Bibliografia e a sociologia dos textos aborda a questão da textualidade e da materialidade do impresso de modo inovador, mostrando como a forma de um texto é crucial na composição de seu sentido. D. F. McKenzie demonstra que, à medida que qualquer obra é reproduzida, reeditada e relida, ela assume novas formas e novos significados. Nas conferências que compõem o livro, o autor discute temas como a materialidade do livro e seu potencial “discursivo”, amplia o conceito de textualidade e de materialidade da escrita para suportes múltiplos e enfatiza a relação entre forma e conteúdo, abrindo novos caminhos para que os objetos da escrita possam ser pensados de forma mais abrangente. Nesta edição o leitor encontrará ainda o estudo de McKenzie sobre oralidade e letramento em seu país natal, "A sociologia de um texto: cultura oral, alfabetização e impressão na Nova Zelândia”.
Bibliografia e a sociologia dos textos -
Donald Francia Mckenzie
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Ver maisA cabeceira de Chartier
Quem leu qualquer coisa do historiador francês Roger Chartier escrita após 1980 encontrou uma ou mais vezes o nome de Donald Francia McKenzie. É preciso dizê-lo: sem a intervenção do francês, talvez este livro do bibliógrafo neozelandês não tivesse chegado ao patamar de circulação que encontra hoje nos estudos sobre os livros e os textos. McKenzie, aliás, não é o primeiro autor reabilitado por Chartier. O sociólogo alemão Norbert Elias, cuja obra foi produzida ainda no início do século XX, tornou-se um dos principais nomes com os quais cruzamos ao ler sobre o Antigo Regime europeu e devemos isso a Chartier. O ponto, contudo, não é que os textos adquiriram importância porque foram lidos e divulgados pelo francês; mas sim porque sua potência teórica estava relativamente escondida e precisava ser circulada por alguém que tivesse um trânsito mais amplo no meio acadêmico europeu. A França dos anos 1970-1990 era um desses lugares. O longo preâmbulo à parte, este curto livro composto por uma série de conferências e um ensaio de sociologia dos textos aplicada a um dos fatos fundadores da história da Nova Zelândia é uma leitura muito agradável. Razoavelmente fácil em inglês, não apresenta muita dificuldade teórica porque, essencialmente, estamos falando de um objeto significativamente conhecido, o livro, e algo com o qual estamos rotineiramente acostumados, os textos. O projeto de McKenzie é repensar essas categorias: "livro" e "texto". Dentro da crítica literária clássica, elas são categorias definidas <i>a priori</i> e sem efeito para a análise. O autor, porém, crava: livros não são escritos, eles são produzidos num regime material de trabalho - que produziu o livro manuscrito na Idade Média, ou o livro impresso a partir do século XV; textos não existem sem um suporte material e eles não se resumem, tampouco, a uma sequência linguística. Encarados de uma nova maneira, livro e texto são ressignificados na frase que costuma ser evocada por Chartier como corolário desse projeto crítico: "New readers make new texts, and their meanings are a function of their form" (isto é, "Novos leitores fazem novos textos, e seus significados são uma função de sua forma"). Essa definição, repetida por Chartier em diversos textos, realmente sustenta um projeto de crítica transversal, que apanha a história, as críticas literária e textual (que são distintas), e a bibliografia. Esse cruzamento, então, é denominado por McKenzie como "sociologia dos textos" - não necessariamente uma nova ciência, mas um nome aplicado a um arranjo diferente e renovado daquilo que se tem à disposição de diversas ciências que se dedicam à cultura escrita e à história da leitura. De uma só vez, McKenzie afirma: o leitor tem um papel importante pois, sem ele, textos não possuem sentido; por outro lado, o objeto que o leitor tem em mãos é também importante, pois a forma do texto depende inteiramente das escolhas que levaram à produção daquele livro-objeto. Os significados, então, são o produto desta relação tripartite entre uma atividade leitora, uma atividade criativa (do autor) e uma atividade editorial (abarcando, em diversos regimes de produção, o papel do escriba, do copista, do editor, do tipógrafo - enfim, de qualquer pessoa envolvida na produção material do objeto que se lê). Essas categorias de atividade, é claro, são variáveis e adaptáveis já que textos não são exclusivamente sequências linguísticas; imagens (estáticas ou em movimento), construções, estátuas, símbolos, etc. podem ser - ou, sem dúvida, são - textos, cujos suportes não são essencialmente linguísticos, mas mesmo assim são dotados de uma materialidade que mediatiza a atividade leitora (decodificadora, se assim se quiser) que produzirá, a partir daquele objeto, um sentido. Por ser o resultado do cruzamento de uma série de conhecimentos de ordens distintas, a sociologia dos textos exige, é verdade, um treinamento rigoroso em diversos saberes instrumentais e científicos - paleografia, codicologia, bibliografia, crítica literária, crítica textual, historiografia, ciências sociais, línguas estrangeiras. Por essa razão mesma, ao produzir um novo arranjo, produz novas e abrangentes teses e conclusões sobre o mundo da escrita e da leitura, as quais não teriam sido possíveis na dispersão anterior de nossos saberes. Fez muito bem o senhor Roger Chartier ao acolhê-lo em sua cabeceira e, verdade seja dita, faríamos bem todos nós historiadores, da cultura ou não.
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