Um dos pontos na disputa Clark- Van Til estava relacionado à teoria do conhecimento. Nesse livro buscamos esclarecer as definições da teoria da analogia e da univocidade, investigamos a influência teológica e filosófica, além de explorar as implicações epistêmicas de cada teoria.
CONHECIMENTO UNÍVOCO E CONHECIMENTO ANALÓGICO -
Daniel Gomide
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Ver maisConhecimento unívoco e conhecimento analógico
Ótimo livro de Daniel Gomide visando esclarecer a controvérsia ocorrida no século passado entre dois gigantes da Teologia: Gordon Clark e Cornelius Van Til. Controvérsia que expõe duas linhas inconciliáveis de epistemologia da Tradição Reformada. O que Gomide irá mostrar é que a posição de Cornelius Van Til é menos coerente com a Reforma Protestante que a posição de Clark. Na verdade, Van Til termina por dar continuidade à linha aberta por Tomás de Aquino, enquanto Clark não dá margem para qualquer concessão a qualquer espécie que seja de autonomia da razão. Para compreender melhor, é preciso esclarecer a discussão que logo aparece no título do livro. Há 3 tipos de conhecimento: unívoco, equivoco e analógico. O conhecimento unívoco é aquele que estabelece que o termo apresenta um único significado; o equívoco é aquele em que o termo tem significados diferentes; e, finalmente, o analógico será o conhecimento derivativo por comparação. Neste último é que se origina o famoso postulado de Van Til que diz que pensamos os pensamentos após Deus. Aqui, cabe esclarecer, que Clark também concorda com Van Til que só é possível um conhecimento que Deus o já tenha conhecido. Então, qual é a controvérsia? Para Clark, o conhecimento analógico só é possível se ele tem por base o conhecimento unívoco. Por isso precisamos compreender e dominar esses conceitos. Pois, toda a controvérsia surgiu de uma interpretação errada de Van Til sobre o que seria unívoco para Clark. Van Til (e vantilianos) achavam que Clark defendia uma razão humana autônoma de Deus e, sendo assim, vantilianos acreditam que o conhecimento analógico e unívoco são inconciliáveis. Darei mais exemplos: 1)Conhecimento unívoco: Jesus ressuscitou. Não pode haver margem para quaisquer outras interpretações aqui. Ressurreição é volta dos mortos na frase acima. Assim, para Clark, o termo usado não pode ser ambíguo, pois custará um problema na nossa comunicação. E mais: o conhecimento unívoco nos permite conhecer o conhecimento do próprio Deus. Para Clark, a regeneração é habilitar a mente a compreender a lógica divina, pois agora temos a mente de Cristo (daí, a Bíblia afirmar que o nosso culto é racional - Deus é lógica!). 2)Conhecimento equívoco: Jesus ressuscitou. Se o termo ressuscitar pode se referir a mais de um significado (polissemias e metáforas), então o que Deus quer dizer com essa frase Jesus ressuscitou é uma incógnita, pois eu posso entender que ele aparentemente retornou dos mortos ou que os discípulos tiveram uma experiência de loucura coletiva. Se os termos possuem vários significados que eu possa atribuir nunca saberíamos com exatidão o que Deus quer nos comunicar. 3)Conhecimento analógico: Jesus ressuscitou é o mesmo que a borboleta que morre lagarta e se ressurge em borboleta. Será? A analogia, se é feita em base equívoca, pode trazer muita confusão e conhecimento algum dos pensamentos de Deus! Por tudo o que foi explicado acima, vemos a importância dessa discussão para a apologética e a epistemologia. Exatamente por Tomás de Aquino advogar o conhecimento analógico é que ele defendeu que a razão e a fé caminhavam juntos até que a razão se colocasse contra a fé. Neste ponto, a fé iria seguir seu próprio caminho. Ora, isso nada mais e nada menos significa que, por seu lado, a razão chegaria às suas próprias conclusões. Olha a autonomia da razão na tangente aí. E, sendo assim, não podemos afirmar ou confirmar que a fé está conhecendo os pensamentos de Deus, porque tivemos que largar a razão no seu próprio caminho. Mais à frente, uma alternativa a esse conhecimento analógico tomista que separa razão e fé será Kierkegaard. Este filósofo vê que o cristianismo é uma religião de paradoxos mesmo, incompreensíveis pela razão e, por isso, só é possível saltarmos na fé os abismos incompreendidos pela nossa razão. Clark refuta o conhecimento analógico de Aquino e Van Till e, obviamente, a fé desesperada de Kierkegaard.
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