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    O amor em Roma -

    Pierre Grimal

    Edições 70
    2005
    283 páginas
    9h 26m
    ISBN-10: 9724412415
    Português Brasileiro
    4.5
    6 avaliações
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    Desde os primórdios da fundação da Cidade Eterna que o amor tem um lugar privilegiado entre os Romanos, que lhe conferiram um lugar central no edifício dos seus costumes e vida social. Inicialmente associado ao sagrado, com o tempo ir-se-á dissociando deste, diversificando-se nas suas práticas, até se tornar livre e cantado por vates e poetas.

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    Tatiane Gros04/01/2012Resenhou um livro
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    Resenha: O Amor em Roma

    Através do resumo feito do livro O amor em Roma do autor P. Grimal foi analisado os aspectos relacionados aos diferentes tipos de amor e acontecimento relacionados à guerra de Tróia. O livro inicia-se com a classificação das diferentes Afrodites que evidenciam na beleza e através dela o mistério da fecundação relacionando-os com os diferentes tipos de amor. Muito cedo, Vênus recebeu os traços de Afrodite grega, mas tudo indica que a Vênus mais antiga era muito diferente da “filha das ondas e do céu”, que no mundo helênico resultara de uma síntese complexa na qual predominam elementos asiáticos. Na verdade os historiadores modernos da religião romana não estão de acordo quanto à sua natureza e à sua função primitiva. Durante muito tempo se admiram que Vênus tenha começado como camponesa, uma divindade rústica que personificava o “encanto” da primavera. Depois, diziam, os fieis dessa Vênus camponesa teriam chegado a uma concepção mais elevada; teriam visto nela uma das fontes primordiais da natureza, cujo poder os humanos às vezes sentem duramente. Hoje, no entanto, essa teoria é condenada pelo consenso geral. Assim, recentemente se propôs outra explicação da Vênus humana. A deusa teria sido a principio não um gênio da fecundidade, mas a personificação de uma realidade espiritual infinitamente mais sutil: a força mágica que constitui a eficácia da oração e é a única capaz de atrair para os homens a benção e a graça dos deuses. Originalmente Vênus teria sido a mediadora universal, situada a meio caminho entre o humano e o divino, aquela que volta para o beneficio de seus fieis as forças vivificantes do sobrenatural. Já no século VII a. C., Vênus tinha em Lavínio um santuário cujo fundador, dizia-se que era Enéias. Em Lavínio, a Vênus latina, fosse qual fosse sua verdadeira natureza, sofreu a influência da Afrodite grega. Com efeito, para os romanos Vênus personifica a sedução feminina, simboliza a força misteriosa, religiosa e mágica que a pessoa e o corpo da mulher encerram. No começo do século I a. C. Vênus tinha numerosos fiéis, que lhe pediam sucesso em todas suas ações, não só no amor, como também no exercito, no jogo e nos negócios. O poder de Vênus sobre as almas nessa Roma ampliada as dimensões do mundo torna-se cada vez maior: o amor não é apenas uma lei da vida, mas uma promessa, uma garantia de imortalidade. Duas razões podem justificar a ignorância da força do amor: a inexperiência, que é uma desculpa e a ausência de sentimentos humanos, uma espécie de selvageria natural que torna o ser incapaz de sentir o que outros homens sentem e que recai sobre ele como uma maldição. Já se considera o amor uma força temível, um flagelo que é melhor manter à distancia. O amor é um deus, o instinto que desperta nos corações é divino; quem recusa esse chamado é culpado, ou no mínimo infeliz. Para Ovídio, e sem dúvida para a maioria de seus contemporâneos, o amor é acima de tudo o desejo. Aliás, Grimal diz que a Arte de amar é a coletânea onde se encontram conselhos mais eficazes para obter favores de uma mulher. E relacionando esse sentimento com Helena e a guerra de Tróia, nota-se que o amor parece delicioso apenas em suas formas exteriores ao casamento: Helena só é bela aos olhos de Páris, para Menelau,ela se torna desejável apenas depois de pertencer a outro; aos olhos dos romanos,os amores, sob todos os aspectos – amor conjugal ou paixões juvenis,tentações de todo tipo, do coração e da carne – não são atinentes a uma única regra moral. O ato de amor em si não poderia ser julgado bom ou mau; seu valor em bem ou mal depende apenas do objeto com o qual se realiza e das conseqüências que acarreta. Em contrapartida, por ter como objetivo a fecundidade humana, a união dos esposos conservava um caráter sagrado; o casamento era um ato solene, especialmente quando realizado entre famílias que assim uniam suas descendências. Pouco importava a felicidade do casal; bastava que conseguisse engendrar uma nova geração, que, por sua vez,perpetuasse a raça. O amor como sentimento não passava de uma superestrutura que os costumes não levavam em conta. E uma das lendas relacionadas ao amor em Roma é a época em que as muralhas de Tróia se decidiu a sorte do mundo futuro, também foi uma história de amor que determinou o desenrolar dos destinos, ao fim da qual começa a sina de Roma. No monte Ida, na Fígia, Anquises pastoreava seus rebanhos. Anquises era sobrinho do rei Laomedonte, que reinava no país troiano. Ora, a deusa Afrodite viu Anquises e tomou-se de amor por ele. Afrodite não resistia uma paixão. Sem perda de tempo, foi encontrar o belo pastor e contou-lhe uma história que foi inventada. Disse-lhe que era filha do rei da Frigia; o deus Hermes a raptara e a levara para a montanha. Ela estava muito triste, pois ninguém vinha socorrê-la! Anquises compadeceu, a conversa tornou-se mais terna. Naquela mesma noite o belo pastor e a deusa, com seu disfarce de mortal, se uniram. Afrodite, satisfeita, revelou sua divindade, anunciou a Anquises que logo lhe daria um filho, porém recomendou-lhe que não contasse a ninguém que a mãe da criança era a deusa do amor; caso contrário, irritado por se descobrirem os segredos dos deuses, Zeus fulminaria o indiscreto com um raio. Anos mais tarde, Anquises se embriagou e no vinho perdeu a discrição. Para se gabar, contou aos companheiros a origem do seu filho, o pequeno Enéias. Indulgente, Zeus limitou-se a tornar Anquises coxo (outros dizem que lhe tirou a visão) e deixou-o viver. Mais tarde, com a tomada de Tróia, Anquises abandonou sua pátria carregado nos ombros do filho e foi como pequeno grupo de troianos exilados até Sicília,onde,segundo dizem, morreu. Os romanos gostavam mais de se declarar descendente de Enéias que de Vênus. Os caprichos da paixão amorosa preocupavam-nos. Preferiam a ternura mais calma simbolizada por Enéias e que eles chamavam de piedade – ao mesmo tempo afeição filial, dedicação levada ao heroísmo com relação aos entes queridos e senso de um dever transcendente, anterior a toda lei humana, expressão da ordem divina – piedade essa que consideravam uma das exigências mais profundas da vida moral. Derrotado em sua pátria, sem morada e sem tesouros, o filho de Afrodite só quis salvar o pai, os deuses do lar e seu filho, o pequeno Ascânio. Quanto à sua esposa, Creusa, fiel a um dever mais poderoso que o amor humano, teve de deixá-la na cidade condenada. Em outra época o decoro exigia que Enéias se preocupasse mais com a esposa, talvez até que preferisse salvá-la a salvar o pai, e os exegetas de Virgílio,que contou a lenda na Eneida, não deixaram de criticar o herói pelo que chamavam de leviandade com relação a Creusa. Entretanto, Virgilio não podia nem queria mudar a lenda. Apenas introduziu nela certas emoções humanas que lhe faltavam – a dor de Enéias, os riscos que ele correu para tentar salvar a infeliz- mas o sentido do relato continua claro: a “piedade” do herói para com Anquises e Ascânio é um dever divino;seu afeto por Creusa não passa de amor humano. Sacrificando Creusa, ele fere apenas seu coração; se a preferisse à sua raça, seria culpado e infringiria a ordem do mundo. Ao longo de sua interminável viagem rumo à Terra Prometida, Enéias deverá sacrificar a ternura de seu coração e sua aventura com a rainha Dido assume o mesmo significado que o abandono - involuntário – de Creusa. Após a tempestade que o arremessou com seus navios na costa africana, Enéias pensou que havia encontrado, por fim, o termo de suas provações. Ali um povo novo construía uma cidade. Uma rainha, vinda de Sidon, laçava as bases de um império. Sabedora da epopéia troiana, ela acolheu os náufragos bondosamente, emocionada com suas desgraças e sensível á sua coragem. Ela mesma não havia sido poupada pelo destino. Vira o próprio irmão assassinar seu esposo, a quem amava mais que a tudo no mundo. Fugira de seu país para escapar a uma morte mais que provável e agora procurava uma nova pátria entre númidas bárbaros. Quantos sentimentos partilhados entre o troiano e a rainha. A mesma saudade do Oriente, de uma civilização que parecia ainda mais preciosa na medida em que a terra africana e o Ocidente mediterrâneo ofereciam por toda parte apenas florestas selvagens, povos nômades, sem cidade e sem leis. O mesmo desejo de criar nesse deserto um oásis humano, uma urbe que tivesse seus deuses, seus templos, suas praças públicas, sua vida coletiva, em que as qualidades e as virtudes humanas pudessem se desenvolver e desabrochar. E depois, Dido, a rainha temenária, estava tão só quanto Enéias na missão que se atribuíra: os dois conduziam um povo – e estavam condenados à pior das solidões. Assim, continua Grimal, que a tentação de unir seus destinos foi irresistível. Quase não houve necessidade da interferência divina. Bastou uma oportunidade, uma caçada, uma tempestade que separasse Enéias e Dido de seu séquito na montanha, o abrigo cúmplice de uma gruta onde os dois se refugiaram, e, como outrora Afrodite e Anquises, ei-los unidos. Nos relâmpagos que a intervalos iluminavam a gruta, Dido chegou a julgar ver a chama das tochas do himeneu. Ela se acalentou na ilusão de que os deuses aprovassem aqueles laços que aceitava com felicidade. Enéias deixou-se amar. Não se envergonhava nem temia os envolvimentos que todo o seu ser aceitava. Com total boa-fé desempenhou seu papel de marido e de rei – até o dia em que os deuses lembraram-lhe que sua missão não era aquela: esperava-o sua “Terra Prometida”. Recusaria a seu filho Ascânio e a raça de ambos a grande fortuna que o destino lhe reservara? E novamente arrasado, mas sem hesitar, o filho de Vênus sacrificou ao dever seu amor humano. Partiu. Ao saber de sua decisão, Dido cobriu-o de reprovação. Estava desesperada com aquela fuga diante de seu amor. Ele o sabia, e, no entanto a deixou. Enfurecida e envergonhada, pois acreditara que Enéias poderia substituir seu marido Siqueu e porque em seu abandono reconheceu-se perjura, resolveu morrer. No alto do palácio acendeu uma fogueira imensa, que seria sua pira funerária, e a chama iluminou o céu, enquanto os navios de Tróia partiam em direção ao norte. É significativo, de fato, verificar que o herói que Roma se orgulha de colocar em sua origem por duas vezes subordinou ao dever os desejos do coração e, antecipando uma frase célebre, preferiu “mudar os próprios desejos a alterar a ordem do mundo”. Conhecia os limites de seu próprio poder, sabia que uma paixão, sobretudo satisfeita, não pode aprisionar a vontade de um homem – ainda mais de um romano. Ria das dores de amor porque também as sentira. Dido, que era mulher e não deusa morrerá por causa disso, talvez (porém mais de raiva e vergonha que de amor). Enéias, que tinha sangue de Vênus, sobreviveria. E o que era a morte de uma mulher diante da fundação de Roma? Toda uma série de dramas se desenrola na cidade e no palácio construído pelos troianos quando se estabeleceram no Lácio. Latino, rei dos aborígines por ocasião da chegada de Enéias, deu a ele a mão de sua filha Lavínia. Tal casamento não passava de uma união política. Como ocorre com tanta freqüência nas lendas referentes à colonização grega, as bodas de uma filha (única) do rei indígena com o chefe dos estrangeiros assinalariam o início de uma era de paz e colaboração entre os dois povos, até então hostis um ao outro. Genro do rei, Enéias naturalmente o sucedeu frente da população resultante dos numerosos casamentos realizados entre troianos e habitantes de Lácio após sua união com Lavínia. Os romanos admitiam, portanto, que uma mulher pudesse dar ao marido uma espécie de direito sobre o reino – ou, de modo mais genérico, a herança de seu pai. E com efeito na época clássica vemos genro e filhos em posição igual no circulo das altas personalidades, crescendo à sombra delas, beneficiando-se de sua influência política. Se é verdade – e teremos, após o casamento a mulher se integre à casa do marido, a história de Enéias e Lavínia não nos deixara esquecer que o jovem esposos também gravitará em torno do sogro; os novos laços desatarão em ampla medida aqueles que até então o uniam a família em que nascera. O casamento de Enéias e Lavínia não foi muito feliz. Segundo uma tradição romanesca, Lavínia tinha ciúme do passado do marido. As notícias correm depressa de uma margem para a outra do Mediterrâneo, e chegou-lhe aos ouvidos a aventura africana de Enéias. Logo ela soube que a rainha Dido fora abandonada e estava morta. Sendo mulher, suspeitou que a ternura e o remorso não tivessem desaparecido do coração do marido; assim, quando uma fugitiva se apresentou, disse que era Ana, irmã da infortunada Dido, e pediu hospitalidade, Lavínia teve terríveis suspeitas. E eis que imediatamente se desenrolou uma tragédia palaciana. Não podendo impedir a conduta compassiva de Enéias com relação a Ana, que precisava fugir de Cartago após uma guerra desastrosa, Lavínia decidiu eliminá-la. Felizmente os deuses estavam atentos. Ana foi avisada em sonho para temer as armadilhas de Lavínia. Fugiu no meio da noite, e de manhã, quando os criados do rei puseram a procurá-la, viram que as pegadas conduziam diretamente ao rio Numício, e ali se detinham. Nesse momento uma forma saiu da água que a jovem havia esposado o deus do rio, tornara-se ninfa e que era preciso render-lhe culto. Os acontecimentos que se seguiram à morte de Enéias – ou melhor à sua transfiguração, pois corriam rumores de que os deuses o levaram para os céus – mostram que a atmosfera continuava pesada na família real. Lavínia suspeitava de Ascânio, filho de Enéias e Creusa. Para acabar com sua surda hostilidade, Ascânio resolveu deixar Lavínia e partir, subindo o Tibre, para fundar a cidade de Alba Longa, que seria o berço de Roma. Assim, os romanos gostavam de situar no palácio e na própria família de seu herói mais longínquo os dramas do ciúme e do amor, do poder dividido, todas as intrigas que podem dividir uma casa em luta consigo mesma por ser resultado de uniões sucessivas. É significativo que esses relatos se tenham formado em torno da pessoa de Lavínia, tão apagada no poema virgiliano. Isso, porém, não quer dizer que também o poeta não tivesse desejado colocar nos inícios da raça uma figura feminina apaixonada. Fundar uma cidade é tarefa de homens, como se a ternura feminina e o amor só pudessem ser um luxo da paz. Assim, Enéias poderia viver amorosamente (e burguesamente) com Dido se não tivesse a responsabilidade por todo um povo e a missão de realizar os desígnios da providencia divina. Essa história soa como uma advertência para os romanos: só os homens sabem ser fiéis à pátria. O coração das mulheres deixa-se seduzir com demasiada facilidade. Certamente a consciência romana não negava o que os modernos chamam o “direito do amor”, mas para eles esse direito não residia no desejo, mas começava com a plenitude de sua realização, pois o desejo é anárquico e destruidor, enquanto o amor “feliz” é fecundo e se integra espontaneamente na ordem do mundo, unicamente pela força de sua felicidade. Não é surpreendente constatar que o amor tinha suas divindades, seus ritos, sua magia. O culto a essa divindades, a observação religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por objetivo, ás vezes, desenvolver ao Maximo, exaltar as forças criadoras do ato do amor, porém ás vezes também controlá-las, disciplinar o que nelas se encontrava de anárquico e fazê-las servir ao bem da urbe. Conclui-se que os romanos tinham uma atitude ambígua com relação ao amor: desconfiavam dele como de uma loucura, de uma perdição passageira, e ao mesmo tempo eram fascinados por seu poder, que os levava a pressentir seu caráter divino. O amor está ligado ao drama e ao mistério da vida em forma íntima demais para que se possa pura e simplesmente negá-lo. Mas também destrói cidade e almas. Nos limites de dois mundos, o passado, que recusava a justificar o amor, e o presente, que tendia a transformá-lo num dos valores essenciais da vida moral, com essas mesmas incertezas Virgílio trai o mal-estar de Roma e expressa a complexidade de um universo que procura seu caminho.

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