O livro 7 Tortas de Saudade foi vencedor do Prêmio de Literatura UNIFOR 2015 - Crônicas. Em um tom bem humorado e poético, o cotidiano é colhido em forma de ingredientes que compõem 7 tortas - 7 blocos de crônicas que vão de uma hilária briga de trânsito à solene narrativa da gênese de um bar ou à mais linda história de amor flagrada em um hospital. Outros ingredientes como improviso, amores desengonçados, espanto e, claro, saudade compõem um interessante caleidoscópio da própria vida. Ainda, parte de uma nova geração de cronistas mulheres, a maneira fluida de escrever da autora, sua sensibilidade e singularidade fazem lembrar conhecidos nomes da literatura brasileira. Para o poeta Batista de Lima, suas crônicas fazem "lembrar alguns momentos epifânicos de Clarice Lispector ao extrair luzes de momentos inusitados da existência humana".
7 Tortas de Saudade -
Fernanda Carvalho
Saboreie cada fatia de página...
7 tortas, cozinhadas nas linhas que compõem cada crônica com a tradição da família de boas cozinheiras. Seja de comida, seja de palavras... sempre alimento para a alma. Não posso dizer que devorei as 7 tortas de saudade, talvez, o mais adequado, seja dizer que eu as saboreei. E, em se tratando das crônicas que compõem cada uma das tortas, acho que degustar pedaço a pedaço, linha a linha, recheio à massa, foi a melhor escolha. Cada fatia traz um sabor distinto, um que deixa gosto de quero mais e, ao mesmo tempo, pede pausa, respiro. Do tipo para se apreciar o sorriso que surge no rosto, o aperto que traz ao peito ou a lembrança da chuva de ontem até o amor cúmplice que se vê no casal de anos que ainda sai a rua de mãos dadas, como se fossem recém enamorados. Coloca-se a primeira torta sobre o tampo da mesa temos como ingredientes reminiscências, um casarão, um camaleão, os versos de Deus, o choro e a gênese de um bar. No preparo: as coisas mais fantásticas e silenciosas do mundo; as garotas mudas como as pedras sussurrantes do velho casarão; a incerteza da necessidade de fazer sala para um camaleão; o afago da certeza que a alma não se prende ao corpo; o choro que reverbera pelos ouvidos que estão no cerne de cada um; o estranho e talvez sensato fato de que, onde aparece uma cabeça branca, tendem a surgir outras mais. Serve-se então a segunda torta, o gosto da primeira ainda com resquícios na boca, e a sensação de que a receita foi tão bem executada, que podem vir mais como estas. Temos como ingredientes alguns virtuosos; luta; o abraço do futuro; o mais belo pôr-do-sol; o rapaz do quiosque e algumas pedras. Podem parecer itens atípicos para uma receita boa, do tipo que dá água na boca, mas, novamente, a surpresa... No preparo, colocou-se um dedo especial e voilà, a mágica se fez: teremos os trabalhos desaparecidos do mundo; uma batalha irrefreável contra seu pior inimigo; palavras que dizem não saber descrever, mas colorem o céu na mente de quem lê; a sinceridade explícita de quem tenta contornar os vícios da dor que silenciamos por nos ser habitual; e as tais pedras, que insistem em brotar no caminho de qualquer um. Talvez possa pensar que o apetite já estaria satisfeito a essa altura, mas as duas primeiras tortas tiveram o efeito que algumas dão à maçã, eterno fruto proibido: o de abrir o apetite. Na terceira, os ingredientes vem em forma de um telégrafo falante; da estranha experiência; de um homem do correio; do furto, da hora de partir e do anavantur, este último descoberto ser como ingrediente culinário secreto, senão, secretíssimo! Misturados, no preparo, o cheiro exala a distância das línguas dos homens; o desconforto noturno que só nossas verdades conseguem trazer; os medos que só o homem do correio sabe mostrar; a vontade intrínseca de ser uma cheiradora de flores; a hora que relógio algum marca, mas que é tão certa que todo mundo há de alcançar. Sem contar, é claro, que chegamos em alguns anarriês e anavanturs para saber se o dia de hoje, por acaso, não se repetiu ao de ontem. Chegamos a quarta, já de olho nos ingredientes para imaginar o que se fez de tudo isso. Temos doce inexistência; sem flores; Alice; acaso; o jantar e enviados de Deus. Na hora de servir o que foi preparado com esmero, sentimos as camadas do recheio: a versão da realidade que temos, entre todas as outra possíveis; o enterro daquilo que nos é mais caro; a sensatez insensata do amor pueril; os casos do próprio acaso e seus descendentes; um desejo de ir partir em festa, em harmonia; e a clara compreensão de que, para um fiscal da lei de Murphy, existe um enviado de Deus. É tudo de salivar, só de relembrar. Quando chegamos à quinta torta, vemos que foi preparada com a displicência; a avareza; um pequeno ato de resistência; alguns gatos; algo bom; e durante a acupuntura. Não vou negar, dizendo assim, pode parecer estranho, equivocado. Mas daí a primeira mordida temos a melhor leitura que se pode fazer: a das pessoas que passam por nós; e seguimos descobrindo os detalhes que confundem até o reflexo do espelho; colocamos um bebedouro para atrair beija-flor; admiramos a forma de amar dos gatos; sentimos a certeza da incerteza do que está por vir e, no fim, passamos pela acupuntura, para trazer e levar, seja lá o que for. De ingredientes, a seleção só melhora na sexta torta: tem um curandeiro; as considerações sobre o amor na contemporaneidade; uns tais ímpares-tortos; o sempre jacarandá; o mausoléu feio e Nova York. Quando se vê o preparo refletido no sabor, daí só quer saber dos vidrinhos cheirosos que o curandeiro há de dar; da previsível imprevisibilidade do amor à inconsistência dos amores dos ímpares-tortos; a infinitude que cabe em um jacarandá; a receita do remédio para todos os males da vida; e a cobertura vem com o remédio para fazer a cidade que nunca dorme, enfim, recuperar as forças e dar um breve cochilo. Vale saber que agora a torta, a sétima, a última, tem sabor de sobremesa. Você anseia por ela, quer sentir o doce, o cheiro delicioso do que, talvez, tenha pensando durante todo o ritual alimentício. Mas, também, se assemelha a um fim de domingo, que parece fim de folga e toma um tom levemente saudosista, porque quer experimentar cada pedaço, até a última migalha, mas não quer que acabe. A sétima torta vem com uma pergunta; com desgosto; com borboletas; com um canadense; com a mais linda história de amor e fecha com ferocidade. E vai revelando os aromas e gostos como quem desencadeia um papo sobre o que você quer ser quando crescer; mas não pára por aí, o desgosto dos sem empregos das milhares de vagas se faz presente; as borboletas que fazem do meu jardim minh'alma borboleteiam; o flerte do canadense sem passado traz sorriso; mas o que mais encanta é a doçura da história de amor que não se tornaria um best-seller; e fecha com o olhar furioso da fera enjaulada, do lado de fora de dentro da sua casa. Degustamos, saboreamos, e sentimos que a receita saiu no ponto exato, que quebra a quarta parede, que dialoga com quem lê muito além das frases que lhe são dirigidas diretamente. Talvez as que estão escritas sobre reflexão e sussurro dos pensamentos chegam a conversar ainda mais. Ao, menos, comigo, conectaram, e o sabor é do tipo que vai ficar registrado na memória. O tipo que entrou pro roll de melhores leituras do ano.
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