Essai de poétique médiévale (Poétique) -

    Paul Zumthor

    Éditions du Seuil
    1972
    520 páginas
    17h 20m
    ISBN-13: 9782020020381

    Parece chegado o momento de tentar uma descrição sistemática da poesia medieval: descrição que permitirá a ela, talvez (é o que deseja o autor), se integrar a uma Poética geral onde ela encontrará seu lugar específico. (...) Uma primeira parte, teórica, se sustenta na adesão às pesquisas históricas e filológicas dos vinte anos anteriores, coloca os problemas específicos da "poeticidade" medieval: transmissão oral, anonimato, "movência" dos textos. O autor aborda, em seguida, de maneira descritiva e analítica os "modelos de escritura", que não são apenas de gêneros no sentido clássico do termo, mas de verdadeiros tipos de discursos, que agiam ao nível da forma métrica, dos sistemas lexicais, das redes de imagens e figuras: o grande canto cortês, as diversas formas intermediárias entre canto e história, os começos do romance épico, "romanesco", satírico, alegórico, os "jogos" que estão na origem de nosso teatro, até o triunfo da fala e a explosão do discurso que encarna e simboliza a obra de François Villon.

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    Bruno Godinho23/01/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um tesouro perdido

    Esse livro de Paul Zumthor mostra toda a potência de um historiador, armado de agudeza conceitual e metodológica, para tratar um tema delicado e complexo como a poesia medieval. Traduzido apenas para o inglês em 1992 (<i>Towards a Medieval Poetics</i>, trad. Philip Bennett) o trabalho e as possibilidades que ele abriu à interpretação da "literatura" medieval (cf. <i>A letra e a voz</i>, do mesmo autor) ficaram restritas aos leitores das línguas francesa e inglesa — e, mesmo assim, aos que tiveram oportunidade de obter exemplares, tendo em vista a escassez dos livros no mercado. Hoje, ao menos é possível encontrar a primeira edição francesa em PDF; já a segunda edição, de 2000, está disponível em edição de bolso e ePub nas Éditions du Seuil, com prefácio de Michel Zink e posfácio inédito de Zumthor. A primeira parte do livro dá ao leitor do texto medieval (seja qual for sua área de especialização acadêmica) as ferramentas para "ler o texto sem anacronismo", intenção fundamental da <i>Poética</i> que o autor busca fundar neste livro. Trata-se de uma forma de compreender os textos de poesia medieval dentro de seus próprios elementos de constituição: sua sintaxe, seu léxico e sua semântica; sua métrica e fonética; sua conexão com o mundo e com a realidade. O autor traça esses parâmetros inspirado, sobretudo, nos principais trabalhos da linguística e da semiótica estruturalistas, em voga ainda nas décadas de 1960 e 1970 (o livro foi escrito entre 1969 e 1971). Figuram em suas referências alguns dos mais brilhantes teóricos de seu tempo, como Louis Hjelmslev, Algirdas Julien Greimas, Umberto Eco, Julia Kristeva, Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Michel Foucault, Hans Robert Jauss. A segunda parte segue uma série de levantamentos, exemplares da <i>Poética</i> proposta, feitos sobre os principais gêneros (se assim se pode chamá-los) de poesia medieval: o grande canto cortês ("le grand chant courtois"), o romance ("le roman"), a novela ("la nouvelle"), a epopeia ("l'épopée"); bem como outros gêneros (não menos importantes): os "fabliaux", os "lai", as "chansons d'étoile". O que se vê são convergências e divergências, situadas em sincronia, num plano de acontecimentos que se contradizem e se complementam. Como diz o autor, trata-se menos de estruturas formadas, mas de um constante processo de estruturação, a partir do qual as diferentes formas de poesia ascendem e declinam. A <i>Poética</i> proposta pelo autor não é apenas método, mas uma postura intelectual. E essa postura engendra, por suas referências, um olhar diferenciado e, à época, renovado da "Idade Média" (como o próprio autor preferia denominar o período, entre aspas). Um período descentrado, contraditório, no qual a homogeneidade cultural é apenas aparente. Efeito de superfície, a cultura do Ocidente medieval comporta, em si, as sobrevivências da cultura latina (romana) e a ascensão da cultura românica, vernácula. O jogo de oposições que ocorre nesta dualidade é o motor da cultura medieval, sobretudo de sua "literatura". Assim, o autor consegue se desvencilhar das falhas do estruturalismo (cf. <i>Falando de Idade Média</i>, do mesmo autor, ed. Perspectiva, p. 75), que privilegiava a estrutura — mera virtualidade, <i>wishful thinking</i>, por assim dizer, do intérprete — em detrimento das engrenagens que fazem esta estrutura funcionar. A estrutura não existe senão como esboço, como modelo de um processo interpretativo que, segundo o autor, "leva assim de um termo <i>realmente</i> fragmentário a um fim <i>virtualmente</i> totalizante" (<i>Falando de Idade Média</i>, ed. Perspectiva, p. 108).

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