunto está presente e ficamos ciente do posicionamento do autor sobre o relato de Danell Standing desde o início na dedicatória do livro: "Acredito que o espírito e a matéria estão tão intimamente ligados que ambos desaparecem juntos quando a luz se apaga." Esse foi o último livro de Jack London publicado enquanto estava vivo e foi para mim, que sou uma grande fã de seus livros, uma diferente, mas magnífica leitura que recomendo para todos.
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