Cosmogonias -

    Otto Leopoldo Winck

    Kotter Editorial
    2018
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788568462546
    Português Brasileiro

    "Em um cenário em que a poesia às vezes abusa das piscadelas modernistas da ironia e do trocadilho ou das citações chiques mas meio inconsistentes, os poemas de Otto Winck ocupam um outro lugar. A linguagem direta é clara, mas o livro esconde tesouros, diz mais do que parece pretender." Sandra M. Stroparo

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    Krishnamurti Góes dos Anjos12/06/2019Resenhou um livro
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    Cosmogonias

    O termo cosmogonia vem do grego kosmos, que significa universo, e de gignomai, que quer dizer nascimento ou gênese. Assim, a cosmogonia é um relato, normalmente mítico, que explica a criação e a ordem do universo e, ao mesmo tempo, o surgimento dos seres humanos. Trata também do nascimento, o propósito e o fim de todos os seres sob a ação dos deuses e reza a lenda que foi Tales de Mileto, (624 a.C - 546 a.C., e por aí se vê que essa fofoca vem é de longe), o primeiro a buscar a origem de todas as coisas, acreditando encontrá-la na água, considerada por ele como a substância primordial do universo. Pensando nisso, mas não somente nisso, agora em nossos tempos de Big Bang (teoria cosmológica dominante sobre o desenvolvimento inicial do universo), o senhor Otto Leopoldo Winck escreveu e publicou pela Kotter Editorial de Curitiba seu mais recente livro de poesias. “Cosmogonias” que é uma reunião de 75 poemas onde a visada predominante, ou exclusiva, é sobre a questão existencial do ser em seus mais variados matizes. Há milênios a humanidade vem se debatendo com questões que parecem insolúveis. Uma das que mais afligem os macacos sabidinhos super ‘egocêntricos’ que nos tornamos é aquela que parte do pressuposto de que, a cada momento o homem tem de escolher aquilo que será no instante seguinte. Nossa espécie, como entendeu Sartre, deve ser inventada todos os dias. Aí o nó górdio. É através da liberdade que o homem escolhe o que há de ser – escolhe sua essência e busca realizá-la. É a escolha que faz entre as alternativas com que se defronta que constitui sua essência. Essa escolha lhe permite criar seus valores. Não há como fugir a essa escolha, pois mesmo a recusa em escolher já é uma escolha. O poema que dá título à obra contempla nossa perplexidade, e angústia decorrente, ao depararmo-nos com os embates de nossa contingência. Entra Deus em cena. “COSMOGONIAS” “Os deuses nascem da angústia. / Diante do abismo, nasce um deus. / Diante da noite, nasce outro. / Diante do amor, diante da morte, diante do brilho do sol, / diante do mar tenebroso, diante da chama do fogo / nascem os deuses magníficos e terríveis / que nos atormentam. / Ajoelho-me ante o seu panteão, prostro-me, beijo a laje fria do chão. / Não sou nada. Eles também. / Mas juntos criamos o mundo / pelo poder da palavra que é nada também. / Tudo é nada? O todo pode provir do nada? / Deixemos estas perguntas tolas para os cientistas e os teólogos. / A mim cabe admirar o que não tem explicação, / o que não faz sentido / (admirar ou me indignar), / prostrado no chão, dançando no abismo, chorando a ida dos dias. / Os deuses nascem da angústia. / Diante de um par de seios, diante da semente na terra, diante / [da morte de um filho / nascem os deuses da revolta e da submissão. / A mim cabe apenas presidir o ofício divino / com minha mitra, meu báculo de pastor e meu espanto de criança. / Eu mesmo acendo as velas, exorto os fiéis, faço a leitura / dos livros sagrados. / Depois transformo barro em cidades, trigo em banquetes, vinho / [em civilizações antiqüíssimas. / Não sou nada. Os deuses também. / Mas juntos criamos os mundos / que povoamos nas noites de angústia e solidão. / Pois cada mulher e cada homem nascem sozinhos (ainda que gêmeos), / morrem sozinhos (ainda que num acidente de carro / ou na explosão de um míssil na Faixa de Gaza) / e entre um ponto e outro, entenda: ninguém te entenderá. / Nem os deuses. Nem você. / Os deuses nascem da angústia. / Os deuses e este poema.” Sim, os Deuses, ou o “Deus” como se entende cá nessa banda do mundo, é questão violentíssima. Interessante notar na obra do senhor Otto a série de poemas THEOPHORUS, que, em número de seis se espalham ao longo do livro. No primeiro THEOPHORUS – I, (o nome próprio significa aquele que traz um deus dentro de si), um eu poético nos diz: “Vivo / no limite / do abismo.” E dentro do poema lemos os versos: “Se eu carrego um deus dentro de mim / para que diabos / eu quero um templo?”, no segundo poema de mesmo título lemos: “Vivo / à beira / do abismo. Para quem tem um deus dentro de si, / tudo é risco”. No terceiro, esse mesmo eu (repete a velha historinha da própria humanidade): “À beira / do abismo / eu brinco”. Lugar “onde aposta tudo, ou dança, lança os dados no caos” e, detalhe: “À beira do abismo “eu grito”.” No quarto poema: “O alvo / é a graça, / a luz, / o voo.” Porém: “O gozo / é o jogo.” No quinto, lá vai doidera: “Um passo em falso / e o universo se aniquila. / Um passo adentro / e se desfaz a alquimia”. E finalmente no sexto, uma constatação bem próxima do que muita gente tem hoje como o fim último de todos nós “Vivo / na iminência / do fim.” Que beleza, para além de acreditar ou não em Deus, hoje questão mais de conveniências, vive-se no limite do abismo, depois à beira dele, dança-se à beira do abismo, gritos à beira do abismo, o gozo é o jogo, o universo se aniquila e finalmente viver-se na iminência do fim. Puta que pariu! Que criaturinha desgraçada! Estaciona no horror e na treva da consciência que é a morte. Não há saída. Não consegue enxergar na alternância do ciclo da vida e da morte uma via de ascensão. Mas isto, dito assim parece conversa de filósofo embriagado. Falemos seriamente com a ajuda da professora Sandra M. Stroparo, que assina o Posfácio da obra. Afirma ela a certa altura: “Ao falar da morte de Deus e suas consequências na literatura do sécu¬lo XX em diante, Charles Glicksberg afirmou que sem a presença dele sobrou para o escritor um mundo que não se mantinha mais de forma unificada. No processo de eliminar o que era antes sobrenatural, a ciên¬cia teria acabado por intensificar a percepção do absurdo: do homem, da existência, do mundo. Cada autor precisou lidar com isso à sua maneira, e tão complicada foi a constatação da morte de Deus quanto a dúvida sobre o assunto, os restos de fé e negação misturados.” O poema “Elegia 2014”, é exemplo dessa incomensurável dúvida com que vamos levando a vida. “ELEGIA 2014” “Entre cismas e sismos, / hesito: eu podia ter matado o déspota / e enforcado o último clérigo em suas tripas. Em vez disso, / peregrino de bar em bar / e venho dar na sua porta com um poema novo: / este, em que digo / uma coisa / e faço outra. Entre a vodca e o tédio, / vacilo: eu devia tocar fogo no Congresso / ou na Associação Comercial / e pichar os / muros da cidade com um relâmpago: / eu sou o deus do fogo e minha amada é uma cicuta. Em vez disso, / encontro um amigo e lhe falo de meus planos, / um livro novo, uma viagem / e as pessoas que há tanto já não vemos. Entre caracteres e confetes, / oscilo: conto a verdade e me dano / ou me dano e sonego a verdade? / Enquanto isso, engulo as pequenas mentiras / do cotidiano / com que adiamos para outro século / a felicidade coletiva / e individual.” Não só adiamos para outro século a felicidade coletiva e individual. A humanidade soube bem direitinho fazer e manter nossos dias como um tempo “de fezes, alucinações e golpes sujos.”, um tempo em que a inércia ainda predomina e os homens ainda não sabem verdadeiramente, senão manter-se e reproduzir-se, fechados no ciclo de suas funções animais. Alguns poemas do livro transmitem ao leitor (porque assim anda mesmo o mundo), uma sensação de niilismo terrível, (ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência), há inclusive um poema com o título: “NIETZSCHENEANO” (justiça se faça, Nietzsche escreveu muito sobre o niilismo, é verdade, mas foi porque ele estava preocupado com os efeitos do niilismo sobre a sociedade e a cultura, não porque ele defendeu o niilismo). O fato é que o eu que aparece em alguns poemas está em extremo conflito interior. Flerta com a morte como acontece em “NOTURNO” ou em “ABISMOS”, ou cogita do suicídio como acontece em: “TORQUATAMENTE” e “INSCRITURAS”. A morte tida e havida como algo “que não cola mais os cacos espalhados no chão”, como lemos em “FLORES VOTIVAS”. O ser humano caminha sobre a face da Terra hoje (tomando uma perspectiva de tendência social), como uma sombra que não se dá conta de que cada um de nós é uma consciência em construção; estamos todos a caminho, e cada um, com sua alma diversa da das outras (daí as cosmogonias – no plural), se agita, luta, semeia e colhe; lança livremente com as próprias ações a semente de onde nascerá depois o seu inexorável destino, aqui mesmo no inferno terrestre, do lado de lá do desconhecido, ou no nada absoluto. Lógico. Poderia ser diferente? Livre é em nosso nível a escolha dos atos e das sendas, livre as escolhas das causas. Perguntamo-nos: será mesmo o livre arbítrio um fato constante e absoluto? Todavia a cosmovisão do autor se depura de fato, quando trabalha a dimensão do tempo na vida humana. Observe-se o poema “MEMORABILIA” “Mirar el río hecho de tiempo y agua / y recordar que el tiempo es otro río, / saber que nos perdemos como el río / y que los rostros pasan como el agua. ” Jorge Luis Borges. Olhar o rio e compreender que o tempo / é um rio que flui e não retorna, e, se retorna, / será, num tempo outro, um outro rio. / Olhar o rio e compreender também / que, se as suas águas as nossas mágoas / levam, é nesse rio, além da foz, / além do mar, além da noite extrema, / que as nossas lágrimas se transfiguram, / iluminadas não das mágoas mortas, / que destas já não há nenhum remédio, / mas daquelas que ainda surgirão, / pois se há fluir, se há correr, se há viver, / sempre haverá sofrer, e pena, e mágoa. Olhar o rio e compreender que o tempo / é o rio sem fim em que nos batizamos, / irremediavelmente naufragados, / todo dia, toda hora, a todo instante. / Olhar o rio e aceitar que não podemos / nos agarrar aos ramos e às raízes / da encosta — e que os barrancos nem sequer / a fantasia da estabilidade /nos podem, despencando, transmitir. Olhar o rio e compreender enfim / que, se a sina de todo rio é o mar, / o fim de toda gente é navegar, / ai, sem cartas, sem ferros, sem correntes, / em direção do insofismável mar, / na imensa noite que da noite outra / cai, silente, solene, generosa. Olhar o rio e, mais que compreender, / reconhecer que o fim, no fim de tudo, / é se deixar levar por essas águas, / sem reservas, sem medos, sem paixões, / até que, num rio outro, além da noite última, / possamos vir à tona, como arcanjos, / nas águas límpidas do não-ser. Outro ponto muito bem explorado é a dimensão do amor. Neste aspecto poderíamos citar vários poemas. Entretanto vejamos apenas dois, em pólos opostos e, no entanto, complementares: “TRANSEPTO”. Observe-se a maravilhosa mescla, fusão, combinação perfeita entre Deus e amor! Como prometi, roubei o fogo / e com minhas mãos de labaredas / te incendeio. Deus está solto, eu o sinto / em minhas veias pulsantes e em teus poros abertos. / E este fogo que acendemos na noite / é sagrado como é sagrado o pão sobre a mesa / e o vinho no cântaro de barro. / Como prometi, roubei o fogo / e agora somos uma sarça ardente / que se ilumina de sua própria luz / e se embebeda de sua própria chama. / A vida é terrível, eu sei, / mas neste instante de ternura e pavor, / em que não cremos em nada, / Deus está vivo / e é ele que dilata nossas pupilas insones / e bombeia nosso sangue pagão. / Como prometi, roubei o fogo / e com ele inauguramos uma aurora boreal, / a mais bela do mundo. Veja-se no poema “SANTO SUPLÍCIO”, outro aspecto, do amor carnal (?). “meu gozo / é observar teu gozo / no rosto / no ríctus do lábio / torto / nos olhos / súplices, dúplices / enquanto tuas mãos / contritas / agônicas / como que imploram: / meu amor / não goze agora” Até quando vamos apostar nessa absurda e contínua desintegração da personalidade? Nessa passagem do ser ao não ser, na qual se destrói uma cadeia de causalidade que tudo prepara e tudo conserva? Tudo no universo é individuado; tudo clama “Eu”. A unidade tão complexa como é a individualidade humana pode simplesmente desaparecer? (não sobreviveria o nosso psiquismo e não traria ele sempre o grau de evolução conquistado?) Será mesmo que existem esses mares de inércia? Essas zonas de vácuo? Esse nada absoluto? Sempre a dúvida em nossas consciências. Uma dúvida cruel nos martela incessantemente. Haverá a sobrevivência de nosso “eu”? Seja como for, e pensem ou digam o que quiserem, esse desejo irrefreável se reflete em todas as nossas obras, sobretudo as artísticas. No Primeiro poema da obra que é “Persistência” temos uma epígrafe de Bernardo Soares (um tipo particular dentre os heterônimos de Fernando Pessoa): “Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, / entre o que sonho e o que a vida fez de mim (...).” Segue o poema do senhor Otto: “Há um interstício / entre o que eu sou / e o que sonho, o que penso / e o que sinto. No meio, / bem no meio, / eu estou: pleno e vazio. Não importa. Entre vales / e píncaros, êxtases e fastios, / eu insisto. E grafo, gravo, grito / no muro, na pele, na palma: / eu existo.” Ao longo das páginas desse excepcional livro correm as águas de um rio eterno (e voltamos a lembrar de Tales de Mileto), que espelham a vida humana. Finalmente chegarmos ao poema “IN FINES”, que reverbera uma de nossas maiores verdades. “no fim / você está sempre só / como no fundo / sempre esteve no fundo / você está sempre nu / como no início / sempre esteve” Todavia, não há razões para desesperos, angústia e ataques de loucura burra. O que ainda não fizemos é olhar para a consciência latente que está em nós, transferir o centro de nossa personalidade para essa estratificação profunda de nossa consciência, tendo em vista sobretudo, que o universo não é um meio para a realização do próprio “Eu”, como se este fosse seu centro, mas um universo regulado por leis em cujo seio é possível realizar o próprio Eu. Um bom começo talvez, seja fazer o que nos é dito neste pequeno e belíssimo poema: “CELEBRO A VIDA” “Celebro a vida / como quem celebra um passarinho morto: / com velas, com terra, com lágrimas. / (Por que ele morreu, mamãe?) / A vida às vezes é um troço absurdo. / Mas ainda assim / eu a celebro.” Livro: “Cosmogonias” – Poesia de Otto Leopoldo Winck – Kotter Editorial, Curitiba – Paraná 2018, 120 pp. ISBN 978-85-68462-54-6

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