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    A fila -

    Basma Abdel Aziz

    Rocco
    2018
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-10: 8532531105
    Português Brasileiro
    3.8
    23 avaliações
    Leram27Lendo0Querem44Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos0Desejados44Avaliaram23

    Numa nação do Oriente Médio, após a fracassada revolução lembrada como Primeira Tempestade, um novo poder se impôs: o Portão. Qualquer atividade que fuja minimamente à rotina diária deve ser submetida à sua aprovação. Há quem defenda que o Portão tem proporcionado uma bem-vinda estabilidade ao país; outros, no entanto, o condenam como injusto e tirano. Foi esse último grupo que saiu às ruas para mais um levante malsucedido – os Eventos Execráveis. Durante a manifestação, sem saber bem como ou por quem, Yehya foi baleado na região pélvica. Agora, para poder realizar a cirurgia de retirada do projétil, ele precisa ir até o Portão – e entrar na fila. A fila é a aclamada distopia política da egípcia Basma Abdel Aziz. Vencedor do PEN Faulkner Award, o romance faz uso da sátira e do surrealismo para abordar questões urgentes e familiares. A autora conta que concebeu a obra enquanto caminhava pelo centro do Cairo e se deparou com uma fila interminável em frente a um prédio do governo cujas portas estavam fechadas. Horas depois, voltou a passar por lá e percebeu que todos se mantinham exatamente no mesmo lugar – e as portas permaneciam fechadas. Da mesma forma, em frente ao Portão, a fila não se move ou se dissipa ao longo de horas, dias, semanas, meses. Ela avança por quilômetros e quilômetros, debaixo de sol e chuva. Cada vez mais pessoas, com seus próprios dilemas e motivações, se juntam nessa espera interminável – enquanto uma misteriosa empresa de telecomunicações começa a distribuir celulares gratuitamente e todos os veículos de mídia são sumariamente substituídos por um único jornal chamado A Verdade. O estado de saúde de Yehya vai ficando cada vez mais frágil, ainda que, aos olhos do Portão, seu problema inexista: como oficialmente nenhum tiro foi disparado durante os Eventos Execráveis, é impossível que haja uma bala em sua virilha. “A ficção me deu um espaço muito amplo para dizer o que eu sempre quis sobre as autoridades totalitárias”, afirmou recentemente a autora, que é ativista dos direitos humanos e, com formação em medicina psiquiátrica, trabalha como voluntária dando assistência a vítimas de tortura. Em A fila, as referências à Primavera Árabe e a acontecimentos recentes no Egito são recorrentes, mas a comicidade absurda e sombria do autoritarismo e da burocracia representados pelo Portão ganha, página a página, tons universais – o que torna a alegoria de Aziz mais pertinente ao “mundo ocidental” do que muitos gostariam de admitir e faz com que a obra se aproxime de clássicos como 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e O processo, de Franz Kafka. “Um retrato impressionante de uma autoridade que reivindica todo o poder, renuncia toda a responsabilidade e força seu povo a repetir inverdades e abraçar sua própria opressão.” – The Nation

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    Davenir Viganon picture
    Davenir Viganon10/08/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O absurdo normalizado, como viraria a realidade do Brasil

    "A Fila" foi escrito em 2013 e lançado no Brasil apenas em 2018, pela ativista egípcia Basma Abdel Aziz. É uma distopia embalada pelo desgosto com a primavera árabe escrita antes da ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito dando ao livro, inclusive um aspecto premonitório senão uma excelente leitura política do país. A história acompanha um país árabe não especificado onde o regime totalitário ascende após uma revolução fracassada. O novo governo centraliza até as menores decisões obrigando a população a recorrer ao portão do Edifício Norte, passando a ser conhecido apenas como O Portão. Os personagens principais estão aguardando na fila, com os motivos mais diversos, muitas vezes banais outros com problemas urgentes. O mais próximo de um protagonista é Yehya Saeed, que busca uma requisição para fazer a remoção cirúrgica de uma bala, desde que foi alvejado durante uma tentativa de tomar o Portão, nos chamados "Eventos Execráveis", contudo o governo nega a existência de tiroteios, logo a bala alojada no corpo e Yehya é negada. Enquanto isso o médico Tarek, que atendeu Yehya lida com o medo de ser apanhado fazendo algo proibido e o desejo de curar Yehya. Acompanhamos outros personagens, como Amani, a namorada de Yehya; Um Mabrouk que explicita a situação das mulheres no Egito, ops digo... nesse país árabe sem nome; um jornalista que organiza alguma resistência e o primo de um dos soldados do Portão que morreu durante os Eventos Execráveis. O grande mérito de A Fila é como a autor desenha na vida cotidiana dos personagens a influência de um governo totalitário, muito menos pela repressão física e uma presença ameaçadora onipresente, como o clássico 1984 de Goerge Orwell, mas muito mais pelo abandono das necessidades dos seus cidadãos. Isso aproxima A Fila d'O Processo de Franz Kafa pelo absurdo da situação. A obra foi lançada apenas em 2018 no Brasil e infelizmente passou desapercebida. O absurdo do governo do Portão e o drama de Yehya servem de prenúncio macabro do drama de milhares de brasileiros mortos pelo COVID-19, que assim como Yehya, foram pegos por eventos fora do seu controle e são abandonados pelo negacionismo do governo que deveria assisti-los. O Portão brasileiro, consegue ser mais absurdo que o Portão imaginado por Bazma e apesar de todos as negações, segue inabalado no seu absurdo.

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