Falar da condição do negro no Brasil tornou-se sinônimo de defender uma visão de mundo à esquerda. Será que essa perspectiva está certa? Uma boa forma de encontrar a resposta é considerar a história dos movimentos de combate ao racismo no Brasil.
Fundada na década de 1930, a Frente Negra Brasileira (FNB) é reconhecida como uma das mais importantes organizações em defesa da igualdade racial no Brasil, apesar da vida curta. Décadas desde a abolição tinham se passado, mas as ideias de supremacia racial rondavam o país.
O negro que saiu do cativeiro permaneceu socialmente imóvel, relegado à miséria. As condições eram ruins não só como consequência da escravidão, mas também pela propagação de perspectivas eugenistas que infiltravam o estado brasileiro e influenciavam as políticas públicas. Arlindo da Veiga dos Santos (1902-1978), fundador da FNB, sabia disso.
Veiga dos Santos venceu na vida através da educação. Filho de um cozinheiro que trabalhava em um internato católico, ele teve, apesar da pobreza, acesso à escolas de qualidade que fizeram diferença. Traduziu clássicos da filosofia e chegou a ser professor de nas PUCs de São Paulo e Campinas.
A capacidade intelectual diferenciada de Veiga dos Santos contribuiu para o movimento negro paulista. Através do jornal "A Voz da Raça", seus textos denunciavam os problemas da comunidade negra e defendiam a necessidade de associação. Os apelos resultaram em iniciativas nobres sustentadas pelos próprios negros da ascendente classe média paulistana.
Na sede da FNB funcionava uma escola noturna para alfabetização, eram realizados encontros culturais, discutia-se política em alto nível, promovia-se o financiamento da casa própria e tantas outras outras atividades.
Sobre a política, vem um ponto interessante: Veiga dos Santos era muito simpático ao integralismo, um movimento de extrema-direita. Católico conservador, lamentava a perda de poder da igreja de Roma no Brasil após a Proclamação da República e era um defensor ferrenho do retorno à monarquia.
Veiga dos Santos defendia também a necessidade de organização familiar, ética de trabalho e retidão moral, entendendo que sem essas atitudes não haveria avanço real para os negros brasileiros. Era necessário andar retamente.
A FNB tinha membros de outros posicionamentos políticos, inclusive à esquerda, mas isso não diminui o fato de que o fundador da instituição era um cara com nítidas preferências conservadoras. Ou seja, o combate ao racismo nem sempre foi visto como um posicionamento de direita.
Quase 100 anos depois da FNB, ainda se tenta negar ou justificar o problema racial brasileiro. Levando em conta o legado de Veiga dos Santos, pessoas à direita, geralmente refratárias ao combate do racismo, deveriam rever seu posicionamento à luz de tamanho exemplo.
No Brasil, a pauta racial não deveria ser refém nem vilã de partidos, mas um compromisso humano e, sobretudo, cristão. Veiga dos Santos entendeu isso há muito tempo. E você?