Ambulare -

    Marco Aurelio Maximo Prado

    PPGCOM
    2018
    87 páginas
    2h 54m
    ISBN-13: 9788554944094
    Português Brasileiro

    Há 20 anos estudando os temas de gênero e sexualidade, com dedicação especial a travestis e transexuais, o professor Marco Aurélio Prado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lançou na última semana, o livro Ambulare, em que narra sob olhar técnico, mas ao mesmo tempo humano, o trabalho de acolhimento a transexuais no Ambulatório de Transexualidades da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde ficou ficou por três meses, em experiência. Por meio da ficção, o pesquisador assume um personagem no livro: o Ambulare. Ali, narra não só os procedimentos médicos para “despatologizar os gêneros e os corpos”, mas também as histórias e particularidade de cada homem e mulher que vê, na equipe médica, uma equipe de acolhimento e acompanhamento. A ideia de produzir o livro surgiu da necessidade que Prado sentia de ter uma experiência prática no SUS e conhecer a realidade de um hospital que usa de todas as burocracias do atendimento médico e, ao mesmo tempo, tem que acolher diferentes pessoas. Nos três meses no Ambulatório da UFU, o professor recolheu histórias e fez uma espécie de mini-diário desta pesquisa de campo. “Queria pensar a despatologização do gênero, dos corpos e das sexualidades por meio da materialidade da escuta, do olhar e da assistência”, diz o pesquisador. Segundo Prado, com a ficção, houve mais possibilidade dele contar detalhes e mostrar os sentidos que a experiência lhe trouxe. “A ficção ajuda a evidenciar que as palavras e os sentidos podem possuir-se de formas diferentes, alterando nossa consciência e nosso olhar sobre o mundo, e que isso é um ato político”, afirma o professor. Os principais personagens foram criados com base nas experiências que Prado vivenciou, mas algumas contradições foram acrescentadas para mostrar que os processos são maiores do que o senso comum imagina sobre gênero, sexualidade e corpo. “Ambulare recebe pessoas que desejam construir sua autonomia corpórea”, diz. Para o autor, o livro ainda abre espaço para um debate maior a respeito da pessoa trans no Brasil, discussão que ainda é carregada de uma ideia negativa, de doença, que faz com que as pessoas trans não tenham acesso à saúde de qualidade. “Há uma ofensiva reacionária antigênero que tem ocupado as universidades e as casas legislativas e que impede o acesso ao debate sobre gênero nas políticas públicas”. Segundo ele, o respeito à diversidade “é um princípio do SUS que deve valer para todos e todas. Portanto, travestis e transexuais têm o direito ao acesso e à construção do cuidado à saúde com dignidade e qualidade”, finaliza.

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    Matheus Leite Brito26/11/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Interessante relato de um profissional de saúde em contato direto com a população trans e travesti

    "Por exemplo, olhamos para os corpos trans a partir de uma visão patologizadora, buscando neles coerência do sistema sexo-gênero. Os miramos buscando sempre a ideia de que se é mulher esse corpo tem que ser feminino, se é homem tem que ser masculino. Daí quando nos deparamos com um corpo que não corresponde totalmente a ordem classificatória de gênero, exclamamos a “incoerência” mas quando nos deparamos com um corpo trans que corresponde totalmente a ordem binária então exclamamos o “inacreditável”. Ou seja, aos olhos patologizadores os corpos trans estão sempre em terrenos de abjeção seja pela sua suposta coerência absoluta ou incoerência à norma social dos gêneros. Estão, esses corpos estão sempre em dívida com uma suposta verdade do gênero, mesmo que não exista nada verdadeiro e absoluto no que diz respeito às posições de gênero e sexualidades."

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