Women Without Men - A Novel of Modern Iran

    Sharnush Parsipur

    The Feminist Press
    2011
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9781558617537

    "Using the techniques of both the fabulist and the polemicist, Parsipur continues her protest against traditional Persian gender relations in this charming, powerful novella." —Publishers Weekly This modern literary masterpiece follows the interwoven destinies of five women—including a wealthy middle-aged housewife, a prostitute, and a schoolteacher—as they arrive by different paths to live together in an abundant garden on the outskirts of Tehran. Drawing on elements of Islamic mysticism and recent Iranian history, this unforgettable novel depicts women escaping the narrow confines of family and society, and imagines their future living in a world without men. Copied from Amazon Kindle ®

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    Dulcinea Silva02/12/2025Resenhou um livro
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    Onde a Realidade Fica Estreita e o Fantástico Respira, uma viagem pelo Irã feminino de Parsipur

    Mundafora em 198 livros #29: Irã Quando terminei Women Without a Man (ou Mulheres sem homens em português), de Shahrnush Parsipur, a sensação é a de ter atravessado silenciosamente uma porta para um Irã onde a realidade é tão estreita que precisa do fantástico para respirar. A história acompanha cinco mulheres cujas vidas se tocam num momento de desamparo coletivo, cada uma carregando um excesso: de culpa, de memória, de silêncio, de opressão. A narrativa se abre como sementes arremessadas ao vento; algumas germinam, outras explodem em luz, outras se desfazem antes mesmo de tocar o chão. Porém, todas revelam algo essencial sobre o país de onde brotam. O Irã é uma tapeçaria antiga: fios pré-islâmicos, fios islâmicos, fios modernos, fios revolucionários, todos costurados de forma tensa e brilhante. O Irã moderno é resultado de uma história marcada por rupturas e continuidades. Antes do Islã, foi o império persa: sofisticado, vasto, multicultural. Com o advento do Islã no século VII, tornou-se uma civilização profundamente influenciada pelo pensamento religioso e pelo misticismo. Porém, a maior fratura contemporânea se deu em 1979, com a Revolução Islâmica, que substituiu a monarquia do xá pelo regime teocrático que persiste até hoje. Essa mudança redefiniu profundamente a relação entre Estado e indivíduo, a liberdade de expressão, a vida cultural e artística, mas sobretudo, conforme podemos ver no livro, o papel da mulher na sociedade e o controle sobre seus corpos e suas vozes. É nesse contexto; entre repressão política, moralidade rígida e vigilância; que a obra de Parsipur floresce. Analisando duas premissas que estão arraigadas na cultura iraniana, a moralidade pública, as regras sociais que definem o comportamento “adequado”, especialmente para as mulheres, e o papel da mulher, tensionado entre tradição religiosa, patriarcado cultural e suas próprias aspirações. Em Mulheres sem homens, essa tensão entre o que se espera da mulher e o que ela é por dentro dilacera e, ao mesmo tempo, abre frestas. Suas personagens encarnam as fissuras de um país em que a vida íntima é permanentemente fiscalizada, onde o desejo precisa se disfarçar, onde a autonomia feminina se converte em campo de batalha moral. E, ainda assim, é justamente no corpo dessas personagens que a autora insere o impossível, não como fuga, mas como gesto de reivindicação. Munis, que morre e volta, carrega a urgência de quem nunca pôde falar. Ela renasce porque o silêncio imposto não dá conta do que havia nela. Faezeh se contorce entre devoções, culpas e impulsos contraditórios, como tantas mulheres iranianas que caminham num fio estreito entre obrigação religiosa e vida real. Zarrinkolah tenta abandonar o estigma que a sociedade lhe tatuou na pele, mas entende que, para escapar verdadeiramente, precisará transbordar o próprio mundo. Mahdokht, ao se transformar em árvore, traduz a exaustão de quem já não encontra lugar nem forma possíveis dentro das amarras que a circundam. E Farrokhlaqa tenta recompor dignidade num cenário onde a dignidade feminina é quase sempre negociada pelos homens. Cada mulher, à sua maneira, encarna não apenas um drama individual, mas uma metáfora viva do Irã contemporâneo. É como se Parsipur dissesse que o país, assim como suas mulheres, vive dividindo-se entre raízes e impulsos de ruptura, entre tradições milenares que se impõem como destino e um desejo profundo de transformação. A política não aparece aqui como pano de fundo: ela é o ar que tudo permeia, um ar pesado, denso, que obriga a narrativa a buscar oxigênio no extraordinário. Por isso o realismo mágico surge tão organicamente, o extraordinário não é uma extravagância literária, mas um modo de sobreviver às pressões do real. O fantástico, na escrita de Parsipur, funciona como aquilo que escapa às amarras estatais, religiosas e culturais. Num país onde a palavra pode ser vigiada, onde metáforas são escudos e jardins são códigos, o impossível torna-se uma forma de dizer a verdade. O jardim que reúne essas cinco mulheres não é cenário, é sintoma. Na tradição persa, o jardim é um microcosmo do paraíso, um espaço de harmonia e equilíbrio. Mas aqui ele é um refúgio irregular, quase clandestino, uma espécie de suspensão do mundo onde as regras externas cedem. Ali, cada mulher encontra uma forma de existir sem se recolher à expectativa social, como se o jardim oferecesse uma espécie de intervalo, uma pausa onde a vida finalmente respira. E talvez seja justamente aí que o Irã contemporâneo mais se reconheça: em seus intervalos, nas brechas que se criam entre o permitido e o proibido, nos momentos em que a vida insiste apesar das vigilâncias. A literatura contemporânea iraniana acaba por carregar essas fricções entre censura e invenção, entre uma tradição milenar de poesia e a urgência moderna de dizer o indizível. Há algo de subterrâneo em sua pulsação: como se cada autora e cada autor cavasse túneis linguisticamente engenhosos para escapar das paredes erguidas pelo Estado, pela moralidade pública ou pelo medo. Após a Revolução de 1979, o campo literário se fragmentou, muitos escritores deixaram o país, formando uma diáspora criativa que escreve em exílio, enquanto outros permaneceram e aprenderam a falar pelas frestas, com metáforas que funcionam como códigos secretos. Autoras como Shahrnush Parsipur, Fariba Vafi e Moniru Ravanipur abrem espaço para as subjetividades femininas e contestam, com delicadeza ou com fúria, o destino que lhes foi imposto. Já escritores como Mahmoud Dowlatabadi e Shahriar Mandanipour usam a ficção como espelho rachado de um país que tenta se reconhecer sem se ferir demais. A literatura iraniana atual, viva apesar de todas as mordaças, é essa constelação tensa, luminosa, contraditória, uma prova de que, mesmo quando tudo parece estreito, a narrativa encontra sempre um caminho para respirar. A literatura iraniana contemporânea, moldada por séculos de poesia e por décadas de vigilância estatal, aprendeu a falar pelas bordas. Metáforas como escudo, silêncios como estratégia, pequenos desvios como forma de resistência. Em Mulheres sem homens, Parsipur parece deliberadamente optar por uma escrita mais seca, quase abrupta, como se recusasse a estética tradicional em favor de uma contundência imediata. Essa escolha coloca o romance numa posição interessante: ele dialoga com a tradição, mas a contraria; usa o fantástico, mas não o adorna; busca a metáfora, mas a entrega de maneira direta, quase despojada. E talvez seja justamente esse atrito entre tradição literária e ruptura estética que prepara o terreno para a pergunta que o livro termina deixando no ar. Quando uma sociedade estreita a realidade até ela quase parar de respirar, a imaginação vira uma forma de sobrevivência. Porque a linguagem de Parsipur, ao se recusar a seduzir, parece insistir em outra coisa: em mostrar que nem mesmo a ficção consegue escapar completamente das fissuras de seu próprio país. Sua secura, seus simbolismos abruptos, suas metáforas quase rasgadas funcionam como matéria viva das contradições que atravessam o Irã e suas mulheres. Ao final, Mulheres sem homens nos devolve não uma resposta, mas uma pergunta profunda: como viver num país que, ao mesmo tempo, alimenta e asfixia? Como existir sendo mulher num território onde o corpo é permanentemente disciplinado e a voz, frequentemente, suspensa? Parsipur não responde: ela encena, ela amplia, ela metaforiza. E é justamente esse movimento que torna o livro poderoso: compreender o Irã não pelo discurso oficial, mas por essas vidas que escapam, que renascem, que se reinventam, que implodem. Women Without a Man de Shahrnush Parsipur; tradução do persa para o inglês de Faridoun Farrokb. New York: The Feminist Press, 2011. 114p. Leitura de Dezembro 2025.

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