A literatura tem asas,mas não tem fronteiras. [....] A uma cultura tão pouco familiar ao Ocidente, nós leitores conseguimos nos transportar ao universo do protagonista Thoth Zehuti, um filósofo e professor deslocado no mundo, um andarilho errante dotado de certa misantropia que vagueiacomo um moribundo, na esperança de encontrar uma melhor disposição para enxergar a vida, ou um lugar para chamar de pátria e sobreviver com o mínimo necessário.... Assim, ele se dirige para o Vietnã, Camboja e Tailândia, atraído pelos contrastes dessa cultura milenar: uma natureza tão exuberante,com seu povo historicamente reprimido e sofrido. [...] A narrativa entrelaçada com micro-histórias e micronarrativas, em meio a um enredo costurado com dores e perdas, memória e esperança, nos descortina o cenário de uma cultura ímpar, além de nos causar inquietação e nos fazer refletir sobre o destino da humanidade em vários aspectos: político, religioso, ideológico, cultural. Uma leitura envolvente, que com sua narrativa não linear, nos faz perceber que “a vida nem sempre é uma sequência cronológica de eventos e acontecimentos, tal como queremos”, como sinaliza Thoth. Boa viagem!
Cores de Indochina -
Marcos Torres
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Do outro lado do mundo existe uma tal Península Indochinesa que é uma região do sudeste asiático, entre o leste da Índia e o sul da China. Em sentido estrito, a Indochina abrange apenas o território da antiga Indochina Francesa, incluindo: Tailândia Camboja e Vietnã. O termo foi cunhado pelos franceses, que assim alcunharam sua colônia e que compreendia os atuais países Vietnã, Laos e Camboja. Historicamente, os países do Sudeste da Ásia foram influenciados culturalmente pela China e pela Índia, mas sobretudo por esta última. No Vietnã, no entanto, ocorreu o contrário. A influência indiana é residual e veio através da civilização chinesa. A principal religião nesses países é o Budismo, ma há influências do hinduísmo também. É numa tal ambiência que encontramos o protagonista de “Cores de Indochina” romance do senhor Marcos Torres. Thoth Zehuti é um filósofo e professor que, vez por outra, trabalha para uma revista de filosofia como freelancer. Recentemente abandonado pela mulher, empreende uma viagem através da Tailândia Camboja e Vietnã onde entra em contato com os milenares e profundos valores orientais. É obra de acentuados questionamentos existenciais onde se alternam com a narrativa principal, outras micronarrativas sobre passagens e vivências do protagonista. Zehuti se define como um Misantropo, ou seja pessoa que tem aversão ao ser humano e à natureza humana no geral, numa posição de desconfiança prévia. Um misantropo é alguém que desconfia da humanidade de uma forma generalizada, e ele não poderia paradoxalmente, encontrar ambiente mais propício a ensejar aprofundamentos desse descrédito que devota à espécie humana. Afinal a Península Indochinesa foi palco de grandes carnificinas ao longo da história, sobretudo na mais recente. Ali se desenrolaram guerras sangrentas entre povos e dinastias pela ocupação das terras férteis, disputas atrozes por templos e cidades, invasão e colonização francesa, guerra do Camboja contra os americanos, regimes de terror do Khmer Vermelho, extermino dos povos vietnamitas pelos chineses ou a guerra, novamente, contra os americanos (Vietnam). “Quero fugir, eu quero. Ficar longe por algum tempo deste mundo entorpecido e abjeto, eu quero. Continuar a empreender uma longa viagem sem rumo definido nem parada obrigatória, sem data para regressar. Ou talvez não mais regressar. Estou farto do frenesi desta vida contemporânea e deste mundo hiperacelerado zumbindo o tempo todo em meu ouvido e deixando minha mente em constante estado de convulsão. Preciso procurar uma melhor disposição para ver o mundo, apreciar as paisagens, contemplar o sol escondendo-se atrás dos rochedos para além das colinas. Visitar espaços menosprezados pelo espetáculo da modernidade e pouco explorados pelos sonâmbulos vagando em todo o mundo.” O romance se abre com o contato que ele passa a ter com uma família que o hospeda. A família da senhora Giang massacrada no Vietnã na época da guerra. Positivamente a convivência lhe ensina outros valores ao observar o modo e estilo de vida simples do povo Tailandês. Mas acaba descobrindo, ou melhor, vivenciando o que de fato ocorre nos grandes centros urbanos como Bangkok onde se encontra o mesmo alheamento e indiferença que grassa no mundo ocidental. Alí também o ‘barulho’ do mundo. Engarrafamentos, motocicletas ou famosos tuks-tuks, tudo junto e misturado com uma profusão de pedestres e ciclistas em congestionamentos. Cidades em crescimento desordenado, “drogas, bebedeiras, prostituição e corpos expostos fazem parte de Bangkok” (capital da Tailândia) ao lado da febre de consumo de equipamentos eletrônicos, e os condicionamentos da Web que a todos seduz de roldão. O inferno está lá também. Decisivamente. Percebe ainda, que em muitos vilarejos e aldeias da Indochina, “muitas pessoas sequer têm um pão para comer, mesmo que seja uma parte roída pelos ratos”. Uma situação desoladora que o faz continuar a viagem em busca de paz. E eis que ao passar ao Camboja conhece a linda jovem Suryaia Jayara, (carinhosamente chamada de Sury) que é professora de Psicologia na Universidade de Phnom Penh! E então nenhuma filosofia, ‘nem mesmo a experiência de vida de Montaigne transformada em filosofia’ poderia ajudar o andarilho quando acontece o amor! Mesmo com o diabo a quatro remando contra, choque de culturas, racismos e todos os entraves que colocamos ao amor, apaixona-se pela professorinha. Que fará o homem? Voltar a viver como se vive ainda hoje em certos vilarejos da Indochina em pequenas fazendas bucolicamente, a cuidar de plantações de chá, pimenta e arroz? Ou afundar-se cada vez mais no mundo capitalista de consumo, drogas, criminalidade e prostituição hoje tão comum por toda parte? Ou ainda ser um eterno flâneur da vida perambulando pelas ruas das cidades mundo afora? Com efeito o mundo é mesmo um desassossego e a estupidez humana não conhece limites. Thoth Zehuti seguirá buscando e buscando... Já que a humanidade não acha meios de se emendar e segue cometendo os mesmos desatinos, por certo, a última palavra caberá à dor, a eterna plasmadora dos destinos, esta sim abalará inconsciências porque está e estará sempre gravado no coração humano um desejo indestrutível. O de almejar um colorido de vida como este: “Queria ver minhas meninas e meus meninos correndo por entre arbustos e o grandioso complexo de templos e vales que escaparam quase incólumes. Justamente agora que a vegetação está densa, os templos restaurados e conservados como vi ao lado de Sury pela última vez, escutando o canto dos pássaros sob a sombra dos ipês nos descampados com vista para o boqueirão, aproveitando a brisa e sentindo o vento macio vindo do noroeste”. TRECHO: “O que eu estava fazendo naquele lugar? O que estava procurando? Só eu sabia bem no íntimo de minha alma o que tudo aquilo significava para mim. Queria ver algo diferente da cultura ocidental. Encontrar um lugar para me aquietar e tentar sobreviver com o mínimo, acompanhado de uma certa misantropia. Interessava-me saber o que acontecia para além dos outros oceanos, para além dos costumes burgueses e excêntricos. Queria conhecer parte dos lugares cujos processos culturais e históricos foram apagados de uma forma ou de outra, por desinteresse, pela falsa burguesia, pelos falsos humanistas, pelas civilizações hegemônicas e segregacionistas, como se esses povos fossem lunáticos e canibais, povos bárbaros vivendo em algum lugar fora da órbita da terra. Até hoje não vi uma única forma política que não fosse perversa a seus habitantes. Por que as pessoas não controlam suas próprias vidas em vez de se deixarem ser controladas pelos outros, pelas sociedades de controle para o disciplinamento e o dilaceramento dos corpos, motivadas por ações arbitrárias e brutais de toda ordem?” Livro: “Cores de Indochina”, romance de Marcos Torres. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 226p. ISBN 978-85-5833-455-6
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