Sinopse: Nos labirintos de suas palavras, resplandece o guerreiro devorador, embriagado, quase descendo ao seu próprio inferno. Emana seu fogo, na ardência de sexo e simultaneamente na carícia do amor. Pedras frias se aquecem, coram com o tom devasso que colore a mais bela das pornofonias. Marquês de Sade sente inveja por não ser o único déspota das palavras sensuais. E os poemas de Artur reflorescem, exalam odor como desejos secretos e risos que ecoam no infinito.
A memória é um peixe fora d´água -
Patrícia Porto
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A memória é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e, além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora se manifesta já bem alterada. Sobretudo se passamos a entender a memória como o registro do vivido, preservação e resgate de imagens ou reconstrução da experiência humana. De forma que o gênero memorialístico insere-se no estatuto de textos referenciais que relatam a trajetória de uma vida, são documentos que, postos na frieza da letra, serviriam, inicialmente, à história. Entretanto há outras possibilidades, e dentre elas as ficções com viés memorialístico, de que é exemplo vivo e bem conhecido a obra de Marcel Proust “Em busca do tempo perdido”. O que possibilita o seu estudo no conjunto da literatura ficcional é a força da linguagem dos textos, e sua capacidade de se impor como discurso esteticamente elaborado. É na recriação, na transformação da rememoração em linguagem que surge a “oportunidade poética”. É enquanto produção de linguagem que o relato memorialístico ultrapassa o seu caráter histórico e se vê como ficção. De Santo Agostinho a Henri Bergson de Marcel Proust a Maurice Halbwachs, passando por Philippe Lejeune, dentre outros, já se produziu inúmeros aportes teóricos referentes aos estudos sobre memória e autoria, relações entre história e literatura e etc. Rios e rios de tinta já correram para explicar, ou tentar explicar esse ‘imponderável’ da memória. “A memória é um peixe fora d´água” da senhora Patrícia Porto, é um portento de criação literária expressamente embasado na memória da autora. Como está dito em nota introdutória ao volume assinada pela própria: “Escrever um livro memorialista exige diversos sacrifícios, um deles é ausentar-se, tomar distanciamento para trazer não pessoas, fantasmas, mas os personagens. Reminiscências podem ser fonte sim de permanência, mas também de impermanência, como cabo de força onde um empurra pro outro no reverso”. Muito bem; esse cabo de força merece detalhamento. O volume de contos está dividido em três blocos temáticos, a saber: Tombo 1: Os ossos do porão, Tombo 2: Os crônicos e, finalmente, o Tombo 3: Fogaréu no céu, exílio na terra”. Lembramos que uma das acepções da palavra “tombo”, é: inventário autêntico dos bens de raiz com todas as demarcações e confrontações. A leitura revela-nos de imediato a grande habilidade da autora na recriação a partir de tantos fatos marcantes que ela remaneja na memória e sobre os quais o tempo deixou uma marca responsável pela visão nova, das pessoas, da situação ou de conflitos básicos. Linguagem eivada de memória como instrumento de uma verticalização sugestiva. A senhora Patrícia aplaina arestas, desbasta o acessório e acaba por impor aquilo que, a seu ver, é o núcleo e constitui a essência, o cerne do instante revelador das experiências dessa contingência a que chamamos existência. Esse o jogo caleidoscópico no qual as conexões entre memória e literatura fundem-se e conformam-se, em um quadro complexo de impermanência e consolidação. Em Tombo 1: Os ossos do porão, lemos contos em que as primeiras impressões se gravaram no espírito da menina nascida no Maranhão. Aos poucos, nos vários textos, surgem as reminiscências. De filha bastarda da classe média alta maranhense, mas criada pela avó, a de um padrasto com atos de lascívia, o primeiro emprego em um armarinho (em verdade uma semi-escravidão), os sufocantes e castradores anos de estudo no colégio Divina Pastora de freiras capuchinhas, e violências de toda sorte. Aqui e ali lemos frases como: “A vida não te recompensa, rapaz. É preciso ir lá e fazer a revolução sem rastro algum de piedade. É faca nos dentes e sangue nos olhos”. “O mundo era feito de dor e barbárie”, um mundo onde se morre “da crueldade disfarçada de bondade humana”. Nesse bloco figuram dois contos muito especiais. O primeiro é “Lord”, o segundo “Cidade fria”. Ambos relatam uma mesma perspectiva, mas com densidades diferentes. No primeiro, “Lord” é um cachorro de estimação. E porque foi maltratado às últimas consequências, acabou que mordeu a mãe da narradora. O avô, homem bruto e irascível, toma de uma espingarda e mata o cachorro. Lemos o relato da narradora: “A arma, a violência e o sangue entraram assim pela porta da frente da minha memória.” Já em “Cidade fria”, outro cão de nome Rafael, simplesmente é abandonado em uma estrada. Os donos, um casal que já não sabia mais o que era o amor que um dia os tinha unido, descobrem que a esposa está grávida. Gêmeos, e Rafael passa a ser hostilizado, não há mais lugar para o animal, resolvem dar-lhe um fim. Como o homem é um “palerma”, não consegue dar cabo da vida do bicho na base do tiro e o abandona na estrada à própria sorte. Perceba-se como a autora adensa para um mesmo conflito, o assassinato do cachorro. Mas o tema não se esgota aí. Voltaremos a ele. Já que mencionamos Marcel Proust, diríamos ainda que “Em busca do tempo perdido”, experimenta novas formas de representação da subjetividade e da memória, especialmente através da alusão aos jogos subjetivos e simbólicos em torno da memória involuntária, assumida na escritura proustiana como a catalisadora da temporalidade que se perde. Essas as possibilidades também exploradas pela autora; as de diálogo entre os processos de organização da memória e formas de urdidura literária. Por essa razão é que Ricardo Gualda, na orelha de “A memória é um peixe fora d´água”, afirma com muita propriedade que há um evocar de vivências “que tanto podem ser da autora, quanto da personagem ou mesmo da autora sendo personagem; e faz isso com maestria, sem perder de vista, em nenhum momento, que aqui, a função da memória é ser literatura”. Pulemos para a parte final do livro: “Tombo 3; Fogaréu no céu, exílio na terra”. Neste bloco estão reunidos 10 contos extremamente bem realizados. E querem saber qual a matéria prima que os move? Exatamente àquelas ideias, sensações, sofrimentos e toda sorte de dores da vida que agora estão sublimadas pela vivência e maturidade da mulher. Comentemos apenas um: “Meninas que não choram”. É um texto pungente. Relata a história de uma professora que se sente uma desajustada no mundo. Em dado momento ela se vê sentada ao lado de um menino pobre, preto e preso. “tráfico e roubo, mas tenho bom comportamento”. Ele diz. E é então que a narrativa se desenrola levantando questões cruciais de nossas vidas e de nossa realidade, sobretudo a social, tão desumana. “Um preso. Uma louca. Somos tantos que até nos esquecemos de ser o outro”. Seria a professora desajustada aquela mesma menina maranhense? Seria o menino preso um daqueles tantos vitimados pela violência de nosso dia a dia, sem escola, sem estudo, sem educação? Seria um filho abortado, relato de outro conto? “O menino que não iria crescer, que não enfrentaria o mundo dos homens ruins”? Escrevi acima tratar-se de texto pungente. Antes de dizer finalmente porque, estranhamente me salta à memória, como um ‘peixe fora d´água’, um texto de Florbela Espanca: “Os olhos do meu cão enternecem-me. Em que rosto humano, num outro mundo, vi eu já estes olhos de veludo doirado, de cantos ligeiramente macerados, com este mesmo olhar pueril e grave, entre interrogativo e ansioso?” Muito bem; o cachorro dos contos “Lord” e também de “Cidade fria”, reaparece no finalzinho de “Meninas que não choram”. Afinal a professora louca e o menor infrator se separam: “Sem sal de olhar sigo o caminho em outra vasta direção. Um cachorro magro me acompanha, posso sentir sua fome quente queimando o osso do meu calcanhar. E já me sinto de novo amparada, um gesto quente. Presos, loucos e cachorros de rua se assemelham”. Veja-se finalmente a beleza desse trecho do conto “Sobre o tempo de perder”, sinta-se a percepção do humano que ele desperta. “Se uma alegria é uma ação única e irrecuperável, a memória, mesmo a dessa esfumaçada alegria, é nada mais que o vestígio, a pétala seca do que um dia foi vivido. Não precisamos de tantos acúmulos. Imprecisamos. E as perdas fazem parte do que somos. Há perdas precisas e até preciosas – como lágrimas, sorrisos, a separação decorrente da liberdade de quem se ama, o crescimento absurdo dos filhos, os frutos que amadurecem e as nossas raízes que, quase sempre tortas, depois de viverem todas as suas estações, se vão para o dentro delas. São perdas, partos, despedidas que trazem à tona o nosso departamento interno de “perdidos e achados”. Perdemos chaves, óculos, carteira, o trem fantasmagórico das coisas, um porão de lembranças e urgências para as traças. E se o mundo for mesmo acabar pelo aviltamento dos corações, como professou Baudelaire, talvez possamos ainda nos empenhar um pouco mais no zelo de nossas mãos para além da arquitetura das lutas e das ratoeiras. Dedilhar os dedos de outras mãos quem sabe... atravessando a rua e o tempo.” E mais não é preciso dizer. Livro: “A memória é um peixe fora d´água”, contos de Patrícia Porto. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 98p. ISBN 978-85-5833-454-9 Link para compra e pronto envio: https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-memoria-e-um-peixe-fora-d-agua
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