"A cólera canta, deusa, a do Pelida Aquiles, nefasta, que aos aqueus impôs milhares de aflições, remessou ao Hades muitas almas vigorosas de heróis e fez deles mesmos presas de cães e banquete de aves...". Assim começa um dos principais pilares da literatura ocidental. A Ilíada, escrita por volta do século VIII a.C. por Homero, se tornou, juntamente com a Odisseia, a obra basilar do Ocidente, aquela que viria a se tornar parte crucial da educação grega e referência até hoje em nossa cultura.
Poema épico por excelência, a Ilíada começa durante o nono ano da guerra entre os gregos, que se autodenominavam aqueus, argivos ou dânaos, e os troianos. Logo de cara Homero nos diz que a história não se trata do relato da guerra, mas da fúria de Aquiles, o maior guerreiro aqueu, que por causa de um atrito com o líder supremo Agamêmnon, acaba se afastando do combate. E sem o seu mais valoroso guerreiro os argivos sofrerão duras perdas diante dos troianos liderados por Heitor, filho mais velho do rei de Tróia Príamo e maior guerreiro da cidade sitiada. Toda história se passa em alguns dias, na qual vemos batalhas sangrentas descritas com detalhes aterradores. O impacto das lutas é potencializado pelo fato de várias vezes Homero citar o nome e uma breve história de quem está morrendo, recurso que dá uma imersão inusitada à quem lê.
Antes de ler a Ilíada eu tinha plena convicção que a causa da guerra tinha sido o rapto de Helena por Páris, troiano irmão de Heitor. Mas com a leitura um pouco mais atenta descobrimos que a causa de tudo foi a vaidade de uma deusa. Aliás, é importante ressaltar a intervenção constante dos deuses. Os imortais agem o tempo todo em favor dos seus preferidos e contra os odiados. E seus critérios não são muito claros, exceto quando o beneficiado é filho de um deles, ou seja, os semideuses. O próprio Aquiles é filho da deusa Tétis. Talvez o único grande herói da história que não sofreu interferência divina (a favor ou contra) foi Ájax Telamônio, considerado o segundo maior guerreiro entre os aqueus, ficando atrás apenas de Aquiles. Mais um detalhe interessante, e que pode desagradar alguns leitores, é o fato de que há spoilers o tempo todo. Homero diz quem vai morrer, entre outros fatos que são antecipados.
Apesar de toda polêmica em torno da autoria do poema, já que não há registros confiáveis sobre a existência do poeta, o nome Homero ainda é utilizado pelas centenas de tradutores e comentadores mundo afora. Dito isto podemos dizer que Homero (partindo do pressuposto que ele existiu e escreveu a Ilíada) realmente foi um gênio da literatura. Também devemos levar em consideração que a Ilíada foi criada para ser recitada com acompanhamento musical para uma plateia que já conhecia um pouco da história, pois acredita-se que a guerra de Tróia era de domínio público. Por isso a obra parece, guardadas as devidas proporções, uma peça teatral.
Um dos atrativos da escrita homérica, e onde talvez repouse boa parte de sua beleza, são os símiles. Vemos por todo poema trechos como "ele irrompia pela planície, semelhante ao rio no auge da torrente invernosa", ou então "tal como os ceifeiros de cantos opostos do campo vão aproximando as carreiras ceifadas de trigo ou cevada no terreno... assim troianos e aqueus arremetiam uns contras os outros". Além dos belos símiles também vemos epítetos curiosos como "Atena de olhos garços", "Heitor elmo faiscante", "Odisseu muito truque", etc. Por tudo isso e por muitos outros atrativos é que a Ilíada continua sendo lida até hoje e continuará enquanto a humanidade existir!