Como todos nós ´pensamos um dia sobre nossas vidas: o que eu posso fazer? como marcarei meu tempo na terra? eu sou especial? qual meu objetivo/propósito de vida? Paul Frolich alemão, filho de trabalhadores e grandioso comunista descobriu qual era a missão de sua vida: resgatar a vida, o pensamento e a obra de Rosalie Luxemburgo. A intelectual de punho firme, olhos expressivos, mente ávida, pensamento dialético e exímia em estratégia e tenacidade em lutar pelos objetivos mais puros e complexos da revolução socialista: levar os trabalhadores assalariados a alcançar um patamar de liberdade e assim ajudar internacionalmente para que todos os trabalhadores do mundo também pudessem conhecer a plenitude da vida e, dessa forma, de fato, desenvolverem-se livremente a partir da sua vontade de progresso amplo e para todos e todas independente de qualquer grilhão que fora inventado no passado.
Nessa caminhada, ou seja, na leitura do livro, o leitor é pego pensando: só vejo elogios ou quando muito frases que levam a um mesmo sentido: pensar em Luxemburgo como um diamante raro sem defeitos. A questão não é que o autor tão comprometido com a memória da pensadora simplesmente quisesse pintar uma imagem de brilho ofuscante frente aos nossos olhos, mas quis mostrar a envergadura do caráter de Rosa Luxemburgo uma mulher que desde muito cedo desenvolveu sua genialidade e que sempre transpôs obstáculos. Mesmo de saúde, financeiro ou emocional. Não teve uma vida fácil após entrar na juventude e sempre se comprometeu com a causa que dialeticamente tornou-se sua vida e a sua vida era a causa, melhor dizendo, Luxemburgo era sujeito histórico e se deslocou inúmeras vezes não para ser coadjuvante mas protagonista. E, como é de se esperar, sempre o foi.
Não é por nada que na memória história alemã essa comunista é renegada quantas vezes forem necessárias. Polonesa de nascimento, russa por colonização e alemã pela candente e sincera luta que travou na época mais avançada da Social Democracia. Algo que é fácil de se notar nas biografias de revolucionários comunistas: a genialidade, a solidariedade e a insistência. Posso afirmar como uma comunista que não serão mais produzidos intelectuais marxistas como ela, Lênin, Trotsky e Lukács como tantos outros da velha guarda. Que não se corromperam pela contemporaneidade tampouco pelas adversidades próprias do Partido cada vez mais deturpado e direitista. Fenômeno completamente visível nos Partidos de esquerda não somente do Brasil, mas do mundo.
Não foi a teoria marxista que falhou ou mesmo os erros contundentes da URSS, mas a esquerda tem falhado não só com indivíduos como Luxemburgo, mas com a história e principalmente com os trabalhadores desde os votos de crédito de guerra! E como consequência dessa falibilidade temos que lidar com o assombro de uma historiografia burguesa que esconde da maneira mais funesta, desonesta e hipócrita a forma como os fatos se sucedem na história.
Desde a incipiência do capital como modelo moderno de produção às revoluções burguesas que em pouco tempo tornam-se contrarrevolucionárias. O mais dolorido de toda e qualquer história sobre legados socialistas é que a burguesia consegue colocar a própria classe trabalhadora contra eles! E a classe, no mais singelo sentimento de fraqueza, desesperança ou fragilidade recai com todo ódio sobre aqueles que tentaram fazer com que ela finalmente soubesse o que era ser livre.
Essa resenha tem antes de um olhar crítico e experiente sobre as questões da esquerda, um sentimentalismo honesto que se interpõe não somente pela decepção e esgotamento sobre essas leituras, mas pelo orgulho de saber que está certa. Não sou Rosa Luxemburgo tampouco serei alguém de sua envergadura, porém, sinto-me no direito de defender e postergar para o futuro os atos mais corajosos, excêntricos e altivos dessa personalidade.
Assim como Marx e Engels e seu sentimento profundo por uma humanidade repleta de felicidade e que atingisse o nível mais alto de socialização da produção Luxemburgo também estava banhada e coberta por uma vontade inerte de seu ser em seguir tudo o que era necessário para chegar à Revolução.
Entre turbilhões, prisões, deturpações e xingamentos ela veio. E Rosa sorriu como se visse a primavera mais primaveril de todos os tempos. Ainda que um sonho breve, ela não largou a mão da realidade em saber que essa revolução que chegava estava plena e precisava apenas se alocar. Ela sabia também pela experiência bolchevique que a contrarrevolução viria, a fome, o delírio, a violência, os saques e os planos viriam. Mas como uma águia, que de fato foi, olhava de cima todos os acontecimentos e dos labirintos recônditos de sua mente histórica sabia analisar os acontecimentos mais tacanhos e também o que poderia se desenrolar a partir deles!
Não é necessário dizer o que estava por vir na vida de Rosalie Luxemburgo ela mesma o sabia assim como tantos outros. Os sacrifícios que uma revolução pede objetivamente são poucos, mas aqueles que não estão interessados na Revolução socialista que são sempre uma minoria é que desdenham e fazem festa para que o pior aconteça. Foi assim com os bolcheviques e seria assim com Luxemburgo. A diferença é que os primeiros estavam unidos e compartilhavam praticamente do mesmo ideal sob a mesma estrutura do pensamento tendo em representação um líder intrínseco como Lênin, mas a Liha Spartakus tinha somente a Rosa Luxemburgo! Espinha dorsal, mente construtora, olhar de águia e o ímpeto que só os princípios mais altos do socialismo podem trazer.
De quando em quando, aqueles que se escondem atrás dos muros do conformismo com o medo de tomar a história nas mãos assinam com pingos de sangue o próprio fazer indireto dos fatos históricos.
O final trágico brutal de Luxemburgo é uma omissão daqueles que não foram até o final no palco histórico para lutarem pela própria liberdade.