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    Eliete -

    Dulce Maria Cardoso

    Tinta da China
    2018
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9789896714581
    Português
    3.8
    103 avaliações
    Leram141Lendo15Querem333Relendo0Abandonos8Resenhas27
    Favoritos0Desejados333Avaliaram103

    «O tempo era tanto mais lento quanto eu vivesse dentro dele e não no futuro ou no passado. Quanto mais presa ao presente, mais lento o tempo passava, mais feliz eu era. A tarde quente lá fora, nós os quatro, o Jorge, as miúdas e eu, quase nus sobre a cama desfeita, os corpos em ninhada sonolenta, pela janela entreaberta a aragem trazia arrepios e farrapos sonoros de coisas aladas, pássaros, vozes, insetos, músicas. Nesse tempo, nessa casa, houve alturas em que o tempo parou, parou mesmo, alturas em que fui imortal, eu cheguei a ser imortal. Ser feliz de forma plena era a maneira de experimentar a imortalidade. Mas sendo a felicidade provisória, era mortal, a imortalidade. […] Todas as famílias, as felizes e as infelizes, tinham segredos, todas as famílias sabiam que a verdade devia ser desprezada como qualquer outra minudência que amesquinhe a vida.» Estar a meio da vida é como estar a meio de uma ponte suspensa, qualquer brisa a balança. A vida da Eliete vai a meio e, como se isso não bastasse, aproxima-se um vendaval. Mas este é ainda o tempo que será recordado como contendo em si, reconhecível, imparável, a mudança. Apesar de ninguém dar conta disso. Porque tudo parece normal. Deus está ausente ou em trabalhos clandestinos. De tempos a tempos, a Pátria acorda em erupções festivas, mas lá se vai diluindo. E a Família?

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    Ladyce West picture
    Ladyce West29/09/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    "O retorno", livro que li em 2012, de Dulce Maria Cardoso, me seduziu com sua linguagem, e suavidade ao tratar nuances nos sentimentos íntimos. A autora me encantou pela escrita poética e fluida. Passaram-se dez anos e voltei minha atenção para "Eliete: a vida normal" que acabou de ser lançado no Brasil. Foi bom ver, que pelo menos no primeiro terço do livro, o charme da escrita de Dulce Maria Cardoso permaneceu intacto ainda que o assunto tratado não se prestasse ao tom onírico de "O retorno". De fato, foi o humor que se imiscuiu na narrativa que me surpreendeu, assim como o tratar de episódios corriqueiros e não tão introspectivos que eu havia atribuído à sua voz narrativa. "Eliete: a vida normal" é completamente diferente do livro que li anteriormente. Partimos da vida frustrada de uma dona de casa, classe média portuguesa, vivendo em Cascais, que depois de formar uma família, com duas filhas, encontra-se naquela fase tão comum das pessoas de meia-idade: cuidar dos filhos, do consorte e dos pais, que envelhecem. Vende imóveis como profissão porque não conseguia saber a que mais poderia se dedicar. Tudo contribui para o caos generalizado, quando projetos de vida, planeamento e desejos até mesmo banais são descartados pelo bem comum. Neste ambiente, Eliete se sente só. Rendeu-se ao desmazelo, não atrai mais o desejo do marido. Isso é agravado pelo fato de não ter se sentido atraente ou sedutora, na juventude, detalhe ainda mais pesaroso, já que sua irmã conseguiu superar os entraves da época e desfruta agora de vida interessante aos olhos de Eliete. O que diferencia a história dessa personagem é o meio por que decide resolver seu problema. A época é a atual. Eliete é viúva do celular. Todos à sua volta estão mais interessados na telinha dos jogos ou das redes sociais, deixando-a unicamente só apesar de fisicamente próxima. Sente-se desnecessária, negligenciada. A vida é enjoada e exaustiva. A bela natureza de Cascais a aborrece. "Deus era um compositor minimal repetitivo naquele lugar, mar e vento, vento e mar, até o chilreio dos pássaros soava sempre ao mesmo." Irônica, Eliete reflete: "Aprendi assim, de uma só vez, que as pessoas podiam morrer como os bichos e que a utilidade das suas mortes era o sofrimento que causavam aos outros." Mas o que mais a aflige é o passar do tempo, a vida em branco, a meia idade, como quando corta os longos cabelos, por já não ser tão jovem: "Parecia haver quase um sadismo na satisfação com que o cabeleireiro me cortava o resto da juventude que eu tanto quisera preservar e que, ao contrário do cabelo, não voltaria a crescer." É fabulosa a narrativa conduzida por Eliete, para justificar suas decisões, ações intempestivas. Dulce Maria Cardoso continua a encantar com sua prosa. Deixou de lado a magia nostálgica de O retorno; enveredou pelo cáustico comentário da realidade contemporânea. Eliete é vítima desta realidade, mas acha, um meio de se refazer. "O passado foi feito por outros, mas o presente é feito por nós" justifica-se. Marquei exatas cinquenta e sete frases ou passagens neste livro, de acordo com Goodreads. Muitas foram pelo delicioso descobrir de expressões portuguesas: 'biquinhos dos pés', para na ponta dos pés; 'o roçagar das sedas'; mas boa parte por excelentes descrições da alma feminina. Apesar disso, o livro se prolonga onde é desnecessário. Se dividíssemos a obra em três, o primeiro terço é fantástico, o último é bom, mas o meio se prolonga, torna-se repetitivo. O ritmo se esvai, leva junto o entusiasmo pela leitura. No momento em que a história parece pachorrenta, é mais fácil deixar a leitura de lado por alguns dias. Por isso, e só por isso "Eliete: a vida normal", não recebe o máximo de cinco estrelas. São quatro as que dou, com gostinho de três e meio.

    11 curtidas

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    Avaliações

    3.8 / 103
    • 5 estrelas19%
    • 4 estrelas45%
    • 3 estrelas25%
    • 2 estrelas8%
    • 1 estrelas3%
    Dulce Maria Cardoso profile picture

    Dulce Maria Cardoso

    Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa. O seu romance de estreia, Campo de Sangue, publicado em 2002 e escrito com o apoio de uma Bolsa de Criação Literária do Ministério da Cultura, foi distinguido com o Grande Prémio Acontece de Romance e encontra-se traduzido em França. Os respetivos direitos foram também adquiridos para a América Latina, Brasil e Espanha.

    15 Livros
    15 Seguidores
    Trás-os-montes, Portugal

    Dulce Maria Cardoso