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    Café Titanic -

    Ivo Andrić

    Editora Globo
    2008
    278 páginas
    9h 16m
    ISBN-13: 9788525044129
    Português Brasileiro
    3.9
    29 avaliações
    Leram39Lendo4Querem61Relendo1Abandonos2Resenhas2
    Favoritos1Desejados61Avaliaram29

    Existem, felizmente, grandes escritores nunca por demais conhecidos. Felizmente, porque isto permite que, de tempos em tempos, tenhamos a grata surpresa de conhecê-los ou de recordá-los. É o caso do sérvio Ivo Ándritch, Prêmio Nobel de 1961 e um dos grandes autores europeus do século XX - que a editora Globo coloca, agora, ao alcance do público brasileiro, através da coletânea de contos Café Titanic. Com seleção, notas, prefácio, tradução direta do sérvio e glossário de Aleksandar Jovanovíc. Não tão felizmente, existem ao menos três Europas. A Ocidental, seu oposto geográfico e cultural, a Rússia ("Europa asiática") e a Europa Central. Esta, por estar no meio dos dois gigantes políticos e culturais, sofreu ao longo do tempo todos os impactos culturais e geopolíticos. Fato agravado pela presença, por séculos, de um terceiro gigante, o Império Otomano. O paradigma da condição histórica centro-européia é a região dos Bálcãs, zona de amortecimento e impacto entre Ocidente e Oriente, catolicismo e ortodoxia grega, cristianismo e islamismo, modernidade e tradicionalismo. Se isto gerou inúmeras batalhas, grandes tragédias, despotismos e exílios, também gerou certo tipo de homem europeu universal, cuja expressão atingiu seu ápice entre o fim do século XIX e início do XX. Três nomes bastam de exemplo: Kafka, Freud e Canetti. O sérvio-bósnio, iugoslavo, eslavo, europeu Ivo Ándritch (escritor, diplomata, poliglota) pertence a esse grupo. Conforme sintetiza o prefácio: "Não é por acaso que suas obras buscam representar, de forma constante, a variedade cultural e o contraste entre as várias civilizações. Num território que, ao longo dos séculos, experimentou centenas de tipos de dominação e violência, a visão humanista de Ándritch a respeito da variedade cultural, a avaliação positiva da diversidade, não deixa de ser uma grande lição - hoje e sempre. [...] O conjunto de sua obra - contos em que tematiza figuras ou períodos históricos e os romances - acaba se tornando um grande painel, ao mesmo tempo alegórico e metafórico, da história da Europa Centro-Oriental". A presente coletânea - com dez dos mais famosos contos de Ándritch - é, por sua vez, um painel desse painel. Considerando tratar-se de uma região que esteve no centro do noticiário desde o fim da Iugoslávia, a obra de Ándritch acaba servindo de guia de viagem para nosso próprio tempo - e para muito além dos Bálcãs, pois os conflitos culturais estão por todo lado. Quanto ao estilo do autor sérvio, está sintetizado no título do prefácio: "Ándritch, relojoeiro da narrativa". Pois se sua matéria literária é a região mais conturbada da Europa, o escritor parece pensar que seu estilo tem de ser, em contraponto, o mais preciso, descritivo, claro e direto possível, para não concorrer com tal matéria. O que, ao lado de seu multiculturalismo de nascença, dá à obra uma contemporaneidade insuspeitada.

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    Aguinaldo Medici Severino27/02/2011Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    café titanic

    Uma coisa que acontece sempre que consultamos uma biblioteca ou passeamos por uma livraria é nos deparar com algo totalmente novo. Estes lugares são mesmo parques de diversão para os sentidos. Pois noutro dia eu estava na CESMA, matando tempo, sem compromissos, e vi a lombada de “Café Titanic”. O nome chamou-me a atenção e eis que naquela hora tive em mãos pela primeira vez um livro de Ivo Ándritch, que vim a saber depois, ganhou o prêmio Nobel em 1961. O mundo real mais uma vez mostrou-me que por mais que me esforce em ler tudo que me cai nas mãos (tolo que sou) sempre haverá autores novos, livros novos, literaturas inteiras novas, para serem descobertas. Pouco adianta ser este leitor contumaz. Mas vamos ao livro. Ándritch nasceu em 1892, em uma região dos balcãs que hoje faz parte da Bósnia (na época era parte do império austro-húngaro.) Grande erudito, linguísta, professor, escritor e diplomata por muitos anos (do antigo Reino dos Sérvios, Crotas a Eslovenos e depois também da antiga Yugoslávia), Ándritch foi um dos responsáveis por compilar lendas populares, histórias e relatos dos muitos povos e religiões que coabitaram os balcãs (sérvios, croatas, bósnios, albaneses, montenegrinos, eslovenos, russos, ciganos, árabes, judeus, cristãos, ortodoxos, muçulmanos.) Referência intelectual em seu país, chegou a ser assediado pelo regime comunista de Tito, mas manteve corajosamente sua independência. Em “Café Titanic” temos uma pequena mostra da versatilidade e da vívida imaginação de Ándritch. Como em um mundo mágico, os dez contos deste livro apresentam pessoas, lugares, paisagens e histórias sempre muito tocantes, plenas de humanidade. No conto que dá nome ao livro lemos sobre um judeu sefardita que vê seu mundo desmoronar quando o ódio entranhado de seus antigos vizinhos aflora durante a primeira grande guerra; em outro aprendemos algo sobre um laborioso arquiteto do império otomano que se esforça em construir uma ponte sobre um dos rios da Bósnia, apesar do descrédito e achincalhe dos moradores locais; em outro conto acompanhamos uma disputa judicial entre um servo e um senhor quando da mudança de governo em uma região (os governantes mudam, mas não as regras de classe, nos ensina sutilmente Ándritch.) Vários contos se passam em épocas remotas, são histórias de vizires, beis, emissários de um distante mas poderoso sultão. Em todos eles os usos da linguagem na comunicação entre os homens são ressaltados. Os contos tem um estilo bem particular, um tanto diferente do que tenho lido ultimamente. São fáceis de ler, mas tão bem escritos e repletos de informação, que parecem jóias lapidadas durante anos. É um livro bem editado, traduzido diretamente do sérvio por Aleksandro Javonović, que também assina uma boa introdução e um necessário glossário. Ninguém se torna um especialista nos eslavos do sul após ler este livro, mas certamente vai ter sua curiosidade aguçada para entender um tanto deste mundo pouco conhecido. "Café Titanic”, Ivo Ándritch, tradução de Aleksandar Jovanović, editora Globo, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 278 págs. ISBN: 978-85-250-4412-9

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    3.9 / 29
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    • 4 estrelas48%
    • 3 estrelas24%
    • 2 estrelas3%
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    Иво Андрић

    Escritor, diplomata e político iugoslavo, Nobel de 1961. De suspeito do assassinato do Arquiduque Ferdinando à diplomata, escreveu alguns dos seus romances mais famosos sob prisão domiciliar nazista. Sua obra farta-se da história, folclore e cultura bósnios.

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    Travnik, Bósnia, Império Austro-Húngaro

    Иво Андрић