Quando o poeta diz que não sabe o nome das coisas, alguma esperança ainda temos. Fiat lux e o verbo se fez carne. De palavra em palavra, Deus se diz perfeito. Não o poeta, que diz o mundo em sua imperfeição, que carrega em seus céus e abismos o homem, como nesta difícil ação que nos propõe Lu Rodrigues, no poema "Des-crer", logo nas primeiras páginas de seu livro de êxodos, trajetórias, viagens, buscas, silêncios, intervalos: "Fluxo contrário/ tribunal na terra/ varredura da mente." O poeta não é deus; não foi feito à sua imagem e semelhança. Em cada palavra que não encontra, busca o inominável. Em cada palavra inscrita no papel em branco, ali se escreve a grota, o sulco, a cicatriz, uma coisa que o poeta não sabe. Retalha, pensa, silencia, corta, costura, remenda mas o nome não vem: poesia é o que está abaixo, no infernal subterrâneo, onde a vida é "a estrada/ uma corda bamba/ ligando os penhascos", como ainda diz Lu, desta vez em "Subsolos". Curtos, rápidos, tensos e intensos, são assim os versos que o leitor encontrará nas páginas deste livro de poemas. Passe as páginas, uma a uma, com os olhos; cante um a um os seus versos em voz alta. O leitor se verá em cada curva das letras, se ouvirá no eco de cada som martelado, se saberá em cada silêncio da palavra não escrita. E com o olhar que percorre, em um átimo, um verso até cair no seguinte, reconhecerá que a escrita é libertadora. Por isso, ainda que não saiba, o poeta escreve. Por isso, ainda que não apreenda todos os signos nem se deixe guiar pelos sinais das palavras, alguém lê. Busca noite e dia a profana poesia nossa de cada dia. A poesia que não termina no ponto final ou na última palavra de cada poema. A poesia que continua em seus silêncios.
Eu não sei o nome das coisas -
Lu Rodrigues
Parthenon Centro de Arte e Cultura
2016
83 páginas
2h 46m
ISBN-13: 9788557870147
Português Brasileiro
Edições (1)
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