Lido pela segunda vez como parte da atividade de discussão de livros sobre a escrita na Idade Média, <i>From memory to written record</i> é um clássico do assunto. Michael T. Clanchy foi um exímio historiador, que migrou de estudos sobre o direito para estudos sobre a cultura escrita medieval.
De saída, é preciso lamentar que no Brasil não tenhamos tradução desse livro. Embora seja um estudo com recorte geográfico e temporal precisos, o alcance dos argumentos e a discussão historiográfica e conceitual feita são imprescindíveis para qualquer pessoa que deseje conhecer mais sobre a forma de comunicação escrita na Idade Média ocidental.
O argumento central do autor está ligado à transformação que se observa na Inglaterra, do século XI ao início do XIV. O reino inglês passa por uma invasão de um povo estrangeiro à constituição de um Estado monárquico centralizado e burocraticamente complexo. Essa passagem é vista à luz, justamente, da transição de uma cultura memorial aos registros escritos. Em outras palavras, Clanchy argumenta a respeito das linhas de força que levam a cultura do costume comum a ser gradativamente superada (mas não necessariamente substituída) em sua hegemonia pelos hábitos de leitura e escritura em objetos variados como meio de registrar os fatos políticos, as transações comerciais, as trocas culturais, etc.
Independentemente de sua temática restrita, esse livro é uma leitura incontornável a todas as pessoas que desejam entender melhor o período medieval. De leitura relativamente fácil, ainda que seja um livro grande, é válido tanto ao leigo quanto ao especialista.