“Certa vez, houve um garoto com quem fiz amor, um garoto enjaulado que se achava danificado. Certa vez, houve um homem com quem eu fiz amor, e eu deixei meu coração aos pés dele quando fui embora.”
Uma menina muito nova que foi obrigada a crescer, ser responsável por uma casa e pelos outros, enquanto guardou toda a dor que sentia dentro de si para continuar vivendo. Que mesmo sendo uma criança, sabia que o que acontecia na casa de seu amigo não era normal, mas continuava calada por medo. Uma pequena adulta que passou a sufocar qualquer sentimento, vestindo uma máscara para o mundo exterior, e com isso, pouco a pouco quem era de verdade foi se perdendo. Até que aquele menino que era seu amigo se tornou seu mundo, e com ele talvez ela tivesse a chance de voltar a ser normal.
Um menino que enfrentou o descaso, o desprezo e os maus-tratos daquele que deveria acima de tudo protegê-lo: seu pai. Que viveu o horror dentro de casa, e levou no corpo as marcas e traumas de uma infância nada feliz. Mas que mesmo assim, sempre foi doce, educado e amigo. Uma criança, cuja referência de local seguro sempre foi a casa de seus amigos, o único lugar onde ele se sentia protegido e amado. Até que a menina que sempre foi seu tudo se tornou algo mais.
Duas almas quebradas. Um romance adolescente que prometia uma nova chance, um recomeço. Mas diante de um fato inesperado, palavras duras são trocadas, mentiras são ditas e um amor bonito se parte em pedaços. Merit e Ryan se afastam de vez, com ela indo embora da cidade para fazer faculdade e nunca mais retornando, apesar de seu pai e irmão ainda morarem no mesmo local. Até que um telefonema fará Merit retornar a sua cidade natal e enfrentar os demônios que deixou para trás. Dois adultos agora. Ela com trinta e cinco, ele com trinta e quatro. Muitos anos se passaram. Mas a mágoa, a dor e principalmente o amor, ainda estão presentes. Duas pessoas quebradas podem se reencontrar? Ou precisam de alguém “normal” para balancear?
Mesclando presente e passado, Violet Ugly conta a estória de Merit e Ryan, desde a infância até os dias atuais. E que estória eles têm para contar. Os dois sofreram muito desde novos, e lidaram com essa dor cada um de uma forma. Merit partiu meu coração com seus relatos acerca de sua mãe, mas no momento que ela conta o que aconteceu com sua versão de dezoito anos, me debulhei em lágrimas. Consegui imaginar a cena e lágrimas rolaram livremente. A escrita de J. Lynn Bailey foi brilhante. Ryan também tem sua cota de sofrimento, e é incrível de ver como mesmo com tudo o que aconteceu, ele se tornou uma pessoa maravilhosa. Os dois personagens foram bem construídos, bem complexos, reais e humanos. É um livro que poderia muito bem ser a estória de qualquer um de nós. Onde mais que o romance, o principal é como deixar para trás todas as amarras que carregamos, nos livrarmos do peso e seguir em frente. As vezes, sozinho não é possível, precisamos aprender a pedir ajuda.
Foi um livro tocante, triste, que me fez refletir em vários momentos. Já disse em outra resenha que não consegui atingir o nível de perdão dos personagens, e aqui novamente volto a falar. A única parte que tive problemas foi quando Merit aceita muito facilmente o que Ryan fez, pelo motivo de que ele queria que ela tivesse um futuro. Não atingi esse nirvana de perdão em meu coração. Mas assim como os personagens, talvez eu também deva trabalhar nessas amarras.
O amor juntou esses dois. A vida tratou de separar. O Destino interveio e mostrou que um amor tão grande vale a pena de ser reconstruído. E com isso, só resta a Esperança de um novo começo.