A duras penas
Quem manuseia rapidamente o livro de contos “A duras penas”, encanta-se com a capa multicolorida insinuando ao fundo imagens de várias espécies de pássaros. Ao investigar o Sumário observa títulos como “A cacatua”, “O inhapim”, “O pardal” e etc., e pensa imediatamente: Estou diante de literatura infantil regada à fábulas. Ledo engano “A duras penas” da escritora Edna Rezende é uma coletânea editada em rico projeto gráfico com belíssimas ilustrações de Leonardo Mathias. Embora haja forte apelo, ou melhor, certa afinidade temática com as aves, a ficção de Rezende empreende outros vôos, muito mais altos. Já que mencionamos a fábula, e também porque o livro realmente se abre com uma, é proveitoso refletir sobre o gênero. Como se sabe, trata-se de pequena composição em forma poética ou prosaica na qual se narra - através do riso, sátira ou do absurdo -, um fato alegórico de intenção moralizante, cuja verdade se esconde sob o véu da ficção e onde atuam pessoas, e/ou animais personificados e até mesmo coisas inanimadas podem ganhar vida. Ao longo de um tempo que abrange milênios, as antigas fábulas têm sido não só redescobertas mas reinventadas em seus temas de origem. A criatividade humana não cessa de propor novas fabulações que tem sido plasmadas na matéria complexa e contraditória oferecida pelo mundo deste início de milênio. O denominador comum a todas elas – tradicionais ou reinventadas – é a crítica lúdica aos erros dos indivíduos ou da sociedade, e a escolha de animais como personagens, convivendo com os humanos. A escritora Cinthia Kriemler no Prefácio de “A duras penas” adverte que “Edna alterna contos que ora trazem pássaros como narradores de suas próprias sinas, ora apresentam protagonistas humanos. Em comum unindo-os por meio de uma argamassa pesada, um retrato das misérias humanas que vai revelando lenta e assustadoramente a cada página. Como se a escritora fosse acostumando o leitor, gradativamente, ao que está por vir. E vem. Morte, traição, maus-tratos, inveja, solidão, velhice, todos os elementos da comédia humana estão presentes nesta obra, abordados de maneira subliminar ou explícita”. Com efeito; a obra se inaugura com “A cacatua”, verdadeira fábula narrada pela ótica de um pássaro dessa espécie que foi “adotado”, por uma pequena família de pais e filho único. O casamento se esfacela na monotonia e indiferença, e a esposa entra em uma depressão sem volta, incapaz de qualquer reação. O pássaro assiste a tudo e reflete: “Depois que eu havia feito muita desordem, dona Marisa chegou. ‘Deixe a Gigi em paz’, ela disse. Ai eu me assustei mais ainda. Dona Marisa estava acabada, magra, um fiapo. Veio até mim, alisou-me a crista com suas lindas mãos. Pensei que finalmente fôssemos brincar, mas nada aconteceu. Ela se assentou na copa com o olhar perdido e seu dedo comprido ficou alisando o alto da cabeça”. Interessante notar neste conto que a negatividade e desestruturação que assola aquela família termina contagiando a própria cacatua. Bela metáfora a nós lembrar que o desamor e o mal têm o poder medonho da contaminação. Outro conto situado na mesma linha de fábula pura é “A joaninha-de-barro. Mas é em “O coleiro” que a autora resvala para um realismo mágico muito bem arquitetado que une as perspectivas de um pássaro coleiro (preso em uma gaiola), uma cobra-cipó e uma mulher entrando na idade madura. É texto extremamente bem urdido a perquirir de forma contundente questões existenciais que se entrelaçam. Um pássaro preso em uma gaiola. O que afinal é a liberdade? Um fascínio mútuo (no nível do simbólico) nasce entre a cobra e o pássaro, a caça e o caçador cara a cara, as brutais leis da natureza relativizadas, e ao fim e ao cabo o deparar-se com a solidão. Belíssima metáfora inclusive da incompreensão humana e do que dela sempre decorre. O desastre! Outros contos de destaque são: “O inhapim”, “O pintassilgo”, “O pardal” e “O melro”, positivamente o mais profundo na exposição dessa verdadeira chaga humana a que damos o nome de vingança! É na representação do absurdo absolutamente real no mundo ficcional, (não possível no Realismo puro), que tais ficções reunidas cumprem a função de perturbar e incomodar, que fazem vir à tona o que negamos ou simplesmente fingimos não ver: a violência, as traições, a mentira, o medo elementar da morte, o sujeito grotesco em ações e aparências, a decomposição de valores e a falta de explicação do mundo por regras lógicas e racionais. Na tessitura dos textos, e na fabulação criativa - não importa a quão próxima (ou não) esteja do real - é empreendido um discurso filosófico-existencial que, de maneira bizarra, coincide com nossa realidade empírica. Resta-nos ante a coincidência entre esses “reais”, o riso (do desespero) e a reflexão. A dedicatória aposta no início do volume: “Aos que sofrem”, nos faz refletir sobre essa preocupação da autora que perpassa todos os textos. No conto “O melro”, a narradora deixa escapar: “O filhote sempre crocava depois da meia-noite. De hora em hora, os crocs ressoavam nos meus ouvidos, intimidação que o sofrimento dos outros até hoje provoca em mim” e recordamos ainda que a locução adverbial “A duras penas” significa algo conseguido com sofrimento muita dificuldade, muito risco. Eis a trajetória da humanidade, sempre à duras penas, sobretudo em nosso tempo em que homens vagam perdidos em máres e desertos a procura de pouso certo, em que muros e cercas se levantam nas fronteiras e extremismos conservadores se consolidam. Pensar em vôos pode até parecer ofensa grave ou ‘terrorismo’ por outras vias, porque rebanhos não voam. A fina consciência da autora é louvável ato de resiliência, um exercício do questionamento quanto as gaiolas que nos aprisionam. Anos terríveis parecem se avizinhar. Escritores devem cumprir sua sina nas trincheiras da liberdade. Afinal, como adverte Manoel de Barros, “Pensar é uma pedreira. Estou sendo”. Um pensar doloroso e poroso este das ficções da autora, que se dobra sobre si mesmo “a duras penas”. Esta a imposição de nosso tempo “Estar sendo”. O inacabado do gerúndio ensina muitas coisas. Entre esses ensinamentos, está a fluidez de uma contemporaneidade na qual as áreas de escuridão não podem ser olvidadas. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo. Ao navegar por essa perversa obscuridade, o passageiro contemporâneo percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo. Deus, como tudo e tanto se entrelaça quando nos propomos a olhar do alto, bem do alto, longe do rés do chão! Carlos Drummond de Andrade escreveu “o homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam.” Recordamos também do breve poema de Fabrício Carpinejar: “Chega um momento / em que somos aves na noite, / pura plumagem, dormindo de pé, / com a cabeça encolhida. / O que tanto zelamos / na fileira dos dias, / o que tanto brigamos / para guardar, de repente / não presta mais: jornais, retratos, / poemas, posteridade. / Minha bagagem / é a roupa do corpo.” Os contos reunidos em “A duras penas” são verdadeiros vôos rasantes em nossa pesada atmosfera interior a nos mostrar porque nos falta ainda a doce “alegria libertária dos passarinhos”. Livro: “A duras penas”, contos de Edna Rezende. Editora Patuá, São Paulo – SP, 2018, 156p. ISBN 978-85-8297-627-2 Link para compra e pronto envio: https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/8994/a-duras-penas-de-edna-rezende

