* Nesta publicação o autor está oferecendo, principalmente aos professores de Educação Física, aos alunos dos cursos superiores de Educaçõa Física e aos profissionais de comunicação envolvidos com as matérias esportivas os elementos teóricos para uma melhor compreensão das críticas que se fazem ao esport
Sociologia do futebol - Dimensões históricas do esporte das multidões
Richard Giulianotti
CLÁSSICO
Fala, galeris! Tudo tranquilo? Neste mês de MAIO resolvi ler um livro sobre um assunto que gosto bastante: o futebol. Se você já escutou aquele papo de que futebol são apenas 22 machos correndo em um gramado ou que o futebol e a política não se misturam, então, esqueça esse papo e venham comigo compreender um pouco deste livro! O livro "Sociologia do Futebol" é um clássico escrito em 2002 pelo Richard Giulianotti, que é um professor super renomado da Universidade de Aberdeen. Neste livro, o sociólogo escocês aborda as mais diversas dimensões sociais, históricas, econômicas e políticas do futebol dentro de uma ordem cronológica dividida entre os períodos TRADICIONAL, MODERNO e PÓS-MODERNO. O período tradicional do futebol é aquele do surgimento do jogo na Inglaterra até a 1ª Guerra Mundial. Lembrando que o futebol era praticado em outros lugares do mundo antes da Inglaterra, contudo, recebe a denominação de futebol primitivo por conta das suas diversas diferenciações ao jogo dos "povos civilizados". Dentro desta perspectiva, o Giulianotti trata do jogo na antiguidade, idade média, no período anterior à sua "criação" no Reino Unido, e como nós o conhecemos hoje. Esta fase tradicional é marcada pelo estabelecimento das regras do jogo, formação das associações para administrar o jogo e a difusão do jogo internacionalmente, isto é, além das "Home Nations". Neste período, o futebol é controlado pelas elites dominantes. Ao longo do livro, o autor aborda o aspecto marxista do jogo, a luta de classes, que ocorre desde o seu início com a criação de clubes ligados aos operários, às fábricas e à aristocracia inglesa, e assim permanece até os dias atuais com a mercantilização do jogo e a sua consequente elitização que separa os grupos sociais. Os estádios de futebol cada vez se tornam espaços menos acessíveis à população mais carente. Quem quiser ver um bom documentário sobre a sua origem e este tema recomendo o "English Game", que se encontra na Netflix. Um outro tema tratado dentro do livro é como as identidades e as rivalidades são construídas. As rivalidades podem ser construídas sob diversos prismas: I. Históricos - Israel, por exemplo, disputa as eliminatórias da Europa por conta da rivalidade com o mundo árabe. II. Geográficas - Argentina e Uruguai por conta do Rio da Prata. Ceará x Fortaleza por serem clubes do estado do Ceará. III. Etnocêntricas - Pense no Dínamo Zagreb (Croácia) x Estrela Vermelha (Sérvia) que possuem uma rivalidade de origem étnica desde a época da Iugoslávia. IV. Religiosas - Na Escócia, a rivalidade entre Rangers x Celtics. O Rangers antigamente era representante dos protestantes e possuía a sua história atrelada aos sindicados e a indústria naval. Por muito tempo não permitiram a contratação de jogadores católicos, já o Celtic tinha ligação com os católicos da Irlanda do Norte. V. Classistas - Na Turquia se tem o representante da aristocracia (Galatasaray), do proletariado (Besiktas) e o da classe média (Fenerbahçe). A construção de identidade podemos analisar a partir da ligação dos clubes com as suas cidades e respectivas populações. Pense na relação entre Barcelona e a Catalunha ou entre o Athletic Bilbao e o povo Basco. O futebol tem o poder de fazer com que uma cidade seja representada por um time. Na leitura do livro, eu pensei na cidade de Chapecó que ganhou o mundo por conta da tragédia com o time da Chapecoense. Qual a imagem que foi construída ali da cidade? O futebol tem um poder impressionante de criar um espírito de solidariedade e pertencimento a um grupo, assim como também tem de dividir os grupos sociais. Esta ordem binária e o maniqueísmo é muito presente no jogo. Uma hora temos um atleta que é o herói do seu time e 15 minutos depois o mesmo pode ser o vilão. Mas seguindo, a segunda fase do jogo seria a era moderna que é a partir da 1ª Guerra Mundial até o final dos anos 80. Essa fase pode sofrer algumas subdivisões (da década de 20 até 60 [pré-moderna] e de 60 até o fim da década de 80). É marcada fortemente pela consolidação do jogo como um esporte global e pelo fortalecimento do nacionalismo. Neste período, o futebol se torna um esporte nacional dentro dos continentes e marcado por uma cultura popular masculina e de classe operária, deste modo, o sociólogo trata do hooliganismo na Inglaterra, Itália, Alemanha, Argentina, Brasil, entre outros lugares. Essa leitura do hooliganismo parte de uma visão muito detalhista que analisa as formas que se estudou o Hooliganismo ao longo do tempo nas Ciências Humanas, por exemplo, a partir da visão marxista de Ian Taylor, da psicologia social de Peter Marsh ou das figurações sociais de Eric Dunning e a Escola de Leicester. Aliás, o livro trata do futebol a todo momento sob os olhares e conceitos de alguns grandes intelectuais como Foucault e Norbert Elias. No período pós-moderno, que é o que vivemos a partir da década de 90, o futebol é marcado pela mercantilização. Dentro ainda da lógica marxista, Giulianotti, tenta compreender o período pós moderno do futebol analisando os contratos de televisão, de jogadores, a publicidade e como empresas fizeram do futebol um bem de consumo. O futebol tem um impacto imenso na economia de inúmeros países (no Brasil fui pesquisar chega à 1% do PIB. Em alguns países, é de 3-4% do PIB). A televisão e o pay per view, que inicialmente, eram visualizados negativamente por parte das federações pelo medo de tirar o público dos estádios fez com que os estádios se tornassem espaços ainda mais lucrativos para ambos. O autor analisa como o torcedor nestes espaços deixou de ser um membro do clube, um indivíduo que participava ativamente dos jogos nas arquibancadas para um telespectador, que vê o jogo como uma peça de teatro e que trata o futebol como um bem de consumo. O futebol que era marcado por torcedores operários lá em seu início, que enxergava o futebol como uma extensão da sua cidade agora torce para times cosmopolitas, vive de selfies e de status sociais. Giulianotti ainda trata da Lei Bosman e da abolição dos tetos salariais (década de 60) que fez com que o futebol entrasse de vez no mundo do livre mercado, assim o livro fala do impacto na circulação de atletas pelo mundo e a desigualdade salarial entre as ligas pelo mundo, além de tentar compreender a identidade dos atletas. Na idade pré moderna, os jogadores eram vistos como "heróis" da classe operária, de alguma subcultura, enquanto na era moderna são produtos e estrelas da mídia internacional. Por último, o livro trabalha com a questão de gênero e o racismo dentro do futebol, como em alguns lugares o futebol chega a ser mais assistido por mulheres do que homens (Japão), a presença feminina nos estádios americanos e como a mulher está inserida dentro de um esporte construído pelos homens e com bases machistas. Como vocês puderam ver o futebol vai muito além de 22 jogadores correndo atrás de uma bola. O futebol é um reflexo de nossa sociedade e está intimamente ligado a questões políticas, econômicas ou históricas.
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