Os textos aqui publicados são uma síntese clara e profunda do projecto hermenêutico de P. Ricoeur e das suas categorias centrais: discurso como evento, noção de texto, mundo da obra, distanciação e apropriação.
Teoria da Interpretação -
Paul Ricoeur
Interpretando a Teoria da Interpretação
Diz-se que a hermenêutica é a arte de compreender um autor melhor que ele mesmo, se isso é verdade eu não sei, mas de forma alguma ocorre compreender um autor como ele mesmo se compreendeu, ou até mesmo duas pessoas compreenderem um texto da mesma forma, porém também não ocorre de se compreender um texto de maneira totalmente diferente um do outro, há sempre pontos de contato por mais oposta que uma interpretação seja da outra. Para a compreensão de um texto é que serve a hermenêutica, e esta obra do Ricoeur é um excelente início de estudos. Ricoeur começa partindo do início: linguística e semiótica, lá pelo “tio” Saussure, diferenciando langue (a parte material do discurso, como fonemas, alfabeto, códigos e estruturas) de parole (a parte simbólica do discurso, a mensagem individual e nuances metafóricas). Os códigos da langue podem ser estudados através das ciências duras, linguistas e até por lógicas mais matemáticas e não é à toa que é hoje base de código de programação. Parole também pode ser estudado, mas tem muito mais a ver com as ciências do espírito, como a sociologia, filosofia e história, além de poder ser visto sob ponto de vista poético. Entretanto para entender uma linguagem não se começa por um processo histórico ou pela sua evolução temporal (diacronia) e sim por aquilo que está dado em determinado momento através de sua estrutura (sincronia), pois sempre ouvimos um discurso no presente onde nós estamos, depois começamos a observar seus antecedentes. Até aqui vemos que há dualidades, dicotomias, dialéticas. Ricoeur trabalha através de uma dialética especial, não aquela dicotomia dura dos maniqueístas, nem a dialética do absoluto de Hegel, apesar de que estes também podem surgir. A “dialética ricoeuriana” traz consigo não só as categorias de contradição, mas também de complemento, de igualdade, de diferenciação, de concordância. Uma relação dialética é entre signo e frase, sendo uma palavra um signo, esta constrói frases. Uma frase não é um signo, mas precisa dos signos para ser formada, há uma relação necessária. Parece que o signo não precisa da frase, mas somente uma frase e o discurso podem explicar o signo. Mas indo agora além de todo esse estruturalismo da linguagem, há também a fenomenologia da comunicação, pois mesmo que seja impossível passar para o outro o mundo de vida próprio, ainda assim é possível sair da solidão existencial e transmitir algo da experiência pessoal. O “eu” não pode chegar ao outro, mas algo do “mim” é transferido no diálogo. O mundo de vida é intransferível, mas o seu significado, sua semântica, pode ser passado para o outro. O que vivemos no mundo de vida é um evento que é dado uma significação, aqui temos outra dialética: evento e significação. Lembrando que significado e significante são diferentes, apesar de muito iguais, pois há relação. Significado tem a ver com langue, enquanto significação é de parole. O significado de morte é a cessação da vida, e é significativo que a morte assombra o homem, o faz refletir sobre a existência e tentar compreender se há um algo após etc. É possível perceber que começa a forma uma estrutura básica. Para haver algo para interpretar é preciso de: -Aquele que gera o que será interpretado, ou seja, um locutor; -Aquele que recebe o texto, o ouvinte; -O texto, que nem sempre é um texto, precisa de um campo para se materializar, ou seja, um meio ou canal, que pode ser a escrita, o som, o toque, a existência etc.; -Esse meio precisa ter um uma forma que são os códigos, como o idioma, a fonética, as regras de comunicação etc.; -O que é suscetível à interpretação, que é qualquer situação, seja concreta ou abstrata; -Por fim, só algo que se tenta passar é que pode ser interpretado, precisa ser manifestado como mensagem. Tudo pode ser interpretado, não apenas textos e discursos, mas uma sala com seus itens onde a primeira impressão já vem carregada de muitos significados. Há múltiplas leituras de qualquer coisa, e o leitor se torna agente importante nesse momento, pois ele que dá os significados. O leitor não conversa com o texto, pois não existe diálogo onde só um dá as respostas às nossas perguntas. Ricoeur diz que “a hermenêutica começa onde o diálogo acaba.” O texto abre mundos, dá indícios, mas não explica a si mesmo, é o leitor que faz as perguntas e dá/procura as respostas. E o que é o mundo? Ricoeur dá uma linda explicação: “o mundo é o conjunto de referências desvendadas por todo tipo de texto, descritivo ou poético, que li, compreendi e amei.” Toda escrita na verdade é uma reescrita, pois já é interpretação de outra coisa. Toda escrita é uma metamorfose constante de outra escrita. Existir múltiplas interpretações do mesmo texto não é problema, pois “faz parte da significação de um texto estar aberto a um número indefinido de leitores e, por conseguinte, de interpretações. Esta oportunidade de múltiplas leituras é a contrapartida dialética da autonomia semântica do texto.” Essa é outra dialética: distanciamento e apropriação. A apropriação é o processo de transformar algo que não é originalmente nosso em algo que passamos a considerar como próprio, contrastando com a autonomia semântica que mantém uma separação entre o texto e o autor. Envolve integrar o que é incompreendido em nossa própria compreensão. O distanciamento não se limita a aspectos espaciais e temporais, mas é uma interação entre a alteridade (o estranhamento) e a ipseidade (a autocompreensão), permitindo que o outro se aproxime do leitor sem, no entanto, ser o outro, o que seria impossível. E não se pode falar em Ricoeur sem falar em metáfora. Existem mais ideias do que palavras que expressam essas ideias, dai surgem palavras, frases e expressões que parecem dizer uma coisa, mas dizendo outras, isso é metáfora, o que enriquece o texto. Mas a metáfora só existe dentro de uma interpretação, se não fosse assim seria literal, o que não teria sentido nenhum. Mas a metáfora não é um símbolo, pois este é mais direto, tem raízes profundas, muitas vezes suas origens somem. A metáfora diz mais, tem muitos significados, enquanto o símbolo é mais direto. A metáfora está no campo da razão, da linguagem e logos, já o símbolo está entre essa razão linguísticas, mas também na visa, nos elementos da existência. Apesar da metáfora ter muitos sentidos e o símbolo ser mais direto, este é mais direcionado dentro de um campo, como na Psicanálise: Conflitos psíquicos profundos se manifestam através de sonhos, sintomas e objetos culturais, que são interpretados como símbolos desses conflitos. Poética: Imagens em poemas, figuras constantes na obra de um autor, imagens culturais específicas, arquetípicas, são vistas como símbolos que representam significados mais profundos. História das Religiões: Entidades concretas como árvores, labirintos, escadas e montanhas são símbolos que representam conceitos transcendentes relacionados ao espaço e ao tempo, indicando significados além de sua aparência. O simbolismo do sagrado, estudado por Mircea Eliade, auxilia muito para entender a base do discurso em uma ordem não semântica. Rudolf Otto, em "A Ideia do Sagrado", destacou a manifestação do sagrado, o numinoso, como poder e eficácia, advertindo contra a redução linguística da mitologia. O sagrado não se limita à linguagem, e seu poder não se traduz completamente em discurso. Embora Eliade tenha substituído o conceito de numinoso por hierofania, reconhecendo a forma das manifestações do sagrado, o discurso não é o único meio pelo qual o sagrado se manifesta, podendo também ocorrer em elementos naturais como pedras ou árvores, ou seja, em símbolos. Assim surgem os mitos que para Aristóteles, mythos é qualquer enredo, real ou fictício, uma imitação ou mimese, que inclui a perspectiva do narrador. A poesia, então, é uma mimese que reinterpreta fatos reais e gera metáforas. A metáfora explica algo por meio do que não é, criando uma tensão entre o literal e o figurado. Por exemplo, na frase “a natureza é um templo onde pilares vivos...”, o “é” sugere uma equivalência simbólica, não literal. A linguagem poética, assim, não descreve a realidade de forma direta, mas mostra como as coisas se assemelham a outras. Mas em última instância quem orquestra toda e leitura é o leitor, que é como o maestro que interpreta a partitura musical. É tarefa do leitor “adivinhar o texto”. Quem interpreta vê um lado do texto, um ponto de vista, e pode ver por outros pontos de vista também, mas não de todos. São diferentes níveis de realidade, e toda percepção e interpretação tem seus limites, assim nenhuma leitura é absoluta, da mesma forma não haveria uma interpretação absoluta das Escrituras, assim como não é possível entender uma verdade absoluta, mesmo que talvez exista. Entre as diversas interpretações certamente surgem contradições. Aqui retornamos ao mito, que tem sua própria estrutura lógica que pode aproximar contradições (o mesmo fruto que traz o conhecimento a Adão e Eva é o mesmo que os causa desgraça; Shiva bebe um mar de veneno e não lhe faz mal; os deuses gregos estão num nível além do humano, mas têm atitudes humanas etc.), então o mito supera as contradições. Interpretando as narrativas nós mostramos algo, que não é o mesmo de antes, mas outro modo de ser. No fim das contas a leitura de um texto, de uma narrativa, de um mito, de uma obra de arte, de ações humanas, de uma paisagem e do mundo de vida é um conhecer-se.
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