Não quero que esta resenha pareça um chororô gratuito sobre uma leitura difícil qualquer (apesar de que talvez seja isso mesmo). Não é um livro ruim e a pesquisa parece ser muito séria e detalhada. Mas o Skoob é um site para leitores e não para historiadores, então a nota tenta refletir um pouco a qualidade da pesquisa e a péssima redação que o seu autor emprega.
É um livro de 1909 e isso fica claro a todo momento, a redação é abafada, cheia de pedantismos irrelevantes e arroubos poéticos de dar arrepio à alma (e isto não no bom sentido). A redação é muito, muito arrastada, já li coisas arrastadas mas essa rivaliza com elas. É um livro bem desagradável de ler, e o fato de o autor ser português não ajuda muito (pelo menos a mim, que sou brasileiro). O livro é carregado de uma "entonação lusitana" bem pronunciada.
Pois bem, mas ao material: é uma pesquisa longa, detalhada, sobre tudo o que envolvia o Marquês de Pombal e... bem, sua época (como o título já diz). Só achei que o "sua época" ficou meio de fora, isso não é muito abordado, e é difícil entender muito bem o contexto da época, que é pobremente explicado ao longo da obra. Na parte sobre o Marquês mesmo, o texto se apega a documentos e despachos do mesmo, e de outros personagens da época (políticos, diplomatas, etc), o que torna o livro bem entediante, ainda que detalhado.
De toda a forma achei a leitura bem proveitosa e interessante. Coisas que aprendi no livro: o século 18 é muito mais movimentado do que imaginamos (obras publicadas e correspondências causam grandes abalos e polêmicas, o que em época de twitter e instagram a gente nem imagina; de alguma maneira a gente sempre imagina algo "pré-histórico" e não vivo, com paralelos no presente). Anedotas de jesuítas se masturbando na calada da noite; que o Marquês terminou a vida chutado por todos e coçando suas sarnas, depois de ter sido um dos homens mais poderosos de Portugal; etc etc.
O Marquês foi muito mais sanguinário do que imaginei. Várias repressões a inimigos e até à população, em processos sem julgamento apropriado e com penas duríssimas (incluindo torturas e mortes bem gráficas, pra dizer o mínimo). O cara era um ditador.
Até onde entendi, o livro se insere num contexto de revisão do papel do Marquês, que foi detonado e praticamente esquecido após sua morte (depois dos seus inimigos quase que literalmente chutarem o seu cadáver), depois revisitado pela historiografia em tom elogiador, para aí vir este livro e retomar o equilíbrio. Então é algo que tem valor neste sentido e ajuda a dar uma visão mais precisa do seu período.
Um problema grande do livro é o fato de ele falar de coisas e pessoas como se você já soubesse delas de antemão. A não ser que você tenha do lado toda a genealogia da Europa e da nobreza da época, você fica sem entender quem é quem. Ele não fala, "o rei da Espanha", ele fala o nome do cara. E assim para todos os envolvidos. Fica difícil acompanhar (e bem chato).
É um livro bom para embalar o sono, se você sofre de insônia, recomendo muito o livro. Eu literalmente dormi depois de ler alguns parágrafos, e não é ironia, eu realmente dormi, o que na verdade foi bom.
O livro fala muito pouco do Brasil, o que me decepcionou. É praticamente um livro só sobre Portugal e a Europa. Pombal só proíbe os jesuítas lá pelo final, o que me decepcionou também, pois na verdade é isso que eu queria ver.
Foi uma leitura que ajudou a entender melhor porque os jesuítas eram tão odiados por ele, praticamente eles foram o "bode expiatório" pra todas as cagadas que Portugal fez nos últimos 200 anos.
Uma passagem engraçada é quando Napoleão marcha por Portugal (já muitos anos depois) e revira os ossos do Marquês de Pombal. Os caras reviram o túmulo e espalham tudo. Segundo o autor do livro, uma "mão piedosa" foi lá e juntou tudo depois. Triste destino para o ex-ministro.
Os parentes do Marquês e seus desafetos tudo se casam depois, misturando o sangue das famílias rivais, o que termina o livro num tom irônico e amargo (muito bem-vindo aliás).
E, por fim, o livro tem uma mania irritante que é se referir ao Marquês como "Carvalho". É toda hora "Carvalho isso, Carvalho aquilo", é só uma reclamação meio boba, mas é algo que incomoda muito. Carvalho é um nome muito feio (me desculpa se você se chama Carvalho).
A preocupação com a redação ou com questões narrativas é zero no livro, ele é praticamente um amontoado mais ou menos organizado das pesquisas que o seu autor fez, não é exatamente ruim mas é um parto pra ler.
Por conta da pesquisa muito bem elaborada (não sou historiador, mas pareceu), vale nota 4. Por conta da redação ruim e extremamente pedante, eu daria um 2 sem qualquer problema. Então uma média 3 acho uma boa nota.
O prefácio é muito bom, escrito nesta edição de 2010. Pelo que entendi, parece que este livro é reeditado bastante vezes em Portugal e no Brasil. O prefaciador explica muito bem o contexto do livro e algumas das passagens que foram revisadas pela historiografia mais recente. Muito útil.
Enfim, fiquei satisfeito com a leitura, aprendi mais sobre o período que me interessava, mas a leitura em si foi um saco, arrastei ela por praticamente uns dois meses, o que é sempre ruim de ocorrer. Mesmo assim valeu.