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    A Adivinhação na Antiga Costa dos Escravos -

    Carlos Eugênio M. de Moura

    EDUSP
    2017
    792 páginas
    1d 2h 24m
    ISBN-13: 9788531416651
    Português Brasileiro
    4
    1 avaliação
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    Este é um estudo histórico-etnográfico pioneiro sobre os processos divinatórios praticados na região dos atuais Togo, Benin e Nigéria, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. No centro da obra está Fá, divindade que preside o destino dos homens e dos deuses, e cujo culto é fundamental para que possa haver comunicação entre os domínios do visível e do invisível. No oráculo de Fá estão inscritos os mitos, as lendas, os provérbios, as saudações e as prescrições mágico-religiosas que conformam a cosmovisão dos cultos a divindades conhecidas como voduns e orixás. Esses cultos foram trazidos para o Brasil em consequência da escravidão, e foram reorganizados numa pluralidade de sistemas religiosos, como o candomblé baiano, o tambor de mina maranhense, o batuque gaúcho, entre outros. Originalmente publicado em 1943, esta é a primeira edição em português, com tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura e textos de Reginaldo Prandi e Sérgio Ferretti.

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    Júlio Augusto28/08/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Um marco antropológico fundamental para compreender a expansão transcultural de Ifá

    Adorei este livro, sério! Trata-se de um estudo antropológico pioneiro e absolutamente fascinante sobre os processos divinatórios na região do Daomé entre 1934 e 1936. Bernard Maupoil, administrador colonial francês nos legou uma obra que permanece como referência incontornável para qualquer pessoa interessada em compreender como Ifá se expandiu e se transformou culturalmente ao sair da Nigéria. O que mais me impressiona na abordagem de Maupoil é seu rigor metodológico excepcional. Como ele mesmo documenta, "o material desta obra foi levantado por ocasião de uma estada administrativa no Baixo Daomé, de janeiro de 1934 a fevereiro de 1936, notadamente em Abomé e Porto-Novo". Essa precisão temporal e geográfica demonstra a seriedade de um pesquisador que validou suas fontes de forma exemplar, estabelecendo um padrão de excelência que poucos conseguiram igualar na antropologia africana. A obra revela aspectos sobre a chegada de Ifá ao Daomé que são impares para entendermos os processos de expansão religiosa na África Ocidental. Maupoil documenta que "no que se refere ao reino do Daomé, pode-se admitir que Fá foi oficialmente introduzido em Abomé no reinado de Agadjá, nos primeiros anos do século XVIII, por uma caravana de comerciantes nagôs". Essa informação, aparentemente simples, revela a complexidade das redes comerciais e culturais que permitiram a disseminação de sistemas divinatórios através de fronteiras étnicas e políticas. O que torna este trabalho absolutamente fascinante é como Maupoil consegue capturar o processo de aculturamento que transformou Ifá em Fá. Como sociólogo, reconheço nessa abordagem um trabalho etnográfico de altíssima qualidade que antecipa questões centrais dos estudos culturais contemporâneos. Maupoil demonstra como, apesar de Ifá e Fá serem "a mesma coisa" em povos diferentes, para cada um dos povos as palavras "têm sentidos" e significados diferentes, dando novos contornos ao culto e funções distintas às práticas divinatórias. A análise linguística que Maupoil desenvolve é particularmente brilhante. Ele mostra como "Fá exprime em fon-gbe duas ideias aparentadas, a de frescor - frescor da água, da atmosfera (sin fifa: 'água fresca') - e a de agradável doçura, no sentido moral". Essa diferença semântica não é meramente linguística - ela revela transformações conceituais profundas. Enquanto para os yorùbá Ifá é a "voz" de Olodumare, para os povos do Daomé Fá representa algo "brilhante" ou que traz "frescor", uma força que ilumina e acalma. São cosmologias distintas se apropriando e reinterpretando o mesmo sistema divinatório. Um dos aspectos mais fascinantes que Maupoil documenta é a posição ambígua de Fá no panteão daomeano. Como ele registra, "a maioria dos adivinhos declara que Fá é 'como um vodum'. É também mais difícil para eles afirmar que ele não é um vodum do que demonstrar o contrário". Fá não se encaixa perfeitamente no sistema de voduns porque mantém características do sistema iorubá original, mas também não pode ser considerado idêntico a Ifá porque adquiriu características específicas do contexto daomeano. A descrição que Maupoil faz da percepção local sobre Fá é extraordinária: "Muitos bokonos afirmam: Fá é como os voduns, mas não pertence inteiramente à categoria deles. Ele conta todos os segredos, explica tudo... Os voduns são cruéis, são violentos. Fá não é como eles; assemelha-se mais a um homem bom do que a um vodum; é humano". Essa humanização de Fá revela como os processos de aculturamento não são meras adaptações superficiais, mas reinterpretações que transformam a própria natureza conceitual das divindades. Outro detalhe que me chamou muito a atenção foi a marcação temporal através dos reinados que perpassa toda a obra. Expressões como "foi no reinado de Ghezo que me casei com fulana" revelam como o tempo histórico era organizado e memorizado através das dinastias reais. A centralidade política dos reinos na organização social e na memória coletiva africana é fascinante! A importância desta obra para os estudos afro-brasileiros não pode ser subestimada. Esta versão de Fá foi a mesma que Pierre Verger teve acesso quando estudou inicialmente, o que significa que muitas das práticas que chegaram ao Brasil, Cuba e Caribe passaram por esse processo de aculturamento daomeano. Estamos falando da mesma divindade, mas em cultos diferentes, com práticas diferentes e regras diferentes por se tratar de contextos culturais distintos. No entanto, devo fazer algumas ressalvas importantes: Este definitivamente não é um livro introdutório. Maupoil pressupõe conhecimento considerável sobre sistemas divinatórios africanos, organização social daomeana e contexto histórico da região. Para quem não está familiarizado com trabalhos antropológicos densos, o livro pode ser massante, especialmente nas seções que reproduzem extensas entrevistas e análises detalhadas de processos divinatórios específicos. A obra também reflete as limitações de sua época. Maupoil escreve como administrador colonial francês dos anos 1930, com todas as implicações teóricas e metodológicas que isso envolve. Algumas de suas interpretações precisam ser lidas com o filtro crítico necessário para contextualizar o período histórico e as relações de poder coloniais que moldaram sua pesquisa. Apesar dessas ressalvas, este livro permanece como um documento foda pra 🤬 #$%!& para compreender os processos de expansão e transformação cultural de sistemas divinatórios africanos. A tradução brasileira, com apresentação de Reginaldo Prandi e Sérgio Figueiredo Ferretti, democratiza o acesso a uma obra que estava restrita aos círculos acadêmicos francófonos. Para pesquisadores, sacerdotes e interessados em compreender a complexidade dos intercâmbios culturais entre diferentes tradições africanas, este livro é indispensável. É uma obra de consulta que deve estar na biblioteca de qualquer pessoa séria sobre estudos afro-brasileiros e africanos. Material requíssimo que nos ajuda a compreender como tradições religiosas se transformam, se adaptam e se reinventam em novos contextos culturais. Recomendo sua leitura, mas com a ressalva de que exige preparo intelectual e interesse genuíno em antropologia histórica. Não é para iniciantes, mas é excelente para consulta quando necessário. Vale e vale muuuuito para quem quer compreender as raízes históricas e os processos de transformação cultural do Ifá.

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    Carlos Eugênio Marcondes de Moura

    Sociólogo, iniciou seus estudos acadêmicos na Universidade de Genebra, Suíça (Escola de Intérpretes, da Faculdade de Letras, e Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais). Bacharelado na Escola de Sociologia e Política, complementar da Universidade de S. Paulo, e doutorado defendido no Departamento de Sociologia da Universidade de S. Paulo. Pós-Doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros, desta mesma instituição. Formado em interpretação pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi um dos fundadores do Serviço de Teatro, da Universidade Federal do Pará, onde lecionou, e ex-professor do Departamento de Teatro da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de S. Paulo. Foi pesquisador do Setor de Artes Cênicas, do Centro de Documentação Sobre Arte Brasileira Contemporânea (IDART), da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Publicações: na área de história social do Vale do Paraíba em sua vertente paulista (Os Galvão de França no Povoamento de Santo Antônio de Guaratinguetá. 3ed. S. Paulo: Editora da Universidade de S. Paulo, 1995; O Visconde de Guaratinguetá – Um Fazendeiro de Café no Vale do Paraíba. 2ed. S. Paulo: Studio Nobel, 2002); na área de teatro (As artes do espetáculo na Província de S. Paulo. A Temporada Artística em Pindamonhangaba em 1877-1878. S. Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1976; O Teatro que o Povo Cria. Cordão de Pássaros, Cordão de Bichos, Pássaros Juninos do Pará. Belém: Secretaria Estadual de Cultura, 1998) na área de antropologia visual (A Travessia da Calunga Grande – Três Séculos de Imagens sobre o Negro no Brasil (1639-1899). 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de S. Paulo, 2012 e Estou Aqui. Sempre Estive. Sempre Estarei. Indígenas do Brasil. Suas Imagens. 1505-1945. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012, livro vencedor do Prêmio Jabuti 2013, em primeiro lugar na categoria Livros de Arte e Fotografia). É organizador da edição e um dos autores do livro na área de história da fotografia no Brasil (Retratos Quase Inocentes, S. Paulo: Nobel, 1983), Vida Cotidiana em São Paulo no Século 19. Memórias, Depoimentos, Evocações (S. Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, Universidade Estadual de S. Paulo, Imprensa Oficial do Estado e Ateliê Editorial), premiado pela Academia Paulista de História. Organizou e é um dos autores da edição bilíngue do livro Brasil – Grã Bretanha. Uma relação de cinco séculos (São Paulo: Associação Cultura Inglesa, 2010. Organizador e coautor do livro Fazendas de café do Vale do Paraíba. O que os inventários revelam – 1817-19l5. São Paulo: CONDEFHAAT; Secretaria Estadual de Cultura, 2014. É organizador, tradutor e coautor de sete coletâneas sobre religiões brasileiras de matrizes africanas, com ênfase no candomblé, publicadas entre1982 e 2005 pelas editoras Ágora, Nobel, EMW Editores, Edicon/Edusp, Axis Mundi/Edusp, Pallas e Empório de Produção. Dedica-se há mais de vinte anos à tradução, tendo cerca de cinquenta títulos publicados pelas mais importantes editoras do país, entre elas Brasiliense, Companhia das Letras, Cosac & Naify, Nobel, Três Estelas e Editora da Universidade de São Paulo. Foi assistente de curadoria, curador-associado e curador de várias exposições em torno do retrato no Brasil e da cultura afro-brasileira, entre as quais Retratos Quase Inocentes (Museu da Imagem e do Som, S. Paulo, 1983, e Pinacoteca do Estado, 1990), Religiosidade Afro-Brasileira (Feira do Livro, Frankfurt, Alemanha, 1994) e Arte e Religiosidade no Brasil – Heranças Africanas (Parque do Ibirapuera, S. Paulo e Casa França-Brasil, Rio de Janeiro, abril-setembro 2000). Um dos curadores das exposições O Café (Banco Real, S. Paulo, agosto-outubro 2000) e Britânicos no Brasil (Centro Britânico, S. Paulo, agosto-setembro 2001). Bolsas recebidas: Fundação Vitae, Conselho Nacional de Pesquisa, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo, Fundação Fullbright e Fundação Guggenheim (Estados Unidos). Uma das maiores contribuições de Moura para as pesquisas sociológicas e antropológicas da história do Brasil, entre outras, foi a publicação do lívro A travessia da Calunga Grande. Três séculos de imagens sobre o Negro no Brasil[1][2][3]. A obra contém uma coletânea de imagens de diversos artistas trazidos ao Brasil por Maurício de Nassau no século XVIII, e fotografias de diversos autores que retratam pessoas de várias épocas e é um livro significativo no estudo da iconografia dos afro-brasileiros no período de 1637 a 1899.

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    São Paulo, Brasil

    Carlos Eugênio Marcondes de Moura