Um minúsculo apartamento ou uma planície deserta coberta de mandacarus? Entre contos de bar e casos de vida, o protagonista Salvador compara sua vida à de seu ídolo Lampião. Invasões, os embates contra a morte, a morte em si – dura e cruel –, a narrativa explora “uma multidão de despojados encerrados num inferno coletivo”, seja no sertão do passado, seja no ambiente urbano do presente, entranhada em episódios que carregam desilusões e sofrimentos e a vontade de uma liberdade nunca antes sentida. O livro 'O governador do sertão', de Anatole Jelihovschi é um entrelace entre tempos, chegando a um ponto onde o passado se funde ao presente, em um quê de fantástico, como se estivéssemos dentro de um universo "a la" Cem anos de solidão da caatinga.
O Governador do Sertão -
Anatole Jelihovschi
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Ver maisCrítica: ‘O Governador do Sertão’, de Anatole Jelihovschi
As referências fantasiosas da nossa infância podem tornar-se referências inspiradoras quando nos tornamos adultos. O protagonista desta estória é um jovem escritor e sonhador, cujo herói sempre foi Lampião, personalidade controversa da história do nordeste brasileiro. Tão controversa, que aqui ele é herói e anti-herói ao mesmo tempo. Não existe aparente pretensão do autor, nem do narrador protagonista, em delinear a trama numa divisão clássica entre mocinhos e vilões. Esses dois tipos de personagem confundem-se e diluem-se em duas narrativas que correm paralelas: a estória de Salvador, jovem escritor e publicitário, e a estória de Salvador, jornalista que acompanhou algumas incursões de Lampião e seus homens no sertão do nordeste, na década de trinta. Sentimo-nos muito perto de Salvador, escritor e publicitário, que numa vida prosaica e comum, nos descreve um conjunto de sensações, motivadas pela companhia imaginária de Lampião. Até quanto a realidade pode ser alterada pela ficção? Nas páginas de 'O Governador do Sertão' seguimos na busca incessante pela resposta a essa pergunta, até à última palavra do livro. Perdemo-nos no universo real do cangaço, às vezes com o estômago embrulhado de angústia, sem conseguir achar culpados. A dor, a miséria, a violência desmedida e gratuita. Homens que matam sadicamente outros homens, estupram e matam sadicamente mulheres. Cangaceiros e polícia na miséria do nordeste brasileiro. Nas décadas de vinte e trinta do século XX. Ao mesmo tempo, uma perturbadora sensação de atualidade. Anatole Jelihovschi consegue, com efeito (e muito talento!), transportar-nos a um universo de realismo mágico concreto, se posso chamar-lhe assim. Magia e realidade são a mesma coisa, falando-se em Lampião, o Rei do Cangaço, 'O Governador do Sertão'. No entanto, e apesar de conquistada pelo enredo, senti falta de personagens femininas mais atuantes, impositivas e fora do cliché do papel de género coadjuvante de 'mulherzinha/romântica/frágil/fútil/maliciosa/sensual'. Nessa linha de entendimento, também senti falta de uma Maria Bonita mais combativa e densa, como a imaginara ao saber quem foi, através de pesquisas pessoais. É assim que chego a alguns momentos da narrativa incomodada com Salvador, o narrador protagonista e a sua falta de empatia e entendimento com o verdadeiro universo feminino. Posto esse detalhe, caríssimas leitoras e caríssimos leitores, mergulhem a fundo na obra, com cuidado, para não chegar ao final ofegantes. O sertão é um terreno perigoso, difícil, mas que enfeitiça.
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