Os romances de Sonia Regina Bischain são narrativas com raízes profundas. Assim como em seu primeiro romance “Nem tudo é silêncio” (2010) — indicado naquela série de relatos e ficções sobre a ditadura brasileira (nos destaques) — a narrativa deste ‘Viandante’ se estende por uma longa faixa de tempo e percorre muito chão brasileiro, numa tentativa de levantar desse mesmo chão, à maneira do clássico saramaguiano, os milhares de anônimos que dão o sangue para sobreviver, dia após dia, às injustiças que marcam suas histórias de vida. Com um recorte temporal que vai da década de 50 às manifestações contra o golpe político-midiático de 2016, de Belém a Recife, de São Paulo à Ciudad de Mexico, por meio de cartas, bilhetes, mensagens de texto, e-mails, descrições de migrantes e de perseguições políticas, o vasto painel desenhado por Bischain conta histórias que nos permitem entender profundamente nossa formação política, econômica e social.
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Narrada majoritariamente do ponto de vista das mulheres e de maneira fragmentária (um recurso muito bem usado em ‘Nem tudo é silêncio’), a história de ‘Viandante’ acompanha amores e amizades germinados através dos anos — apesar da distância, de manobras políticas, das obrigações éticas e familiares. Como diz a própria autora em nota introdutória, “não é uma biografia, não é um documentário”, mas um entrelugar (entressonho?) que deixa para o leitor “a tarefa de saber distinguir quando a realidade parece um pesadelo e quando a fantasia é um forte desejo de realidade”. Em tempos de final e começo de rotas, ou ciclos, ou calendários, ou golpes judiciários, certas leituras de raízes profundas podem ser exatamente a melhor pedida: longe de nos prender ao passado, elas dão a sustentação necessária a uma mirada mais empática e humanizadora, uma que ajude a ver o outro com a lucidez que faltou à muita gente na farsa democrática que tomou conta do país este ano.