Pensamentos uniformes, comportamentos programados, regimes de exceção, controle social, experiências genéticas e a luta por uma sobrevivência cada vez mais em risco pelo desrespeito à natureza estão em O ano do dilúvio, romance pós-apocalíptico da canadense Margaret Atwood. Se todos os elementos de uma distopia estão encadeados na surpreendente trama criada pela celebrada autora de O conto da aia, o futuro em que a história se situa não parece tão distante da atualidade. O ano do dilúvio é o segundo de uma trilogia que começa com Oryx e Crake e se encerra com MaddAddão, e retorna às livrarias com novo projeto gráfico de capa. O livro se inicia no Ano 25, o Ano do Dilúvio Seco, termo com que os personagens se referem à epidemia que matou muitas pessoas. Não há descrição sobre o tipo de doença, sabe-se apenas que um de seus sintomas é a tosse. Os sobreviventes estão divididos entre os que preferem o mundo de prazeres artificiais, no qual os shopping centers e os spas voltados para a estética são reverenciados como templos, e os que buscam um retorno à vida naturalista. Concorrendo na conquista desses sobreviventes, estão a seita ecológico-religiosa dos Jardineiros e corporações como a CorpseCorps, que detém o conhecimento científico e tecnológico e se esforça para manter o controle de toda a sociedade. Dois personagens, Toby e Ren, dão pistas do desastre: um mundo dividido entre os ricos moradores dos condomínios artificiais que trabalham com biogenética; miseráveis e imigrantes, que vivem nas ruas da Plebelândia; e ecofanáticos, que lutam contra experiências genéticas e o consumismo desenfreado. A degradação, o temor e o instinto de sobrevivência caminham juntos no cenário de desesperança traçado por Margaret Atwood em O ano do dilúvio. Nesta trama perturbadora, sombria e extremamente atual que reflete sobre a ilimitada capacidade humana para dizimar sua própria espécie, há espaço, porém, para valores como a lealdade, o afeto e a amizade.
O ano do dilúvio #2 -
Margaret Atwood
Toby & Ren & Amanda & Pilar
Há certos livros que exigem de mim um outro tipo de olhar, um tipo de entrega diferente da que eu dedico normalmente às minhas leituras. Esse tipo de obra exige que eu me empenhe para me acostumar até mesmo com sua estrutura narrativa diferenciada e, principalmente, exige de mim um certo grau de sensibilidade. Assim foi a minha leitura de "O Ano do Dilúvio", escrito por Margaret Atwood, autora do consagrado "O Conto da Aia". Lançado em 2009, "O Ano do Dilúvio" é o segundo livro da trilogia "MaddAddam", mas, diferentemente do que se poderia esperar, não é uma continuação direta de Oryx e Crake. Ele funciona mais como um olhar diferente para a história do Dilúvio Seco, visto de um outro ângulo. O que, à primeira vista, pode ser uma quebra negativa de expectativa, uma vez que não há uma continuidade direta de eventos, acaba se revelando uma jogada bem inteligente de Atwood. No primeiro livro, temos como personagens principais Jimmy/Homem das Neves e Glenn/Crake, enquanto Oryx é relegada a um papel misterioso, místico até, devido às histórias contadas aos Crakers. Já nesta segunda parte da trilogia, temos duas personagens fantásticas e trabalhadas de maneira profunda: Temos Toby, guerreira, com uma armadura psicológica forjada por uma vida de infortúnios causados por uma sociedade quebrada já muito tempo antes da catástrofe; a segunda protagonista é Ren, mais sensível, quase infantil, mesmo depois de adulta, que ainda guarda dentro de si um amor da adolescência, ao mesmo tempo em que fala da realidade terrível de seu trabalho atual de forma até banalizada. As duas personagens possuem personalidades bem diferentes, mas têm muitas coisas em comum: perdas terríveis ligadas à família, a necessidade de sobrevivência frente ao abandono e, principalmente, a permanência no grupo religioso/ecológico conhecido como Jardineiros de Deus. O livro também é sobre este grupo. Liderados por Adão Um, trata-se de um grupo religioso que mistura cristianismo, ecologia e pitadas científicas — Adão Um era um cientista “comedor de carne”. O grupo é vegetariano e prega o respeito a todas as formas de vida. O interessante é que a religião acaba funcionando como uma tática de sobrevivência no mundo caótico da Plebelândia, que corresponde aos arredores dos grandes complexos onde vive a elite daquele mundo, formada pelas pessoas ligadas às megacorporações. Está aí, inclusive, mais um aspecto notável da estrutura narrativa de Atwood: o primeiro livro tinha uma visão de dentro dos complexos e masculina em sua maior parte, enquanto este segundo tem uma visão de fora e, em grande parte, feminina. Neste livro, além de Ren, temos personagens como Amanda e Bernice, que apareceram apenas como notas de rodapé da vida de Jimmy. Mas, em "O Ano do Dilúvio", elas ganham um rosto e uma história, sendo que Amanda é uma grande personagem, cheia de nuances: foi criada nas ruas, vê sexo como moeda de troca e é selvagem e letal quando precisa se defender. Mas, ao mesmo tempo, é extremamente leal à sua amiga Ren e aos Jardineiros, grupo do qual também faz parte. Ah, estes personagens! Este livro está cheio de bons personagens secundários. Além dos já citados Adão Um e Amanda, quero também citar Pilar, a grande amiga e inspiração de Toby, e Zeb, um membro dos Jardineiros muito próximo de Adão Um, mas que é mais subterrâneo. Ele me causou alguma apreensão porque mais parecia uma bomba-relógio: apesar de ser sempre bem-humorado e viver cantando, nós, leitores, sabemos do que ele é capaz. Inclusive, a escritora, de maneira muito elegante, descreve um tipo de cisão ideológica entre ele e Adão Um, que remete a Martin Luther King e Malcolm X. Eu poderia falar por horas sobre os personagens, mas me basta apenas acrescentar que "O Ano do Dilúvio" é uma história character-driven, ou seja, seu motor narrativo se dá em função dos personagens, e não da trama em si. A ideia é trabalhar histórias pessoais. E esse foi um dos motivos pelos quais este livro me causou um estranhamento inicial, uma vez que estou acostumado com livros story-driven, mais interessados em panoramas globais, como praticamente todos os livros de sci-fi que leio. Por isso, no início desta resenha, eu disse que o livro exigiu de mim uma atenção diferente. Atwood já contou, no livro anterior, sobre a grande catástrofe do Dilúvio Seco. Agora, ela se preocupou em dar voz para quem não tinha voz no primeiro livro. Estava interessada em contar como duas mulheres sobrevivem à selvageria de um mundo caótico, que está sempre pronto para machucá-las. Margaret está interessada em nos mostrar como cada uma das personagens, principais e secundárias, sobrevive e tenta preservar sua humanidade apesar de tudo. Umas ainda se apaixonam, outras fazem arte da miséria, e outras se empenham em se manter lúcidas e... simplesmente viver. Outro fator que dificultou um pouco a fluência do texto para mim foi a estrutura fragmentada da história: temos as linhas narrativas de Toby e Ren se alternando, e essas linhas ainda se subdividem em passado e presente. Isso dificultou o meu envolvimento com elas, fazendo com que eu demorasse cerca de 250 páginas até finalmente me acostumar com esse ritmo quebrado. Cada capítulo se abrir com um sermão de Adão Um e um hino dos Jardineiros de Deus também não ajudou, embora esses elementos tenham um grande papel na estrutura da história, uma vez que desde Oryx e Crake vemos alusões à Bíblia em diversos momentos. Mas, acreditem: o saldo foi positivo! O Ano do Dilúvio é um livro profundo, que consegue ser uma distopia muito mais assustadora que 1984, por exemplo, mas que, ao mesmo tempo, consegue nos mostrar momentos de singela beleza, como a relação entre Toby, Pilar e as abelhas. TS: Fleetwood Mac: - Rumours (1977, versão deluxe); - Fleetwood Mac (1975); - Tusk (1979); Buckingham Nicks: - Buckingham Nicks (1973)
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